Cosmopolita

Convoque seu Buda: precisamos escrever a História

“É tudo tão óbvio, que espanta a abjeção que fala fala fala… E eu me calo e reflito <é preciso ter pavio aceso pro lampião do coração não se apagar> porque a gente precisa continuar lutando. É ato”. Por Edianne Nobre*

 “O que me preocupa não é o grito dos maus,
é o silêncio dos bons” (Martin Luther King)

 

Eu sei que a gente fica com medo e o medo paralisa. <Convoque seu buda, o clima tá tenso>. Há dias não durmo direito, tenho pesadelos com coturnos invadindo minha vida, minha casa, minha sala de aula.

Quantos professores não foram presos e torturados por estimular seus alunos a refletir sobre o que viviam? Porque ensinavam sobre esse mal acumulado, sobre as pessoas que só querem tudo para si e nada para os outros? Imagina um professor sendo preso por dizer a seus alunos que eles podem pensar. Na verdade, nem precisa imaginar, olha para trás um pouco, lê um livro de História e você vai saber que já aconteceu: a censura, a educação de um partido só (o do ódio), escutas nas salas de aulas.

Quando eu era criança, cansei de ouvir que pobre só tinha futuro se estudasse. Eu estudei. Me matei de estudar, “queimando pestana” dia e noite, como dizem no Ceará, mas não conquistei tudo sozinha. Tive ajuda das políticas públicas do Governo Lula: bolsa família, bolsa de estudos (iniciação científica, mestrado e doutorado). Isso de meritocracia não existe.

Hoje eu sou professora doutora em uma Universidade Pública e devia estar contente <por ter conseguido tudo o que eu quis, mas confesso abestalhada que eu estou decepcionada>. Diante deste retrocesso que estamos vivendo, como poderei dizer a meus alunos que eles precisam estudar? Se os programas de educação estão sendo dilacerados, filmes estão sendo censurados, pessoas estão sendo espancadas e assassinadas nas ruas por declararem seus votos pró-democracia?

Imagem: http://www.confetam.org.br

Nas ruas, mulheres lutam pelo direito de possuir o próprio corpo; homens matam essas mulheres; um candidato misógino, racista e homofóbico ascende; um candidato do povo está preso; <o mundo tá ao contrário e ninguém reparou>? Não. O mundo sempre foi assim, mas agora (alguns) podemos ver mais claramente. Eu, às vezes, tenho fé na humanidade; na maior parte do tempo, não. <parcela no cartão essa gente indigesta>. E até entendo um homem branco e rico que vota no 17, mas tá difícil engolir cristãos, mulheres, pretos, pobres e gays que pretendem votar no #opositordoHaddad <quanto vale ou é por quilo?>

Queremos aquilo que a sociedade do consumo diz que devemos querer. temos esse buraco para preencher, mas como uma úlcera, quanto mais alimentada, mais cresce. iphone 6. barriga chapada. yoga. gluten free. postar no insta. vida gourmet. <o sistema exige perfis de tv> mas nada preenche o vazio. a sanidade mental à custa de rivotril para quem pode pagar.

É tudo tão óbvio, que espanta a abjeção <dessa gente careta e covarde> que fala fala fala… E eu me calo e reflito <é preciso ter pavio aceso pro lampião do coração não se apagar> porque a gente precisa continuar lutando. É ato.

Em tempos de fascismo e ameaças ao estado de direito, é importante lembrarmos quem somos: mulheres, nordestinos, indígenas, negros, gays, lésbicas, bissexuais, transgêneros, travestis. Intelectuais ou não, é nosso dever lutar pela democracia, pela liberdade de sermos quem somos, assim, estejamos atentos e no dia 28 de outubro, vamos ficar do lado da democracia, vamos lutar com amor, vamos ser sujeitos e produtores da História: #elenão #elenunca #elejamais

 

 

* Edianne Nobre é uma leonina que nasceu em fevereiro. Gosta de contar histórias, viajar e tomar café.

 

 

 

Referências citadas: Convoque seu Buda, Criolo, 2014 (música); Ouro de Tolo, Raul Seixas, 1973 (música); Relicário, Nando Reis, 2000 (música); Esquiva da esgrima, Criolo, 2014 (música); Santo ou Orixá, Glória Bonfim, 2007; Blues da piedade, Cazuza, 1988 (música); Quanto vale ou é por quilo?, 2000 (filme);