Ébano

Quem se importa? Nós nos importamos

“Brasil, Brasil… País da miscigenação, que não vê a “mistura das cores” quando se é para manchá-la de sangue.” Por Ruthe Maciel*

Fora chamada na Segunda-Feira (11/12), para palestrar sobre Direitos Humanos no CIAM (Centro Integrado de Atendimento à Mulher) de Juazeiro, Bahia. Sem pensar duas vezes, e com o tema a ser debatido preso na garganta por anos, seria este o momento de compartilhá-lo com uma singela provocação: “Direitos Humanos… Para quem?”

Como mulher, negra e pobre, Direitos Humanos nunca me pareceu realidade.

Em seu significado, os supostos princípios básicos de humanidade como o direito à vida, ao trabalho, à liberdade e a educação, nunca – desde a época da escravidão no Brasil (último país no Ocidente a aboli-la), – nunca foi uma realidade dada para a população negra e pobre brasileira.

Alarmam-se o genocídio de jovens negros, a população carcerária, os casos de racismo, o desemprego em massa – e quando empregado, sob condições humilhantes – e a educação precária, que crescem desenfreadamente em meio à uma sociedade que modifica o que seria HUMANIDADE, para uma práxis de ódio aos pretos, aos marginalizados, àqueles que a violência não dá descanso.

Ser negro jovem é, por exemplo, não poder correr nas brincadeiras quando criança ou jovem, em hipótese alguma, sob risco de suspeição, agressão ou pior. Apenas pela cor da pele. Afinal, quem se importa?

É o risco de morrer a cada 23 minutos. Apenas pela cor da pele. Afinal, quem se importa?

É ter a quase certeza de seguranças de Shoppings e lojas como suas sombras. Apenas pela cor da pele. Afinal, quem se importa?

É o risco de ser amarrado nu em poste. Apenas pela cor da pele. Afinal, quem se importa?

É ter 111 tiros perfurados no carro e nos corpos num flagrante forjado pelo aparato oficial de “segurança” pública. Apenas pela cor da pele. Afinal, quem se importa?

É ocultação de cadáver de filhos de mães desesperadas. Apenas pela cor da pele. Afinal, quem se importa?

É ser vítima de bala perdida. Apenas pela cor da pele. Afinal, quem se importa?

Brasil, Brasil… País da miscigenação, que não vê a “mistura das cores” quando se é para manchá-la de sangue.

Ser negro é a certeza de se esforçar em dobro para se manter e ter o mesmo salário de um colega de trabalho branco. Afinal, quem se importa?

Nós nos importamos. Nós negros nos importamos. Vidas negras importam.

O sistema social funciona para que nós negros sejamos tratados como a carne mais barata do mercado, e os camburões perduram-se sendo versão atual do navio negreiro.

O sistema tenta e quer nos fazer de coisas.

Mas entre querer e conseguir (e tentam há séculos) vai uma diferença.
Mulheres e homens é o que somos. Vidas negras importam.

Somos de uma geração que cada vez mais se importa uns com os outros.

Enquanto mulheres e homens negros.

“Negro de alma branca” é coisa do passado. Da nostalgia racista e supremacista.

O sistema que se segure.

Black is coming…

E black is beautiful.

 

*Ruthe Maciel – Integrante do MAV. Estudante e poetisa.