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A ultradireita quer o poder, de qualquer jeito

“Por isso, não se deve ter moderação ou qualquer tipo de dúvida sobre a necessária derrota da ultradireita. Enquanto eles estão se preparando para uma batalha pelo poder, nós não podemos nos preparar para pedir que as pessoas digitem um número numa urna eletrônica em algum momento do futuro. É preciso muito mais”. *Por Patrick Campos

O Brasil passa de 15 mil mortes em decorrência da covid-19, doença provocada pelo novo coronavírus, no momento em que diversos estados e cidades do país completam dois meses de políticas de distanciamento e isolamento social. No dia 11 de março, a Organização Mundial da Saúde declarou estado de pandemia da doença, que até o momento contaminou mais 4 milhões e matou mais de 300 mil pessoas no mundo

Enquanto alguns países, que adotaram medidas mais intensas de distanciamento e isolamento social, iniciam processos de retomada de suas atividades e que suas curvas de contaminação e mortes começam a descer, o Brasil vive uma situação inversa.

A quantidade de pessoas contaminadas e de mortes cresce a cada dia, mesmo com uma evidente subnotificação dos casos. Mesmo assim, o governo federal combate as políticas de isolamento e incentiva as aglomerações, como reiteradamente vem ocorrendo em mobilizações organizadas por seus apoiadores, principalmente do setor empresarial.

Com o baixo número de testes e a queda de braço do presidente com os governos estaduais e prefeituras para derrubar as medidas de isolamento, a situação mais provável para o Brasil é que não tenhamos um retorno das atividades tão rápido. Pelo contrário. Justamente por esta situação, o que estamos vendo neste momento são medidas que buscam ampliar o isolamento, por meio de decretos municipais e estaduais, bem como de decisões judiciais que determinam o chamado lockdown, ou seja, um confinamento.

Esta medida poderia não ser necessária se o governo federal tivesse assumido o papel de coordenar as medidas de enfrentamento da pandemia desde o começo. Acontece que o governo federal passou a agir como um aliado do vírus, seja defendendo uma contaminação de “rebanho” e um isolamento vertical, seja atrasando e criando dificuldades para a implementação de políticas como a renda básica emergencial.

Esta aliança se dá principalmente a partir do presidente Jair Bolsonaro. Antes da pandemia o Brasil já vivia uma profunda crise econômica e social. Mais de 12 milhões de pessoas estavam desempregadas, a informalidade atingiu seu recorde com quase 40 milhões de pessoas nesta situação, sem falar no crescimento da fila de pessoas para o Bolsa Família e o retorno do país para o mapa da fome.

Ocorre que com a pandemia, aquela situação, que já era resultado da política de austeridade iniciada por Temer e aprofundada por Guedes e Bolsonaro, piorou muito. O programa ultraliberal da dupla Guedes-Bolsonaro jogou ainda mais pra baixo o padrão mínimo de vida do povo, principalmente dos mais pobres.

Se durante o primeiro ano de Bolsonaro já estava absurda a quantidade de pessoas perdendo seus empregos, vendendo de tudo dos semáforos e se submetendo a regimes de trabalho desumanos por aplicativos que mais dão prejuízo do que remuneram, com a pandemia este cenário se agravou ainda mais.

Mas se agravou porque a opção feita pelo governo Bolsonaro, coerente com seu programa, é de proteger da crise somente os seus empresários aliados. Mesmo que o custo dessa proteção sejam milhares de vidas humanas. De tal forma que Bolsonaro se comporta mesmo como um aliado do vírus, usando a crise sanitária para aprofundar a crise social, causar novas crises políticas e resolver o problema econômico de seus aliados.

É evidente que este projeto não será implementado de forma pacífica e por meio das regras institucionais. É por isso que temos visto, desde o início da pandemia, um acelerado processo de endurecimento das medidas tomadas pelo bolsonarismo. Se em 2019 eles fizeram inúmeros ensaios, tanto para avançar quanto para saber até onde poderiam ir “dentro das regras”, em um 2020 de pandemia eles começaram a jogar pra valer.

É neste jogo a sério que o núcleo duro do bolsonarismo pesou, mediu e agiu para demitir Mandetta, para tirar Moro e para reforçar a presença militar nos principais postos do governo. Como eles não estão preocupados em governar, mas em conseguir o poder de fato que a eleição presidencial não entregou inteiramente, podem assumir qualquer tipo de desgaste.

Desgaste, diga-se de passagem, que tem sido usado como lenha para atiçar a base bolsonarista mais radical contra a centro-direita, o Congresso Nacional, o STF e alguns veículos dos grandes meios de comunicação, além de tentar liquidar a esquerda como um todo. Ou seja, na conta, o desgaste sofrido por um lado, reforça o apoio de outro. Enquanto isso, este outro lado recebe autorização para adquirir mais munições e para não ser responsabilizado por suas ações.

As ameaças em formato de artigo publicado pelo vice-presidente General Hamilton Mourão na última quinta-feira (14), apenas puxou um pouco mais para o sol e tirou das sombras o seu já conhecido alinhamento integral com o autoritarismo. De tal forma que a opção desejada por alguns, de um bolsonarismo sem Bolsonaro, colocou literalmente, para não fugir as raízes nefastas da expressão, sua “cara ao sol”. E é a mesma coisa.

Por estes móvitos é fundamental que não tenhamos ilusões com o momento que estamos vivendo. A ultradireita quer avançar, com e apesar da pandemia. Para eles a situação atual é útil para justificar as medidas de endurecimento que eles precisam para implementar o programa ultraliberal.

E do jeito como as coisas estão se desenrolando, qual o motivo que eles possuem para querer que a pandemia cause menos mortes ou passe mais rápido? A extrema direita é uma aliada do vírus, pois não se importa com a morte dos mais pobres. No fundo, é isso mesmo que eles desejam, de um jeito ou de outro.

Por isso, não se deve ter moderação ou qualquer tipo de dúvida sobre a necessária derrota da ultradireita. Enquanto eles estão se preparando para uma batalha pelo poder, nós não podemos nos preparar para pedir que as pessoas digitem um número numa urna eletrônica em algum momento do futuro. É preciso muito mais.

*Patrick Campos, Advogado, membro do diretório nacional do Partido dos Trabalhadores