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“Precisamos acabar com a supremacia branca sobre a Comunidade Negra”

“A opressão racial secular não é algo “lá”, de longe, do litoral. É algo daqui. Algo que constitui a base histórica de desenvolvimento da região, ao mesmo tempo, acompanhada de hierarquias raciais que mudaram para manter a segregação na república”. *Por Nilton de Almeida

Foto: Frente Negra do Velho Chico

Em 1911 uma das maiores personalidades científicas do Brasil, João Batista de Lacerda, afirmou que em um século, este seria um país 100% branco. O amparo para tal proposição foi o racismo científico. Então no auge. Porém, dirão alguns, essa profecia foi derrotada, na medida em que não só a população negra no Brasil é importante, mas principalmente, é maioria.

Sem dúvida que sobreviver ante tanto racismo estrutural e institucional é um tremendo feito. No entanto, mais do que sobreviver, nós temos o direito de VIVER. Plenamente.

“Supremacia branca” ainda pode ser um termo tímido, creiam, diante da subrepresentação objetiva e subjetiva do povo negro no Velho Chico nos espaços decisórios e de direitos, sejam eles econômicos, políticos, culturais, sociais, etc.

Este é um país do mais eficiente apartheid. Do mais grotesco e dantesco genocídio. Muitas vezes o que se vê é uma exclusão ampla e integral do povo negro no nosso país e em especial na nossa região, como se estivéssemos na Europa.

 Não, senhoras. Não, senhores. Estamos no cosmos do Velho Chico. Do Opara. Das águas do Nego d’água. Do rio São Francisco. E a integração nacional, ou antes a construção nacional, em todos os complexos econômicos do Brasil escravista – açúcar, tabaco, algodão, café, pecuária, ouro etc – foi gerada a partir da expropriação do trabalho, do sangue, do suor, das lágrimas, da juventude, da VIDA de africanas, africanos e seus descendentes escravizados.

Isto é particularmente válido para uma região em que por volta de 1850 tinha 16% de sua população escravizada. Mais de vinte anos depois, com a lei do Ventre Livre (afinal até então, partus sequitur ventrem – a criança segue o status da mãe), este quadro segue praticamente inalterado. Em 1850 como em 1872 para cada cinco pessoas livres havia uma mulher ou homem negro escravizado.

A opressão racial secular não é algo “lá”, de longe, do litoral. É algo daqui. Algo que constitui a base histórica de desenvolvimento da região, ao mesmo tempo, acompanhada de hierarquias raciais que mudaram para manter a segregação na república.

(Sigamos tratando de supremacia branca na região do São Francisco.)

Tratemos das praças, ruas, escolas e outros tantos espaços públicos onde esta história negra onipresente tem sua memória apagada. Somente há agência branca ou branqueada? Isto também é genocídio.

A mudança de tal situação, a concretização do terceiro dos oito pontos da Frente Negra do Velho Chico, que dá título a este texto, depende em primeiro lugar de seguirmos, negras e negros, erguendo-se. E conhecendo-se, e amando-se, e falando-se.

É mais do que hora de nos voltarmos para nós mesmos.

Em nossa inteireza.

Em nossa beleza.

Em nossa riqueza.

Da grandeza viemos e para a grandeza retornaremos. Pode até haver aliadas e aliados no caminho, mas a justiça que merecemos e ansiamos depende de nossa união.

Erguendo-se.

Conhecendo-se.

Amando-se.

Por essas e outras, estejamos todas e todos presentes aos Atos do Dia da Consciência Negra. Em vinte de novembro. E depois também.

 

*Por Nilton de Almeida Araújo

Integrante da Frente Negra do Velho Chico