Cosmopolita

Velho Chico e os espaços de empoderamento feminino

‘Como mulher nordestina que sou, pouco me sinto representada pelos personagens femininos da novela Velho Chico’. Por Edianne Nobre

A despeito de tanto mestrado
Ganha menos que o namorado
E não entende o porquê
Tem talento de equilibrista
Ela é muitas, se você quer saber

– Desconstruindo Amélia, Pitty (2009)

Na novela Velho Chico, cujos primeiros capítulos eu acompanhei com empolgação (mais pela fotografia e pelo amor que eu já sinto por esse rio), temos várias representações sobre o Nordeste e sobre os nordestinos. Criação da Rede Globo, a trama de Benedito Ruy Barbosa mostra um Nordeste a la Auto da Compadecida.

A novela vem, inclusive, sofrendo muitas críticas pelo roteiro aparentemente atemporal, no qual temos personagens que usam celulares modernos vestidos como no início do século XX.

A cidade fictícia de Grotas do São Francisco possui duas grandes fazendas de frutas, mas não tem supermercado. O povoado inteiro faz suas compras no único comércio local, um secos e molhados que, honestamente, não existe mais nem nos filmes de baixa produção. Parece que os roteiristas da Rede Globo acreditam veementemente que vivemos dentro do poema Morte e vida Severina, de João Cabral de Mello Neto: seca, caatinga, sotaque forçado e roupas reaproveitadas de algum filme medieval medíocre.

Apesar de tudo isso, continuei assistindo a trama até o episódio do dia 22 de abril, quando uma das personagens, a linda Olívia (Giullia Buscacio), reclama à irmã um beijo que lhe fora roubado por Lucas (Lucas Veloso). Isabel (Ana Raysa), irmã de Olívia, ri e pergunta “em que tempo ela vive” e se aquele fora seu primeiro beijo, a qual Olívia (que aparenta ter uns 17/18 anos) responde que sim, afinal “que tipo de mulher” a irmã pensa que ela é?!

O mais curioso aqui é que essa representação ideal feminina não é exclusiva da mulher nordestina. Nesse caso, todas as mulheres são afetadas por essa construção machista, na qual nós mulheres devemos “esperar o casamento”,  “não transar no primeiro encontro”, etc.. Olívia é a representação de uma senhora apresentada recentemente em certa revista de circulação nacional: bela, recatada e do lar, ou seja, apática, obediente, fútil e, principalmente, assexuada: sem desejos, sem paixões, sem tentações.

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Imagem: Divulgação

Como mulher nordestina que sou, pouco me sinto representada pelos personagens femininos da novela Velho Chico. Vemos desfilar continuamente uma série de estereótipos criados para ridicularizar e justificar a suposta inferioridade feminina: na mucama Doninha (Bárbara Reis), vestida, aliás, com um figurino que parece ter sido inspirado nas escravas domésticas do século XIX, encontramos a subserviência e devoção a uma família que não é a sua; na megera, Dona Encarnação (Selma Egrei), está representada o fanatismo religioso e a carolice das beatas das primeiras décadas do século XX; Maria Tereza (Julia Dalavia/Camila Pitanga) que no início da trama, indicava ser a personagem que se revoltaria contra os desmandos do patriarcalismo, volta na segunda fase da novela como uma mulher insossa, chorosa e submissa. Luzia (Larissa Góes/Lucy Alves) tem uma história interessante, mas sua vida gira em torno da obsessão pelo marido.

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Imagem: Divulgação

Talvez a personagem mais interessante seja a professora Beatriz, interpretada pela maravilhosa Dira Paes que, justamente, por ser tão forte, obstinada e selvagem (no sentido da ferocidade com a qual enfrenta os problemas), ainda não ganhou muito destaque. Em um dos episódios, ela aparece protestando sozinha em um comício do prefeito corrupto, pedindo apoio financeiro para a escola em que trabalha e denunciando os desmandos dos políticos de Grotas e da família Sá Ribeiro. É bela, desbocada e da rua, como todas nós devemos ser, neste momento, em que estereótipos se reforçam, em que Ministérios de cunho social são extintos e as mulheres são marginalizadas no cenário político nacional.

É meu desejo que, cada vez mais, Beatrizes e Marias ganhem espaço e que nós não nos rendamos a uma ordem que nega nossa inteligência, paixão e sexualidade.

 

* Edianne Nobre é contadora de histórias, leonina e filha de Oya. Já morou em algumas cidades do mundo e agora vive em Petrolina. Antes de morrer quer viajar muito mais, pular de pára-quedas e dançar um tango em público.