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‘Sincronização da epidemia’ em todos os estados causa colapso generalizado no país

UTIs cheias, mortes sem leito, taxa de transmissão e variante agravam a crise sanitária Profissionais de saúde lutam contra a falta de insumos e as condições extremas nos hospitais

Profissionais de saúde lutam contra a falta de insumos e as condições extremas nos hospitais (Michael Dantas/AFP)

“O maior colapso sanitário e hospitalar da história do Brasil” – como classificou a Fiocruz – se caracteriza pela reunião de diversos fatores que levam à tragédia iminente. O número de casos e mortes segue crescendo exponencialmente, as UTIs estão chegando ao seu limite máximo de internação, pessoas já estão morrendo sem atendimento médico e a vacinação segue em ritmo muito lento. Para piorar, a crise acontece simultaneamente em todo o país, impedindo transferências de pacientes. Na quarta-feira (17), a média móvel de óbitos pela doença no país ultrapassou a marca de 2 mil pela 1ª vez.

“Esta é a primeira vez que temos uma crise sistêmica, em todo o país, com praticamente todos os estados e as maiores capitais em situação extremamente crítica”, explicou o coordenador do Observatório Covid-19, Carlos Machado de Freitas. “Os colapsos do sistema de saúde que já enfrentamos antes sempre foram locais no máximo estaduais, como o caso dos imigrantes haitianos e venezuelanos em Roraima, os desastres na região serrana de Santa Catarina, um grande número de casos de dengue e de zika no Rio de Janeiro.”

Ao longo do ano passado, como lembra Freitas, foi possível remanejar pacientes de Covid-19 para outros municípios ou estados. Agora, no entanto, com o que os especialistas chamam de “sincronização da epidemia” fez com que a doença aumentasse de forma simultânea em todo o país. “Um dos efeitos diretos desse processo é a impossibilidade de remanejamento de pacientes não só para atendimento Covid-19, mas também para outras causas”, aponta o boletim. “As internações eletivas estão paralisadas na maior parte dos hospitais do país.”

O número de casos de Covid-19 está crescendo a uma taxa de 1,5% ao dia, enquanto o número de mortes aumenta a 2,6% ao dia, valores considerados muito elevados. Na análise de Freitas, que é especialista em saúde pública, essa situação deve gerar uma grande quantidade de casos graves da doença, que exigem internação.

“A situação é crítica e preocupante, nos deixa a todos sem dormir”, afirmou o especialista. Segundo ele, a adoção de medidas de distanciamento social, como sugeriu o novo ministro da Saúde, o cardiologista Marcelo Queiroga, não é suficiente para deter o avanço da crise. A vacinação, que segue em ritmo muito lento, só conterá a pandemia a médio prazo.

O boletim do Observatório Covid-19 Fiocruz, divulgado esta semana, revelou em números a situação extremamente crítica enfrentada pelo país. Das 27 unidades da federação, 25 estados e o Distrito Federal estão com taxas de ocupação dos leitos de UTI Covid iguais ou superiores a 80% – a única exceção é Roraima, com taxa de 73%. Em 15 delas, a taxa ultrapassa os 90%. Em relação às capitais, 26 apresentam percentuais iguais ou superiores a 80%, sendo que, em 19 delas, o número ultrapassa 90%.

“O distanciamento físico e social tem que ser adotado durante toda a epidemia”, afirmou. “Mas a situação que temos hoje indica que a maior parte dos Estados terão que adotar medidas mais rigorosas, de bloqueio e lockdown, acompanhadas de outras medidas sociais para evitar que alguns grupos sofram ainda mais. Já temos pessoas passando fome.”

Freitas lembrou ainda que as medidas mais rigorosas só começam a surtir efeito após 15 dias, como demonstram as experiências de vários outros países do mundo. “Sem a adoção dessas medidas de bloqueio e lockdown, vamos ter mais pessoas morrendo sem assistência na porta dos hospitais e até mesmo em casa”, disse. “Isso é muito sério, não podemos ter pessoas morrendo por falta de assistência; é tarefa do governo organizar e se antecipar. As ações não podem ser apenas reativas.”

Agência Estado/Dom Total

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