Ciência & Sertão

O Brasil que deseja exilar (mais uma vez) as ideias de Paulo Freire

‘Abrir os olhos do povo para o seu papel desagrada excessivamente às elites de plantão, e desta forma, mesmo depois de 30 anos de sua morte, os conceitos trabalhados por Paulo Freire continuam mais vivos do que nunca’. Por Helinando P. de Oliveira

imagem da internet

O patrono da educação brasileira foi uma mente brilhante e destacada de seu tempo. Sua obra, reconhecida como patrimônio da humanidade pelo Programa Memória do Mundo da Unesco, joga luz sobre a importância de uma educação crítica e emancipadora, em contraposição à doutrinária educação “bancária”.

Abrir os olhos do povo para o seu papel desagrada excessivamente às elites de plantão, e desta forma, mesmo depois de 30 anos de sua morte, os conceitos trabalhados por Paulo Freire continuam mais vivos do que nunca. Vejamos um trecho daquela que possivelmente foi a última entrevista dada por ele:

“Eu morreria feliz se eu visse o Brasil cheio, em seu tempo histórico, de marchas. Marcha dos que não têm escola, marcha dos reprovados, marcha dos que querem amar e não podem, marcha dos que se recusam a uma obediência servil, marcha dos que se rebelam, marcha dos que querem ser e estão proibidos de ser… O meu sonho… é que outras marchas se instalem neste país, por exemplo, a marcha pela decência, a marcha pela superação da sem-vergonhice que se democratizou terrivelmente neste país.”

Embora tenha mais de 30 anos, este discurso encaixa perfeitamente à realidade vivida em 2017. Vimos nesta semana a reintegração de um senador impedido pelo STF ao Senado Federal, por votação entre os pares, que discutiam se tal votação poderia ou não ser “secreta”.

Este é apenas mais um capítulo desta longa novela brasileira que começou por um “acordo nacional” que envolvia “todos” e que terminou por destituir toda uma nação de seus direitos conquistados após anos de luta.

Ao contrário das marchas sonhadas por Paulo Freire, o movimento artificialmente sustentado de panelas (por parte das mídias) alimentou o ódio que desarticulou por completo o povo brasileiro. Por ódio a um partido, os trabalhadores admitem perder seus direitos, férias, hora do almoço… Admitem ver pela TV o desfile da corrupção praticada pelos mesmos corruptos que votaram “sim” pelo “grande acordo nacional”. Não há palavra que melhor caracterize este momento, como a “sem-vergonhice” dita por nosso patrono.

Não bastasse o caos instalado, uma proposta é lançada para análise do senado, que seria em sua essência o segundo exílio para Paulo Freire. Sob o argumento de caracterizar a “filosofia da esquerda” e do “fracasso retumbante” de sua teoria é feita a solicitação da remoção de seu nome do posto de patrono da educação brasileira.

No entanto, Paulo Freire extrapola as fronteiras de uma nação e é uma referência mundial em educação. Sendo ou não patrono da educação brasileira, a sua obra empodera aqueles que o neoliberalismo quer calar. E Paulo Freire, convenhamos, não merece ser patrono de uma nação que prega a Escola sem Partido. Se o Brasil quiser, de fato, entrar nesta seara, melhor que escolha um novo patrono. Paulo Freire está em outro nível. No nível daqueles que respeitam as minorias, respeitam os sonhos e lutam contra os poderosos detentores do poder econômico global. Talvez tenhamos retrocedido tanto em nossa história nos últimos dois anos, que Paulo Freire esteja novamente adiantado por alguns séculos. Como outrora dissera, Jesus: “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem”. Que decepção seria neste momento apresentar este novo Brasil aos olhos de Paulo Freire e Darcy Ribeiro. Que vergonha, que vergonha.