Ciência & Sertão

Marielle, presente!

‘O Brasil não é o país da paz e amor. Nunca estivemos livres da cultura escravocrata’. Por Helinando P. de Oliveira

Eu poderia falar da nanotecnologia, das estrelas, da gravitação ou da teoria de Einstein. Montar um texto lindo sobre o Big Bang ou sobre o futuro dos grafenos na terra. Afinal esta é uma coluna que trata de ciência. Só que a ciência é feita por gente, gente como a gente, que nasce, vive e morre. Gente que tenta ser eterno pelos seus artigos e legados tal qual os faraós do antigo Egito… E termina esquecendo que irremediavelmente será uma foto na estante e depois disso, nem mais isso… Hoje não quero falar de ciência, perdoem-me os leitores. Quero falar das pessoas que não tiveram a oportunidade de fazer o que queriam. Quantos potenciais cientistas que nunca cruzaram os portões da Universidade, tantos outros que viram seus sonhos frustrados… E não falo aqui de oportunidade, bolsa permanência ou restaurante universitário. Falo de violência.

Esta guerra diária que ceifa a vida dos jovens no trânsito e pelo fogo das armas. Arma que cala as vozes, como a de Marielle Franco, covardemente assassinada no Rio de Janeiro. Arma que teima em silenciar os pobres, negros e favelados, como se a vida deles valesse menos que a vida da burguesia, que entende que a classe média é convencida pela mídia enquanto que a pobre é assassinada. E ainda assim se negam a ouvir que a carne negra é a carne mais barata do mercado. Santa hipocrisia!

O Brasil não é o país da paz e amor. Nunca estivemos livres da cultura escravocrata. As pessoas que saíram as ruas em 2016 lutaram contra os pobres e não contra a corrupção. Incomoda a elas saber que o filho de seu Fernando (eletricista que não concluiu a Escola Técnica e que morava na entrada da favela da Tieta) daria aula de eletricidade na Inglaterra.

Elas prefeririam cruzar com o cadáver do jovem cravado de balas por qualquer esquina. Afinal, o mal habita o peito dos incapazes.

E a forte Marielle, mulher, negra, lésbica que levantou sua voz para defender os oprimidos foi morta e tripudiada nas redes sociais. Hoje é símbolo da luta do povo pobre contra essa gente esnobe que dança sobre poças de sangue.

O Brasil não pode se render à bancada da bala e aderir à violência gratuita que as pessoas sem conteúdo pregam. Nós precisamos de amor, este mesmo amor que a companheira de Marielle guarda em seu peito, daquele amor que seu Fernando demonstrou ao pensar no alimento dos filhos enquanto seguia para a uti de um hospital… O amor que Lula doou ao Brasil ao fazer os pobres sonharem… Este mesmo amor que o impede neste momento de chamar os pobres para as ruas em sua defesa.

Já dizia Renato Russo: “mas é claro que o sol vai voltar amanhã”. Que ele volte, então. E encontre sobras de amor pelos cantos da casa, suficientes para fazer erguer um novo jardim. E nele, haverá uma flor chamada Marielle, que se abrirá ao mundo para mostrar que a boa luta não acaba.

Marielle, presente!

* Helinando P. de Oliveira é físico e professor da Univasf. Desenvolve nanotecnologia no sertão desde 2004, quando escolheu ser sertanejo e focar suas pesquisas no Sertão.