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O Processo Medusa e a construção de um espaço de discussão e afetos

“O Processo Medusa é um espetáculo que surpreende, pega de surpresa, incomoda, despe a sua armadura do dia a dia, aponta a questão sem fazer rodeios”. Por Eneida Trindade*

Foto: Sérgio Sá

Há alguns dias tive a oportunidade de assistir a um espetáculo de teatro, mas acabei encontrando um espaço onde se compartilhavam histórias e afetos. Não que isso seja novidade quando o assunto é apreciação artística, mas as narrativas e emoções tratadas ali emergiram também das experiências dos espectadores e da interação do público após o fechamento das cortinas.

Em certa medida, essa dinâmica de participação faz parte da construção do espetáculo. O Processo Medusa, como a peça foi batizada por seus realizadores, é chamado de processo porque não se propõe como algo pronto e acabado ao chegar ao palco. É um projeto coletivo. Um conjunto de elementos que foram se somando a partir das vivências, experimentações cênicas, estudos e discussões dos jovens atores que compõem o Núcleo Biruta de Teatro, um espaço de aprendizagem e experimentação teatral de iniciativa e coordenação da Cia Biruta de Teatro, que se consolida a partir da ocupação artística do grupo no espaço público CEU das Águas, no Rio Corrente e atende jovens moradores do bairro e comunidades adjacentes.

Mas voltando à cena, o meu encontro com essa turma aconteceu em uma das salas do Espaço CEU das Águas, no bairro Rio Corrente, em Petrolina. No cineteatro, organizado de maneira semelhante a uma pequena arena, apesar do formato retangular, o grupo de 16 mulheres e dois rapazes encenou uma releitura do mito da Medusa, utilizando a mitologia grega para discutir temas que cercam a condição da mulher na atualidade, como a ditadura do corpo, a objetificação da mulher, o machismo, a cultura do estupro, o feminicídio, a omissão do Estado, e também o feminismo e o empoderamento da mulher.

Foto: Sérgio Sá

Em meio a essa discussão, o grupo traz uma personagem extremamente popular, com uma história pouco conhecida, uma vez que grande parte das pessoas conhecem a Medusa apenas como a criatura horrenda, com cabelos de serpente, que petrificava quem olhasse diretamente a sua imagem. Mas dizendo isto a história fica incompleta. Falta saber quem era Medusa antes de ser um mostro e como ela se transformou nessa criatura. Essa é uma questão que o espetáculo ajuda a esclarecer, sem a preocupação de trazer o mito em sua totalidade.

Medusa era uma das sacerdotisas da deusa Atena e dona de uma beleza extraordinária que despertou o desejo de Poseidon (deus do mar). Estuprada pelo deus, dentro do templo sagrado, a sacerdotisa passou de vítima a acusada. Foi punida por Atena e condenada por profanar seu templo. Assim, a Medusa teve em sua imagem uma maldição antes e depois.

Se por um lado, ela é a mulher que representa a tentação e precisa evitar o assédio masculino ou se entregar sem objeções, por outro lado, é ela quem recebe a sentença por resistir, pois a sua beleza é, também, provocação. A condenação, nessa circunstância, chega como algo que destitui as mulheres de suas qualidades. Se a personagem do mito perdeu a sua beleza e já não podia mais ser admirada, a medusa da peça, ao clamar por justiça, foi apontada como louca vingativa. Porém, mesmo emudecida, foi nesse momento que revelou a sua força.

O Processo Medusa é um espetáculo que surpreende, pega de surpresa, incomoda, despe a sua armadura do dia a dia, aponta a questão sem fazer rodeios. Ao traçar a analogia entre o mito e a “Medusa moderna”, o Núcleo Biruta desenha um videoclipe. Imagens, músicas e performances se entrelaçam fazendo emergir fragmentos de enredo sobre as diversas violências sofridas pela mulher na atualidade, mesmo que em alguns momentos precise recorrer a símbolos conhecidos para reforçar argumentos, como ao apresentar o homem predador e a mulher caça, ou ao evocar a imagem da Barbie como um ícone da ditadura da beleza.

A intensidade com a qual a narrativa dispõe esses elementos servem como chave para acionar, no público, as memórias das violências vividas ou testemunhadas, mas, ao mesmo tempo, abafam questões invisíveis que também aparecem no espetáculo, como a solidão da vítima, que está só, não apenas por não ter a quem recorrer, mas porque a violência está presa ao seu corpo e à sua alma, mesmo após o fato consumado.

Foto: Sérgio Sá

E nessa hora a Medusa se multiplica. O momento em que a personagem se transforma em monstro é o instante em que sua força emerge. No mito, ela ganha serpentes vivas no lugar dos cabelos, que são também suas aliadas. No palco, as atrizes formam uma Medusa que se fortalece ao se sentir muitas.

Ao fim da apresentação, na plateia, os espectadores também se viam muitos. Antes das luzem se apagarem eu estava diante de completos desconhecidos. Uma hora depois, quando elas acenderam novamente, estava em meio a companheiros e companheiras de um mergulho profundo em sensações, em medos e lembranças dolorosas, atenuados pelo apoio e conforto encontrados no olhar dos outros, no aperto de mãos, no afago, no abraço carinhoso.

Acontece que o Processo Medusa não é só uma peça, não é algo para assistir e voltar para casa. Depois da parte teatral, você é convidado a um bate-papo com os atores e com o público. É nesse momento que emergem as emoções das lembranças trazidas pelo espetáculo e das conexões que cada um traça com a sua própria vida. Entre algumas falas que reforçam a luta feminista, surgem relatos verdadeiros de mulheres e homens sobre as dores causadas pelo abuso e pela violência em seus vários níveis. Dores impossíveis de alcançar pelo discurso, porque estão além dele, mas que são acolhidas pelo público com cumplicidade e afeto.

Eneida Trindade, jornalista.