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Rio São Francisco: um rio para todos

À degradação, falta de conservação e utilização extensiva da água do Rio São Francisco, aliada à negligência com as comunidades ribeirinhas e tradicionais, se reúne a proposta encaminhada a toque de caixa de mercantilização da Companhia Hidrelétrica do São Francisco. *Por Nilton de Almeida

Com sensibilidade e lucidez, um dos mais argutos intelectuais de nossa região, Roberto Malvezzi (Gogó), definiu a situação do rio São Francisco e de outros rios no nosso país. Nossos rios estão sendo mortos. Há um hidrocídio em ação.

À degradação, falta de conservação e utilização extensiva da água do Rio São Francisco, aliada à negligência com as comunidades ribeirinhas e tradicionais – que antes são aliadas do bem comum e da preservação ambiental – se reúne a proposta encaminhada a toque de caixa de mercantilização da Companhia Hidrelétrica do São Francisco. Estamos falando apenas de água, energia e bem estar social. “Apenas”.

Ao longo das águas do Opara, do Velho Chico, sindicatos, movimentos sociais e servidores têm se colocado num crescendo contra esta situação em geral e contra a privatização da CHESF, em particular. Tem muita gente “virando carranca” para defender o rio São Francisco da melhor forma possível.

A privatização da Chesf se insere num movimento mais amplo de entrega do sistema Eletrobrás e da matriz energética brasileira – incluindo o pré-sal e a Petrobrás – a interesses privados, principalmente internacionais.

São redundantes digressões sobre o que isto implica em termos de perdas e prejuízos à soberania nacional.

Olhando para a história das privatizações no Brasil há que se verificar que os interesses privados enfraquecem e reduzem o Estado atropelando e reduzindo os interesses públicos.

Falta de água para priorizar os lucros dos acionistas e (mais) aumento do preço da energia na região entram no horizonte. Entusiastas da privatização argumentam que isso não levaria a maior deterioração do Rio São Francisco, pois essa continuaria sendo objeto de ação da CODEVASF (Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba), independentemente da Chesf, e “talvez” – talvez – se possa criar regras mais claras para a gestão da Codevasf e que não há lugar para conflito no uso da água do Velho Chico.

Ocorre que a história do São Francisco é, também, a história do conflito pelo acesso à água (como sobejamente sabem os movimentos sociais da região).

Propor entrega de patrimônio público com base em “talvez” é imprudente e temer-ário, não fosse o endereço certo dos lucros dos beneficiários deste tipo de medida. E a CODEVASF… Bueno, agora como integrante do pacote de desmonte do patrimônio público, do Estado e das conquistas da Constituição de 1988 está a fusão da… CODEVASF com o DNOCS (Departamento Nacional de Obras Contra as Secas). Foi agora, agorinha, em 11/10/2017.

O que costuma acontecer na esteira das “fusões”? Redução do quadro de funcionários, redução de orçamentos, redução de todos os fatores produtivos no sentido de contemplar os interesses exclusivos (de novo) dos acionistas. E de onde vêm tais propostas? Quem está à frente das propostas de: a) privatização de Eletrobrás/Chesf ou b) da Petrobrás ou c) da fusão da CODEVASF?

Os personagens ativos são representantes da região: Deputado Federal e Ministro de Minas e Energias Fernando Bezerra Coelho Filho (no caso das duas primeiras ações) e Senador Fernando Bezerra Coelho, vice-líder no Senado do governo mais impopular, ilegítimo e lesa-pátria do período republicano. A que poderíamos acrescentar: lesa-pátria e lesa-Velho Chico. É assim que Petrolina ficará marcada quando for feito o balanço da década de 2010?

Como um primeiro antídoto depois de um barulho desses (além da organização e mobilização crescente em defesa do patrimônio público e da Natureza para as futuras gerações), assista-se ao documentário de média-metragem “Nunca traí os pobres” (clique aqui) que conta a história do bispo de Juazeiro Dom José Rodrigues (1975-2003), que sabia bem de que lado estava da história e na História. Um trabalho de conclusão de curso de alto nível de autoria de Celane Rosa e Edísia Santos.

“Nunca traí os pobres”.

*Nilton de Almeida Araújo é professor de História do Brasil, presidente da SindUnivasf (2016-2018), integrante dos Movimentos Antirracistas do Vale e membro do Conselho Municipal de Promoção da Igualdade Racial de Juazeiro.