Colunas

Nega maluca?

Na nossa região infelizmente ainda é comum o uso de termos que não nos representam.*Por Nilton de Almeida

Não achamos graça.

Não nos representa.

Não nos fortalece.

Na nossa região infelizmente ainda é comum o uso de termos que não nos representam.

“Nega Maluca”, por exemplo, reflete a falta de empatia, pudor ou sequer bom senso, desconsiderando mais da metade da população brasileira ou dois terços da população da própria Petrolina, por exemplo.

É espantoso – não estivéssemos no Brasil – que uma coisa dessa natureza aconteça e não haja incômodo, repulsa ou indignação à altura. Ao menos publicamente.

“Nega Maluca” é um termo racista. Ponto. Antirracista que não é.

“Nega Maluca” não é carinho nem brincadeira. Ponto. Antirracista que não é.

“Nega Maluca” é deboche. É tripúdio. Ponto. Antirracista que não é.

Ao menos é como metade ou dois terços da população vê ou vai passar a ver em um futuro bem próximo.

Há que se fazer um malabarismo muito grande para se dizer que se trata de “homenagem”.

As mulheres negras deste país – nossas mães, irmãs, companheiras, colegas, vizinhas negras – foram e são muito maiores do que isto. Ponto.

Não tem “nada de mais”?

É de grão em grão que a supremacia branca e a invisibilização e/ou estereotipação dos negros enche o papo.

E o que é “estereotipar”? É “ficar estancado, freado, em um só lugar”. É tomar uma representação, uma ideia, uma imagem, opinião ou concepção muito simplificada e petrificar-se nessa representação, ideia, imagem, opinião ou concepção.

“Nega Maluca” é uma petrificação num tempo que está cada vez mais ficando para trás.

É preciso ter isso em mente. É preciso ter em vista que tal “vocabulário” vem de uma tradição de discriminação secular e bem disseminada. A tal ponto de passar despercebida. Aí justamente reside sua eficácia.

Vamos aproveitar este novembro, Mês das Consciências Negras, para pensar e nos posicionar a respeito deste e de outros absurdos. É de grão em grão que o antirracismo vai se consolidar.

“Respeite as Pretas” é uma palavra de ordem neste novembro em Juazeiro. A Marcha será na segunda-feira, 20 de novembro.

Este é um lema que bem pode (e deve) tomar conta do Brasil e do Nordeste.

Este bem é um lema tomar conta de cada uma/um de nós. “Respeite as Pretas”.

*Nilton de Almeida Araújo é professor de História do Brasil, presidente da SindUnivasf (2016-2018), integrante dos Movimentos Antirracistas do Vale e membro do Conselho Municipal de Promoção da Igualdade Racial de Juazeiro.