Cosmopolita

A amiga genial

“Isso me fez pensar no quanto estamos dispostos a construir relações duradouras e honestas. E o quanto isso é difícil.” Por Edianne Nobre

O tempo, como em todas as coisas, era decisivo.

Elena Ferrante

Nos últimos dois meses imergi na tetralogia da autora Elena Ferrante: A amiga genial, História do novo sobrenome, História de quem foge e quem fica e A menina perdida. Elena e Lila, protagonistas da história, são amigas desde a infância. Compartilham não só histórias peculiares de vida, como também, várias tragédias pessoais.

Eu, que não tenho amigos de infância, alguns mais antigos, fizeram parte da minha adolescência, fui seduzida pela história. Em parte, porque o romance é muito bem escrito e Ferrante sabe como conduzir a narrativa, em parte, porque este ano tive uma experiência dolorosa envolvendo uma amizade.

Revendo minhas notas cotidianas <isto não é um diário>, percebi o quanto quis negar para mim mesma como perder essa amiga mexeu comigo. Depois do rompimento, chorei rios e no outro dia decidi não me importar mais. Mentira. A presença dela ficou ali no meu quarto, nos meus textos, nos filmes e séries que eu assistia e me lembravam ela, nos memes do Instagram que compartilhávamos como duas adolescentes, no café que eu deixei de frequentar porque foi ali que começamos nossa amizade, no sushi que eu deixei de comer porque não tinha graça ir sem ela. Nos cruzamos algumas vezes, e sempre me partia o coração, mas eu fingia não sentir. Ela sempre sorria quando me encontrava. Eu nunca.

Romper essa amizade me fez pensar na minha capacidade de manter relacionamentos. Me senti impotente e culpada. Minha terapeuta insistia que algumas relações têm data de validade, <Que o pra sempre, sempre acaba>. Isso me fez pensar no quanto estamos dispostos a construir relações duradouras e honestas. E o quanto isso é difícil. O quanto estamos dispostos a ceder, a entender o outro e seus limites, a entender nossos próprios limites. Nossa conduta não é sempre medida pela aprovação dos outros? Como Elena que dependia de Lila e vice-versa. Eu que sempre fui ciumenta e possessiva como uma criança de 7 anos, aprendi muito sobre mim mesma com esse rompimento. Talvez, amizade seja isso: ela me ajudou mesmo quando não estava presente.

Lendo a história de Elena e Lila, às vezes, eu me sentia Elena: totalmente dependente do amor de Lila, insegura, carente, precisando de alguém que me suportasse (em vários sentidos). Às vezes, eu era Lila: autoritária, rigorosa, inflexível, determinada a esquecer. De algum modo, as duas se completavam, mas também criaram um relacionamento abusivo de co-dependência, uma consumindo a outra com seu desespero. <É preciso saber viver>.

Ferrante nos ensina que o que falta neste mundo é equilíbrio e <tem coisas que só sai da gente por escrito>. Eu demorei a escrever sobre isso porque não podia assumir a minha fragilidade. Não conseguia assumir a falta que sentia e o vazio no peito. É mais fácil culpar o outro do que olhar para dentro de si e lidar com as feridas abertas. <O prefixo do amargo é amar>.

A boa notícia é que conversamos e nos entendemos.

Quem sabe, seja esse mesmo o sentido da amizade ou de qualquer relação. Quando perdemos, temos a chance de repensar nossa própria conduta e nos colocarmos no lugar do outro. Nos curarmos de nosso próprio ego e orgulho, relativizar. Recomeçar.

Não é voltar atrás, ao contrário, é olhar para frente.

 

 

 

*Edianne Nobre é uma leonina que nasceu em fevereiro. Gosta de contar histórias, viajar e tomar café.

  • Wellington Moreira Lopes

    Tenho ou tinha, não sei, uma amizade de 10 anos com um ser humano lindo e motivador. Em algum momento, por escolhas pessoais, seguimos caminhos distintos e hoje estamos passando pela maior crise que já tivemos, estamos sem se falar por algum tempo, para que pudéssemos respirar outros ares e conhecer novas pessoas. Eu que sempre achei que amigo era para sempre, que a gente está nesse mundo para criar laços e ajudar os amigos, me pego diariamente depois do nosso afastamento pensando sobre o que fazer diante dessa situação? Afinal são 10 anos de companheirismo, cumplicidade e amor, tenho medo de viver sem ele, já que nunca pensei que isso pudesse ser uma possibilidade. Engraçado que logo eu, que sempre valorizei o outro, me pego pensando até onde vai o amor. Que limites pode suportar. Me venderam amores para sempre, amizades para sempre. Mas diante de mim, das minhas escolhas, dos meus sonhos talvez o para sempre seja enquanto durou. Não tenho falado sobre isso, não tenho escrito sobre isso, não tenho “tepariado” ( Já que minha Psicológica saiu de férias justamente agora) mas sinto que quando eu o fizer, cairei, cairei por que ultimamente tudo em mim está em cresci, até o que até ontem jurei que era concreto. Até o que até ontem jurei que era eterno.
    Edianne, que texto lindo, obrigado por me brindar pessoalmente com uma reflexão que nesse momento é tão intima e pessoal para mim.
    “Não é voltar atrás, ao contrário, é olhar para frente.”
    Obrigado.

    • Dia Nobre

      Prezado Wellington, fico muito feliz que o texto tenha contribuído de alguma forma na sua reflexão. Eu continuo achando que o “pra sempre, sempre acaba” e que temos de recolher os cacos e seguir adiante, nos refazendo continuamente. Precisamos nos desconectarmos do mundo para nos reconectarmos a nós mesmos.Para mim, todas as pessoas que passam na nossa tem algo a contribuir, para o bem e para o mal. Se ele tiver que ir, deixe-o ir. Nada melhor que o tempo e este encontro com nós mesmos para nos livrarmos dessas amarras do apego. Siga firme na sua jornada. Abraço! Edianne