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Nem Lira nem Baleia, nem Bolsonaro nem Mourão: Luta e mobilização!

“Neste momento a classe trabalhadora brasileira precisa e, principalmente, merece ter um conjunto de representações com capacidade de organizar a luta em defesa de seus interesses e de suas necessidades”. *Por Patrick Campos.

O ano de 2021 começou com o agravamento da crise sanitária no Brasil. A falta de oxigênio nos hospitais de Manaus e em diversas outras cidades do Amazonas, o aumento no número de óbitos diários com o retorno da média móvel para mais de mil mortes, e a ausência de um plano nacional de vacinação por parte do governo federal escancararam a política genocida de Bolsonaro e seus apoiadores.

Não por acaso, portanto, parece ter início uma pequena inflexão no ambiente político do país. Diferente de como terminou 2020, esta primeira quinzena de 2021 é marcada pela retomada de mobilizações virtuais e panelaços pelo impeachment de Bolsonaro, algo semelhante ao movimento que marcou os primeiros meses da pandemia e quando a aprovação do governo registrou seus piores índices.

Essa possível mudança na atitude de parte de setores populares e médios, diferente de como aconteceu em 2020, precisa ser incentivada e acompanhada de rápidas e organizadas medidas por parte dos partidos de esquerda e das entidades representativas, com destaque para o movimento sindical e o movimento social de esquerda.

Não podemos esquecer do enorme erro que foi a demora, nos primeiros meses da pandemia, em tomar atitudes como o ingresso com pedidos de impeachment, o apoio mais substancial aos atos antirracistas e das torcidas organizadas ou ainda a insistência na natimorta ideia de uma frente ampla contra o bolsonarismo, envolvendo os setores da direita que ajudaram a eleger Bolsonaro e que deram sustentação à aprovação das políticas ultraneoliberais de Paulo Guedes.

A consequência, como é sabida, foi a recomposição e o fortalecimento do bolsonarismo, que mesmo nos piores momentos da pandemia e após a prisão de Queiroz, conseguiu retomar e elevar suas taxas de aprovação, sustentadas principalmente nos resultados do auxílio emergencial.

O mais incrível nesse caso é que, ainda agora, depois de tudo que significou 2020, assistimos uma reedição de todos aqueles erros no debate em torno da eleição para a presidência da Câmara e do Senado Federal. Sob o argumento de que é preciso reduzir danos e evitar o pior (que seria a eleição do candidato de Bolsonaro na Câmara), a maioria dos partidos de esquerda aprovaram em suas bancadas o apoio ao candidato golpista apoiado por Rodrigo Maia.

Esse imenso erro, cometido de forma precipitada, faz com que a maioria dos partidos de esquerda se coloque voluntariamente nas cordas. Afinal, num momento em que a direita “não bolsonarista” tampa o nariz para os crimes do governo genocida e que setores da classe trabalhadora se abrem para uma possível mudança de posição, a esquerda se vê albergada no guarda-chuva de uma candidatura golpista para a presidência da Câmara e de outra apoiada por Bolsonaro para a presidência do Senado.

Ou seja, todo o movimento que parece ganhar vida nas redes e nas janelas por meio dos panelaços em torno do impeachment, esbarra na política da direita que parte da esquerda decidiu apoiar para “reduzir danos”. No entanto, ao contrário do que alguns se esforçam em fazer parecer, a batalha ainda está em curso. Há tempo e há condições para uma mudança na linha adotada pala maioria dos partidos de esquerda na disputa pela presidência das casas do Congresso Nacional.

É justamente nessa a hora, quando a direita que tenta se camuflar de centro evidencia ainda mais seu compromisso com a política bolsonarista e evita o avanço do impeachment, que a esquerda deve organizar e expressar a justa indignação popular e transformar a disputa pela presidência da Câmara e do Senado em disputas públicas e não corporativas em defesa da vida e da mudança da política do país.

Até as cortinas do Congresso Nacional sabem que não será por meio de cadeiras nas mesas diretoras das casas ou de maior presença em comissões que a luta contra o bolsonarismo irá avançar. Quem se ilude com esse tipo de ideia expressa uma covardia que nesse momento é absolutamente incompatível com a luta pela sobrevivência de quem está morrendo sufocado pela falta de oxigênio ou passando fome pelo fim do auxílio emergencial.

Neste momento a classe trabalhadora brasileira precisa e, principalmente, merece ter um conjunto de representações com capacidade de organizar a luta em defesa de seus interesses e de suas necessidades. A esquerda brasileira tem setores capazes de expressar essa política, por exemplo, em parcela da esquerda do Partido dos Trabalhadores. Lutemos, incansavelmente, para que essa política possa prevalecer.

*Patrick Campos, Advogado, membro do diretório nacional do Partido dos Trabalhadores