Olhares

Melancolia e narrativas do cotidiano – sobre ‘Velma Viu a Vida’

A seção Olhares deste mês traz o projeto fotográfico ‘Velma Viu a Vida’ da antropóloga petrolinense Tainã Aynoã Barros

Despretensiosamente, o projeto @velmaviuavida foi criado com a finalidade de comportar fotografias, inquietações, e reflexões feitas por mim em alguns dos muitos momentos da vida cotidiana que já não cabiam nem convinham mais ao perfil pessoal do facebook, sobretudo porque, no espaço referido, via que não eram bem compreendidos os personagens que incorporamos a todo tempo nessa mesma vida cotidiana, cheguei a essa conclusão depois de tantas pessoas reclamarem da frequência com que mudo minha foto do perfil, que considero avatares! Assim criei a página para que quem se identificasse com essa maneira de sentir, pensar e viver, pudesse acompanhar por escolha própria.

Me chamo Tainã Aynoã Barros, sou de Juazeiro, embora sempre residi em Petrolina, tenho 25 anos e sou formada em Ciências Sociais, pela UNIVASF. Atualmente mestranda em antropologia pela Universidade Federal de Pernambuco. Estudando antropologia, acabei me sensibilizando bastante com relação aos olhares sob o mundo e sobre as pessoas, passando a desenvolver uma megalomania muito comedida.

De forma lúdica, as imagens do projeto Velma Viu a Vida, enquanto fotografia, são feitas na cidade, nos momentos de trabalho, em espaços residenciais, viagens, com pessoas, coisas, em lugares e também em “não lugares”, que são espaços onde as pessoas estão sempre de passagem, por exemplo: aeroportos, terminais rodoviários, estações de metrô, e etc (categoria essa definida e cunhada pelo antropólogo Marc Augé (1995).

As narrativas de Velma, em resumo, são narrativas imagéticas fortemente influenciadas pela antropologia, feita por eu feminino, melancólico e inquieto.

O que de fato pretendo dizer através deste projeto e nos espaços virtuais escolhidos, é que o coração é um órgão de potente capacidade de registro que não pode – nem deve! – ser dispensada. Um órgão que pode materializar o que sente e experiencia por meio da linguagem escrita e da imagem, por meio da sensibilização que é provocada pelas diversas formas de comunicação social. As fotografias estão sempre acompanhadas de uma narrativa, que é o que dá o foco e o direcionamento da câmera, a situação de quem está fora de campo, e acredito que estas estão sempre numa bela relação de complementaridade. A partir desse projeto e do contato com a fotografia e a antropologia, passei a desenvolver narrativas visuais e a poética das coisas com muita facilidade, assim também comecei um trabalho como produtora cultural aqui no Vale do São Francisco, desenvolvendo múltiplas atividades, como festas e motes criativos, produções audiovisuais, entre outros.

Apenas em nível de curiosidade, para quem se pergunta de onde vem o nome do projeto, Velma nada mais é que a investigadora sagaz do desenho animado Scooby Doo, que procura pistas de maneira minuciosa, ouvindo e observando sempre as pessoas, as histórias e os lugares, nas aventuras e mistérios do desenho, que era um dos preferidos durante a minha infância, personagem essa com quem me identifiquei por minha formação acadêmica de pesquisadora. E, a ideia do “viu a vida” foi pelo simples e ao mesmo tempo revolucionário fato de ter saído de casa para morar sozinha pela primeira vez, num grande centro urbano brasileiro, indo apenas com a cara, a coragem, curiosidade e o sentimento de inquietação no peito. Investida de vida essa que me revelou e ainda revela todos os dias coisas novas e diferentes sobre as pessoas e sobre a vida.

Apesar de as imagens serem feitas por mim de maneira amadora, pois quando passei a ter contato com a fotografia não pude de fato me aprofundar tecnicamente na área, devido as atribuições da vida pessoal e profissional), há antes de tudo e acima de todas as coisas, um verdadeiro cabo USB ligado entre minha câmera e o meu coração (besta e que por vezes é também racional, e que se mantém num eterno dilema com a vida que envolve gratidão e revolta).

A grande sacada do projeto e das fotografias feitas é o olhar lançado sobre a cidade e sobre as pessoas numa perspectiva muito mais humanizada e humanizadora para quem as recebe, mesmo eu tendo começado a investida num momento de intensa crise existencial, por isso a melancolia em preto e branco tão marcante nas fotografias. Entretanto, como a vida é feita de fases, o projeto não seria diferente, ele está sempre criando, inovando, transmutando, o que é da nossa própria condição humana. O importante mesmo é não perder a poesia contida nas coisas, nos espaços e nas pessoas, onde quer que elas estejam. Não podemos parar de procurar e enxergar o amor, pois ele o é força, e força é isso, isso que a gente precisa. Muito! Muito, muito, muito!

Feitas essas poucas considerações, penso ser necessário recomendar e ressaltar: para a leitura dos conteúdos imagéticos das fotografias, recomendo pessoas que estejam num nível espiritual elevado, acima de frieza, indiferença e conformismo.

É necessário se abrir. É necessário sentir.

Gratidão.

Velma (ou Tainã… nunca sei onde uma começa nem onde a outra termina).

facebook.com/velmaviuavida
Instagram @velmaviuavida

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