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Vamos falar sobre “Coringa”

O “palhaço do crime” se despiu e mostrou-se humano. E isso incomodou. * Por Patrick Campos

Ao longo de anos, em filmes, desenhos e revistas em quadrinho, fomos levados a observar um curioso personagem que sempre nos chegava completo e terminado.

Poucas foram às vezes que vimos tentativas de apresentar sua origem. Ter um personagem pronto e adaptá-lo às necessidades da estória pode até ser um caminho mais fácil, no entanto, deixa sempre uma lacuna. Poucos conseguiram preenchê-la tão bem. Até agora.

O Coringa de Joaquin Phoenix termina de onde os outros tinham começado.

Talvez por isso ele precise ir tão longe, tão fundo, remexer tão profundamente nos sentimentos e principalmente na dor, tão inaceitável e ao mesmo tempo tão inevitável e perene em toda a vida da personagem.

Tomados por algum nível de alteridade, somos tornados espectadores impotentes da vida e da dor de um homem doente numa sociedade que se afasta da nossa apenas pela tela do cinema. Vemos um homem comum, com problemas de saúde mental, que tenta manter seu subemprego, lidando com a desgraça e a miséria de uma cidade cinzenta, profundamente desigual, suja e apodrecendo, mas controlada por ricos e poderosos, frequentadores de grandes salões, teatros e festas de caridade, na qual ninguém parece se importar com a vida e a perda dos outros.

Podia me atrever aqui a dizer que o filme é, inclusive, uma história de perdas. E que a vida de Arthur Fleck é exatamente isso: um imenso somatório de perdas. Ao menos até ele entender que não tem nada a perder.

Sua constatação é cruelmente simples: ele não é feliz.

A primeira cena do filme cumpre o papel de nos arremessar violentamente essa verdade, de forma a não deixar nenhuma dúvida.

Trata-se de um palhaço forçando o riso. Sua risada, pintada, não é de alegria. Sua gargalhada, injustificada para quem vê e fruto de uma patologia, incomoda. Incomoda muito. Como incomodou tantos de nós nas salas de cinema sempre que ele começava e não conseguia parar.

Um amigo que assistiu comigo e que chamei para rever disse que não dava conta. Perguntei o motivo e ele respondeu: não consigo ouvir de novo aquela risada de dor. De um jeito ou de outro, parece mesmo que a maioria de nós carrega consigo um cartão onde está escrito: “desculpe por eu ser assim e isso te incomodar”.

Uma certa fraqueza e fragilidade também incomoda, principalmente para quem se acostumou a ver o vilão Coringa em ação. Sentem falta. Mas aqui, ao contrário da maior parte das histórias, o ponto de equilíbrio não aparece. Não temos um Batman “mais humano” para fazer o contraponto de sempre.

Não vemos a dualidade materializada do bom contra o mau. Não vemos de um lado o sombrio contra o oposto colorido. Não vemos a materialização da razão contra a personificação da insanidade. Vemos tudo isso numa única pessoa que muda constantemente. E somos forçados a lembrar que carregamos um pouco de tudo isso em nós. E que a sociedade é uma permanente luta de contrários, na qual a balança não costuma ter equilíbrio.

Assim, fica evidenciado que o grande incômodo e desconforto provocado pelo filme não está na risada.

O ambiente em que a narrativa se desenvolve nos leva paulatinamente a tomar o partido daquele que não devíamos gostar. Do feio, do pobre, do “louco”. E isso não é compatível com o senso de normalidade que somos diariamente treinados a ter.

Diante da injustiça, do mal e da crueldade, o caminho que somos ensinados a tomar é o da passividade, da aceitação e da resignação sem limites. A vida de Arthur Fleck estica essa corda até ela arrebentar. Mas ela não arrebenta apenas para ele.

Naquele microcosmo da cidade de Gotham, ecoa um grito coletivo que ao longo de todo o filme parecia estar preso na garganta: Ninguém está vendo? Ninguém está escutando? Por que ninguém faz nada?

E assim, o filme constrói uma narrativa de uma sociedade extremamente desigual em que as pessoas enlouquecem e tomam atitudes que não são compatíveis com a normalidade. Mas é óbvio! Não se trata de uma sociedade normal. Não se trata de um ambiente de normalidade.

A obra é uma das melhores construções do Coringa. Cumpre um papel muito importante de erguer o personagem, principalmente quando comparado a outras interpretações também marcantes e insuperáveis ao seu estilo, mas que nos traziam um Coringa pronto.

Conhecemos agora o homem por trás da tinta e da fantasia. E descobrimos que, na verdade, ela não escondia, mas apenas realçava o que já existia. Dessa forma, vimos mais de nós mesmos naquela sociedade e naquele personagem do que muitos estavam prontos para ver. E isso continua incomodando.

*Patrick Campos é Advogado, mestrando em Educação pela Universidade de Pernambuco e militante do PT.