Ciência & Sertão

A moringa e a nanotecnologia

‘se pudéssemos jogar uma rede no rio e ao invés de pescar peixes removêssemos os contaminantes, estaríamos revitalizando-o.’ Por Helinando Pequeno de Oliveira

“Então chegaram a Mara, mas não pude­ram beber das águas de lá porque eram amar­gas. Esta é a razão pela qual o lugar chama-se Mara.
E o povo começou a reclamar a Moisés, dizendo: “Que beberemos?”
Moisés clamou ao Senhor, e este lhe indicou um arbusto. Ele o lançou na água, e esta se tornou boa.”

Êxodo 15-23:25

Imagine uma árvore com folhas comestíveis e que forneça mais vitamina C que a laranja, mais vitamina A que a cenoura, mais cálcio que o leite, mais potássio que a banana… Esta é a moringa oleífera, espécie nativa das encostas do Himalaia e que se espalhou por todos os cantos do planeta apresentando boa adaptação para a região semiárida. Se não bastasse o seu rico potencial de vitaminas, esta planta é conhecida como erva medicinal há 4000 anos!!! Árvore de fácil crescimento, podendo atingir 12 metros de altura, tem folhas miúdas e verdes podendo ser aproveitada em sua totalidade: desde sementes, folhas, tronco e raízes. Também conhecida como a árvore milagrosa, a moringa, citada na Bíblia (Êxodo 15:20-25), não apenas alimenta como também tem potencial medicinal, sendo considerada uma farmácia natural. Seu uso tem demonstrado eficiência como material antimicrobiano, diurético, vermífugo e anti-inflamatório.

A associação destas importantes propriedades tem permitido o uso da semente da moringa no tratamento da água, fazendo uso de seu potencial biocoagulante, o que permite remoção no grau de turvação da água na ordem de 96%.

Estes dados demonstram claramente o potencial biotecnológico e o laboratório a céu aberto que a moringa representa. A pergunta que surge desta constatação parece ser óbvia:

Se Moises usou da tecnologia da moringa para purificar a água, como podemos, milhares de anos depois, potencializar a ação da moringa? O caminho a ser percorrido remete ao processamento pelas técnicas usadas pela nanotecnologia. A ação do extrato de sementes pode ser melhorada se forem incorporadas as metodologias de encapsulação dos fármacos, permitindo com que ocorra a liberação controlada do material em taxas bem definidas.

Simplificando: se pudéssemos jogar uma rede no rio e ao invés de pescar peixes removêssemos os contaminantes, estaríamos revitalizando-o.

Mas esta rede não se costura com as mãos, pois os microorganismos e demais contaminantes são muito menores do que os peixes. Quando medimos o seu tamanho vemos que eles têm 0,000001 metros!!!! Apenas micro e nano redes seriam capazes de reter e remover estes contaminantes. A solução então parece direta: precisamos de pequenas redes de pesca decoradas com a moringa e algo a mais que melhore a sua ação (algum agente bactericida como a prata). Estas redes podem permanecer nas estações de tratamento de esgoto e também serem usadas como filtros para retenção de contaminantes lançados no rio. É evidente que não podemos esperar que a moringa transforme o esgoto em água potável, tenhamos a mínima inteligência de não jogar esgoto “in natura” nas nossas águas. Em pleno 2017 as baronesas do Rio São Francisco na orla de Petrolina nos mostram que ainda não aprendemos!!!!

Antes de ser um problema tecnológico, é uma questão de consciência ambiental, sim!!! Mas assumamos que evoluiremos e não mais jogaremos esgotos nos rios. Há esperanças! O que sobra deste trabalho de melhoria das águas passa pela natureza e pela tecnologia – que devem atuar assim – em ciclo fechado: os insumos vêm da natureza e os rejeitos voltam a ela para se tornarem insumos outra vez.

Recuperar nossas águas pode e deve ser uma estratégia de ação para todo pesquisador sertanejo, para todo e qualquer pesquisador do mundo. E a solução nem sempre está dentro dos muros das Universidades ou nos textos de periódicos internacionais qualificados. Algumas soluções são tão antigas que até Moises já desconfiava. Todo pesquisador pode ser também um moringueiro.

Eu assumi ser mais um moringueiro nesta luta e antes de produzir as nanoteias no laboratório farei questão de plantar uma muda de moringa lá em Petrolina. E a ela darei um nome: Esperança!