Cosmopolita

Pequeno glossário do machismo nosso de cada dia

Se você é do tipo que acha que mulher que usa roupa curta, sai à noite para beber com as amigas ou rejeita uma cantada está pedindo para ser violentada, então você compactua e estimula a cultura do estupro. Por Edianne Nobre

Por Edianne Nobre

Cadê meu celular?
Eu vou ligar pro 180
Vou entregar teu nome
E explicar meu endereço
Aqui você não entra mais
Eu digo que não te conheço
[…]
Você vai se arrepender
de levantar a mão pra mim.

– Douglas Germano, Maria da Vila Matilde

No mês que comemoramos os 10 anos de existência da lei Maria da Penha (11.340 /2006), os dados relativos à violência contra a mulher ainda são alarmantes. Segundo informações da Central de Atendimento à Mulher – Ligue 180, 38,72% das mulheres sofrem agressões diariamente, lembrando que estes são relativos às denúncias. Muitos outros casos não são denunciados. Dos casos denunciados, cerca de 67,38% das mulheres foram violentadas por homens que possuíam vínculo afetivo com a vítima, ou seja, alguém do convívio cotidiano: namorados, amantes, maridos, ex, etc., sendo que em 27% dos casos a violência partiu de vizinhos, colegas de trabalho ou conhecidos.*

Eu que já fui chamada de “feminista diabólica” por conta de um texto anterior, gostaria de falar aberta e tranquilamente sobre estas questões que me incomodam, embora hoje não seja militante de nenhum movimento. A violência que nos cerca se apresenta em várias facetas: física, emocional, psicológica e virtual. Gostaria de me deter aqui nas investidas de tipo virtual, chamando atenção para o fato que muitas mulheres assassinadas e violentadas todos os dias podem ter sido vítimas de um ataque virtual. A linha que separa esses tipos de violência é muito tênue e uma agressão verbal pode facilmente tornar-se física. Obviamente, como uma amiga me chamou atenção, não existe uma hierarquia entre as violências, muitas se intercruzam e causam ainda mais danos à vida das mulheres.

Tomo como primeiro exemplo, os ataques aos diversos grupos feministas e ativistas LGBT atuantes nas redes sociais que defendem os direitos igualitários na sociedade entre homens e mulheres cis e trans**, hetero e homossexuais.

Estes grupos são, geralmente, acusados de tentar impor uma “ideologia de gênero”, conceito imaginário, sem fundamento e suporte de qualquer teoria que, segundo os agressores, configura uma “incitação ao homossexualismo ou gayzismo” e uma afronta à “família brasileira”. Obviamente, segundo estas pessoas, só existe um tipo de família: branca, cis, heteronormativa, cristã, de classe média ou alta.

Nessa mesma linha de pensamento, mulheres militantes dos direitos civis básicos são chamadas de “feminazis”, uma junção entre as palavras “feminismo” e “nazismo” em alusão ao suposto caráter autocrático do movimento de mulheres. Segundo a Bruna Leão do site Não me Khalo, o termo foi cunhado e difundido nos anos 1990 por um comentarista político conservador chamado Rush Limbaurg, de acordo com ele, uma feminazi é: “uma feminista a quem a coisa mais importante da vida é assegurar que o maior número possível de abortos ocorra” (Pausa para um “Annhh??!!”).

Estes mesmos defensores da moral e dos bons costumes não acreditam na existência de uma cultura do estupro, promovida cotidianamente em diversos espaços e situações. Bem, a cultura do estupro existe e endossa a ideia de que as mulheres são violentadas porque “não se deram ao respeito”, porque “são fáceis”, porque “pediram”. (Really?) Quando pergunto à uma mulher qual seu maior medo, 10 entre 10 respondem: ser estuprada. Ninguém, jamais, nunca na história da humanidade pediu por isso.

Se você é do tipo que acha que mulher que usa roupa curta, sai à noite para beber com as amigas ou rejeita uma cantada está pedindo para ser violentada, então você compactua e estimula a cultura do estupro. O agravante é que hoje temos no Congresso Nacional, vários políticos que incitam a prática, muitos deles, respondendo à processos por violência contra a mulher. Então o que fazer quando a violência parte daqueles que supostamente deviam assegurar nossos direitos?

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[Imagem: Giovanni Vieira, Traço do Arquiteto.]

A cultura do estupro se dá também quando a mulher é objetificada em um papel de submissão e quando serviria somente para dar prazer ao homem, como na campanha de cerveja do Carnaval passado cujo slogan era: “Esqueci o não em casa”, sugerindo que mulheres quando bebem ficam mais disponíveis aos avanços masculinos.

Recentemente, tivemos dois casos emblemáticos dentro de Universidades, ambos dentro do curso de Medicina. Em 2014, o hino do curso da USP narrava como mulheres brancas, morenas e negras se comportavam na hora do sexo. Trigger Warning: o hino em questão dizia: “a morena gostosa/ abrindo as pernas/ querendo me dar/ […] crioula da b&@#$ fedorenta/ que eu não como nem lavada/ com água benta”. Sim, estes são os nossos futuros médicos!***

Mais perto da gente, aqui no Vale do São Francisco, a torcida da Atlética de Medicina daUnivasf cantou um hino que dizia que os futuros médicos estariam: “Comendo um bode assado e torando as meninas/ Bebemos como loucos/ trepamos como poucos”, segundo matéria publicada no Diário de Pernambuco de 23 de maio do ano passado.

Ambos os casos foram arquivados. É, dá pra ter medo do futuro, mesmo!

Como eu sou uma pessoa que gosto de escrever e, portanto, gosto das palavras em seus mais diversos idiomas, decidi trazer aqui um pequeno glossário dos termos, os quais, se referem às inúmeras ofensas que as mulheres sofrem diariamente nas redes sociais. Antes que alguém pergunte, os termos estão em inglês, pois os primeiros estudos sociais destes tipos de agressão surgiram nos Estados Unidos. Infelizmente, ainda não temos palavras em português que sintetizem tão bem a ideia que estes termos dão. Além disso, inglês é o idioma é predominante na linguagem virtual. Bom, vamos lá:

– Revengeporn: A “pornografia da vingança” é uma prática de humilhação que consiste em expor virtualmente imagens ou vídeos íntimos da mulher sem autorização da mesma. Aqui, você pode perguntar se vale para a mulher que expõe um homem nas redes e a resposta é sim. Vale. O problema é que, segundo o site CyberJustiça, 80% das vítimas da pornografia da vingança são mulheres. Além disso, os efeitos dessa exposição sempre são mais violentos nos casos em que mulheres são expostas. Geralmente, são obrigadas a responder porque se deixaram filmar ou fotografar, têm que mudar seus hábitos, rotina, sair das redes sociais, pois lá os ataques continuam e se multiplicam e até casos mais graves, nos quais a vítima comete suicídio.

– Slutshaming: Algo como “envergonhar a vadia”, é o ataque ou culpabilização feitos, publicamente ou não, à mulher que expressa sua sexualidade de uma forma que não corresponda às expectativas patriarcais da sociedade. Geralmente, diz respeito às mulheres que usam roupas curtas ou decotadas. Um caso famoso é o da expulsão da Geisy Arruda da Universidade, a qual estudava, por conta de um vestido curto. O que se segue é a classificação dessa mulher como “puta”, “vadia” etc. Há casos mais graves como o da exposição da carioca de 16 anos, que, além de estuprada por 34 homens sofreu revengeporn e slutshaming. Muita gente nas redes dizia que o comportamento da moça teria justificado a violência. Então, dá pra ter fé na humanidade?

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[Imagem: GÉLEDES – Instituto da Mulher Negra]

– Gaslighting: Algo como “à meia luz” ou “luz baixa”. O termo foi forjado a partir do filme Gaslight de 1944, dirigido por George Cukor e conta a história de uma mulher, interpretada pela belíssima Ingrid Bergman, que vive com seu marido, um abusador interessado em sua fortuna que usa várias técnicas sádicas fazendo ela pensar que está louca, por exemplo, programando uma lâmpada a gás (gaslight) para que se ligue e desligue repetidamente, causando medo na vítima; escondendo objetos que ela tinha guardado e fazendo-a duvidar se eles realmente estavam ali. Em resumo, é um abuso emocional, no qual há uma manipulação psicológica da vítima, levando-a a acreditar que ela perdeu a razão. O agressor usa frases do tipo: “Você é tão dramática!”, “Você deve ter se confundido”, “Você está exagerando”.

– Manterrupting: Um neologismo a partir dos termos “man” (homem) e interrupting (interromper), algo como “homens que interrompem”. Além de extrema falta de educação, a prática revela o desdém pelo que uma mulher teria a dizer. Acontece constantemente em reuniões de colegiado nas universidades, por exemplo (se liguem, professores!), quando uma professora tenta falar e é constantemente interrompida. “Como eu estava dizendo…” vira frase constante.

Bropriating: Mescla “brother” (irmão, no sentido slang cria uma intimidade inexistente) e “appropriating” (apropriação). Se dá quando um homem se apropria indevidamente de uma ideia posta por uma mulher, tomando-a para si e ganha os créditos: “É exatamente o que eu disse”, é uma frase típica que exemplifica o conceito.

Esses são só alguns exemplos do que nós mulheres passamos every single day. A luta é cotidiana e a ideia aqui é fomentar o debate. Lembrando que os ataques virtuais são enquadrados como violência psicológica na Lei Maria da Penha e os responsáveis pelas injúrias devem ser punidos juridicamente. Fica o recado: agressores não passarão!

 

*Nos dez primeiros meses de 2015, do total de 63.090 denúncias de violência contra a mulher, 31.432 corresponderam a denúncias de violência física (49,82%), 19.182 de violência psicológica (30,40%), 4.627 de violência moral (7,33%), 1.382 de violência patrimonial (2,19%), 3.064 de violência sexual (4,86%), 3.071 de cárcere privado (1,76%) e 332 envolvendo tráfico (0,53%).Os atendimentos registrados pelo Ligue 180 revelaram que 77,83% das vítimas possuem filhos (as) e que 80,42% desses (as) filhos(as) presenciaram ou sofreram a violência. Fonte: http://www.compromissoeatitude.org.br/dados-nacionais-sobre-violencia-contra-a-mulher/

** A violência contra as mulheres trans, no entanto, é registrada no Relatório sobre a Violência Homofóbica no Brasil, e, embora eu não seja estudiosa do tema, discordo sobre a ausência das mulheres transgênero no Mapa da Violência contra a Mulher, considerando que a identidade de gênero é a mesma, mas assumo que preciso estudar e me informar melhor sobre isso.

*** Chamo atenção também, para o fato que no referido hino, as “mulheres preferidas” são as brancas e as morenas, sendo as mulheres negras depreciadas. Segundo o Mapa da Violência contra a mulher de 2015, 54% das mulheres assassinadas são negras. O mesmo Mapa aponta que no Brasil uma mulher é estuprada a cada 11 minutos (11 minutos!!!) e destas, 51% das vítimas são negras.

Edianne Nobre é contadora de histórias, leonina e filha de Oya. Já morou em algumas cidades do mundo e agora vive em Petrolina. Antes de morrer quer viajar muito mais, saltar de paraquedas e dançar um tango em público.