Notícias

Professor enfrenta tradição de poder econômico e é eleito com proposta de Mandato Coletivo em Petrolina

“Fizemos uma campanha de perfil educativo, com poucos recursos, mas com propostas, sem poluição sonora, sem poluir a cidade com santinhos no dia da eleição, sem troca de favores. Portanto, são votos de uma valor social muito significativo e que representa um anseio efetivo de mudança para o nosso município”, disse.

coletivo

[foto do lançamento da campanha Mandato Coletivo]

A partir de janeiro de 2017 o poder Legislativo de Petrolina passa a funcionar com 23 vereadores na Casa Plínio Amorim.  Embora não tenha havido grande renovação, algumas novidades aparecem e é esperado que os novos eleitos possam de fato fazer a diferença. Entre essas novidades está o professor Gilmar Santos. Educador, ligado aos Movimentos Sociais, com um projeto de mandato coletivo construído ouvindo a população e partilhando nas redes sociais, o professor Gilmar conseguiu se eleger com 1.622 votos.

Em entrevista para o Ponto Crítico, Gilmar disse que o desafio da política é estar dialogando e compondo entre os diferentes, mas o objetivo é construir um mandato de participação popular. Confira.

PC – Fala um pouco de sua trajetória até chegar à sala de aula professor.

GS – Sou filho de dois camponeses que saíram do interior do sertão de Pernambuco e migraram para Juazeiro, onde nasci, e passaram a trabalhar no comércio informal, nas feiras livres, tanto em Juazeiro quanto em Petrolina. Digo sempre que essa foi a minha primeira escola da vida, pois a feira é um espaço primordial de aprendizado. Quando eu tinha três anos meus pais passaram a residir em Petrolina e aqui, através da minha mãe e vizinhos, foi apresentado aos trabalhos pastorais e sociais da Igreja Católica, onde assumi uma consciência social e o gosto pelos processos educativos, pois são espaços onde se aprende e ensina mutuamente. Em 1995 passei a ministrar aula de informática educativa no Colégio N. S. Auxiliadora, onde tomei gosto pela sala de aula. Em 1997 iniciei o curso de licenciatura em História e mesmo antes da minha formatura, no ano 2000, passei a ministrar aulas de História, e mais tarde de Filosofia, Sociologia e Artes em diversos colégios, escolas públicas e cursinhos preparatórios da região, o que faço até hoje.

gilmar-ato-fora-temer

[Gilmar Santos discursa em ato ‘Fora Temer’]

PC – Por que decidiu se candidatar para vereador em 2012 e agora em 2016?

GS – As candidaturas de 2012 e 2016 estão muito relacionadas à minha formação social, de luta junto aos movimentos pastorais e sociais na cidade, por um sentimento de justiça que não admite a manutenção de velhas formas de dominação política como o coronelismo, o clientelismo e a exploração da população, especialmente a mais empobrecida, por conta da cultura de compradores de voto, ou seja, por aproveitadores da miséria do nosso povo. Ainda temos uma cidade marcada pelo poder de quem detém mais dinheiro, e por uma oligarquia que se coloca como detentora do passado, do presente e do futuro da nossa gente. É por isso que ainda temos tantas desigualdades. Resolvi me colocar diante disso através dessas duas campanhas, com propostas para o fortalecimento de políticas públicas e afirmação de uma  democracia popular, com mandato participativo. Agora fiquei mais encorajado ainda por conta dos golpes contra o governo Dilma, contra a democracia e a onda de esvaziamento da política pelo discurso de ódio. Queremos contribuir para minimizar ou até superar esses problemas

PC – Na primeira eleição obteve mais votos e não se elegeu e agora menos e conseguiu uma vaga na Câmara Municipal. Do último pleito pra cá perdeu cerca de 39 votos, o que houve?

GS – Continuo afirmando que, tanto em 2012 quanto agora, em 2016, tivemos a mais vitoriosa campanha eleitoral da história de Petrolina, isso porque estou considerando a tradição de compra de votos na cidade e agora, em 2016, o forte ataque da mídia e de setores conservadores contra o Partido dos Trabalhadores. Ou seja, cada voto que tivemos, em 2012 (1661), e em 2016 (1622), foram votos conquistados a partir da consciência de um eleitor que não aceita mais a forma como as eleições acontecem em Petrolina e, obviamente, em todo o país. Fizemos uma campanha de perfil educativo, com poucos recursos, mas com propostas, sem poluição sonora, sem poluir a cidade com santinhos no dia da da eleição, sem troca de favores. Portanto, são votos de uma valor social muito significativo e que representa um anseio efetivo de mudança para o nosso município. A queda na votação representa pouco, já que conquistamos o mandato. Quando consideramos a quantidade de votos conquistados pela coligação encabeçada pelo PT em Petrolina, a nossa avaliação é sempre positiva.

PC – As redes sociais tem sido uma ferramenta utilizada pelos candidatos para promoverem suas campanhas, inclusive a do senhor teve um foco muito grande nessa nova mídia. Que leitura o senhor faz das redes sociais?

GS – A rede social é uma ambiente de fato democrático, mesmo quando temos manifestações que ferem a própria democracia. Os internautas da rede têm comportamentos diversos, desde aquele que se informa, analisa e debate, até aquele que apenas curti e compartilha sem qualquer leitura ou análise dos conteúdos. A nossa campanha focou na produção de conteúdos, de propostas e de imagens que viessem fortalecer a ideia de uma política comprometida com a formulação de políticas públicas, com as lutas populares e com a democracia. Felizmente fomos bem recebidos pelo público, que além de curtir e compartilhar, criticavam e teciam considerações sobre a importância da nossa campanha. A nossa avaliação é de que acertamos e devemos continuar aperfeiçoando a comunicação por essas vias.

CP – O senhor fez toda a sua campanha baseada em um projeto intitulado “Mandato Coletivo”, o que é isso?

GS – A proposta do Mandato Coletivo é algo que por natureza deveria acontecer com qualquer mandato eletivo. Ou seja, garantir que o mandato do representante tenha participação direta da sociedade, através de movimentos populares organizados, no sentido de orientá-lo para decisões que favoreçam a maioria e, principalmente, a população mais empobrecida.

PC – Como pretende colocar em prática esse projeto?

GS – Na nossa proposta formaremos núcleos nas diversas comunidades, onde estudaremos políticas públicas e nos articularemos para que a Câmara Municipal seja, de fato, um espaço de decisões favoráveis ao interesse popular e não um ambiente de negociatas e conveniências pessoais. O vereador tomará decisões a partir da escuta e orientação da coletividade.

PC – Para ter um projeto aprovado no legislativo é necessário a maioria dos votos. O partido dos trabalhadores só conseguiu fazer dois vereadores, o senhor e a vereadora Cristina Costa. Como o senhor pretende buscar o apoio dos seus pares para que os seus projetos sejam aprovados?

GS – Tenho a compreensão de que a política é a arte de administrar conflitos. Principalmente quando a sociedade vai ficando mais diversificada nas suas manifestações. Nesse sentido está muito evidente pra mim que tanto eu quanto Cristina vamos nos deparar com dificuldades e possibilidades. Nas dificuldades temos uma maioria numérica na câmara, já que o governo Miguel Coelho irá contar com mais de 60% dos 23 vereadores eleitos para aprovação dos seus projetos. Quanto às possibilidades, existem situações em que vamos dialogar com os nossos pares, firmar defesas de projetos comuns, e quando isso não for possível, vamos mobilizar a sociedade para pressionar a Câmara e o próprio Executivo.

PC – O senhor tem sido um crítico ferrenho ao novo governo e a todos os políticos que estão aliados a ele. Por exemplo, o senador Fernando Bezerra Coelho que votou a favor do impeachment da ex-presidente Dilma Roussef e o filho dele, Miguel Coelho foi eleito aqui em Petrolina com o apoio também de Michel Temer, o qual o senhor considera um governo ilegítimo. Miguel é filho de Fernando Bezerra. Como será a relação do vereador Gilmar Santos com o Prefeito eleito Miguel Coelho?

GS – Primeiro que o golpe que sofremos no Brasil é o resultado de uma história de dominação que acompanha o país desde a sua fundação. Apesar de importantes contribuições do PT para reduzir as desigualdades e incluir boa parte da população empobrecida no acesso a direitos sociais, um dos maiores erros do partido foi o de firmar conciliação com uma elite que jamais teve qualquer compromisso com a dignidade do povo brasileiro.  Os ataques que sofremos na mídia, no Congresso, no judiciário, em parte é pelos nossos erros, mas também pelos acertos que tivermos e que assustam por demais esse pessoal  que nunca admitiu gente pobre ocupando espaços que tradicionalmente eram ocupados por ricos. O PMDB do Michel Temer e todos os partidos que se envolveram no golpe alimentam o desejo dessa elite em reassumir os seus espaços, ameaçados nesses últimos anos pelos governos Lula e Dilma.  A minha avaliação sobre a família Coelho é sempre uma avaliação política. Nesse sentido, enquanto professor de História e militante político, sei que essa família contribuiu em alguns aspectos para o crescimento econômico de Petrolina, mas inviabilizou, impediu, dificultou o crescimento social desse município. Basta ver em que condições se encontram os bairros e as comunidades mais afastadas do centro. Há mais de 60 anos os caciques políticos dessa família são responsáveis pela maior captação de recursos públicos através de emendas parlamentares e administrações do Executivo municipal, e consequentemente os maiores influenciadores da nossa realidade. Em 1964 membros dessa família apoiaram o golpe que destroçou a nossa democracia por mais de 20 anos. Agora, eles continuam fazendo a mesma coisa, usaram e abusaram dos recursos públicos durante os governos Lula e Dilma, depois se juntam a golpistas para aprofundar ainda mais a miséria social do nosso povo, por sinal criada com a ajuda deles. É lamentável que parte da nossa sociedade seja cúmplice ou seja manipulada para sustentar essa situação histórica. A minha relação com o governo Miguel Coelho será uma relação política de oposição a tudo isso. Mas será, obviamente, uma oposição responsável, já que o mais importante é saber se o recurso público disponível na prefeitura será aplicado corretamente para melhorar a qualidade de vida dos petrolinenses

PC – Quais suas principais bandeiras de luta na Câmara Municipal?

GS – Daremos atenção a políticas públicas que estão mais ligadas à minha formação e militância política. Nesse sentido, Educação, Cultura, Esportes, Juventude e Direitos Humanos serão acompanhadas com maior prioridade. Penso que um poder público que assume de verdade  compromisso com essas áreas, as possibilidades de desenvolvimento aumentam bastante, já que dessas ações é podemos vislumbrar mais saúde, geração de emprego, turismo e qualidade de vida para o nosso povo.

PC– O que gostaria de dizer as 1.622 pessoas que depositaram um voto de confiança em seu mandato?

GS – Primeiro agradecer a cada pessoa que expressou o seu gesto de apoio ao nosso projeto, seja com o voto ou através da mobilização de outras pessoas. Agradecer a quem não votou na gente mas torceu e vibrou da mesma forma com a nossa vitória. Dizer que assumimos a missão de representar a todos e todas, e que será uma luta de grandes desafios, temos consciência disso. Porém, lembro que só será possível avançarmos para a melhoria das nossas condições com a participação efetiva de cada cidadão. Por isso fica o convite para que nos acompanhem, participem, tragam sugestões, mobilize quando necessário, só assim a gente transforma essa cidade em um ambiente efetivamente democrático e possível para todos e todas.