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“Respeite as pretas” em marcha

As mulheres negras foram fundamentais para minar a escravidão e tem se constituído cada vez mais como protagonistas na luta contra o racismo. E na defesa da vida da juventude negra. Do futuro.*Por Nilton de Almeida

Tempos atrás, quando os filmes terminavam, e começavam a subir os créditos, as pessoas simplesmente deixavam as salas de cinema. Hoje, os créditos e as cenas pós-créditos são cada vez mais algo determinante para o desfecho e para o sentido geral das películas.

Nesta segunda, 20 de novembro, Dia Nacional da Consciência Negra, que celebra a tradição de rebeldia e resistência do Quilombo de Palmares, Juazeiro se reúne a diversas cidades no Brasil em que os movimentos sociais negros vão às ruas com mais intensidade.

Atualmente, seja por conta da atuação dos próprios movimentos sociais negros, seja pelo trabalho de escritoras e escritores, intelectuais, ativistas, artistas, historiadoras e historiadores (muitas vezes com polivalência), temos à disposição um conjunto de obras densas e de alta qualidade que tem nos revelado sobre as dinâmicas políticas, culturais, econômicas, demográficas e sociais vividas pelo povo negro no Brasil.

“RESPEITE AS PRETAS” não é uma palavra de ordem gratuita. As mulheres negras foram fundamentais para minar a escravidão e tem se constituído cada vez mais como protagonistas na luta contra o racismo. E na defesa da vida da juventude negra. Do futuro.

É preciso muita atenção, por exemplo, aos créditos do filme 13ª Emenda (de 2016), dirigido pela cineasta Ava DuVernay. O documentário disseca as conexões entre hiper-encarceramento e racismo institucional nos Estados Unidos, que junto com o Brasil foram os maiores escravistas da América.

O filme inteiro é uma obra-prima. Uma aula de história social, econômica, política e cultural.

Mas os créditos, com fotos de famílias negras, são um feito extraordinário para um filme que com contundência mostra a formação de uma engrenagem de necropolítica para controle social e racial. Deveras similar ao que há por aqui.

As letrinhas vão subindo e ao mesmo tempo a exibição de fotos de pessoas negras, de pessoas como nós, com seus filhos e filhas, suas crianças nascendo e crescendo, seus alunos, seus amigos, seus lares, suas viagens, seus quintais, suas escolas, suas caminhadas, suas festas, suas salas, seus aniversários… Fotos de pessoas como nós, viajando, sorrindo, celebrando com seus jovens, sua alegria, sua felicidade, sua liberdade, sua humanidade.

Logo, ao assistir 13ª Emenda implica ficar até o último segundo. E quando formos ou virmos a Marcha do Povo Negro em Juazeiro, ou outras ações dos movimentos negros, tenhamos em mente que VIDAS NEGRAS IMPORTAM.

 

OBS: A Marcha do Povo Negro ficará concentrada a partir das 15h no Centro de Juazeiro, Praça Dedé Caxias, Av. Adolfo Viana – Ao lado do Banco Itaú.

*Nilton de Almeida Araújo é professor de História do Brasil, presidente da SindUnivasf (2016-2018), integrante dos Movimentos Antirracistas do Vale e membro do Conselho Municipal de Promoção da Igualdade Racial de Juazeiro.