Coluna K

O que fazer com o óbvio?

O que dizer do caráter óbvio de certos discursos que circundam o mundo evangélico? Como compreender os jargões e frases prontas que compõem seu vocabulário?

Delcides Marques*

Como minha temática de pesquisa e familiaridade passa pelo mundo evangélico, pretendo tomá-lo como referência de fundo para tratar da noção de óbvio e obviedade. No limite, tais conceitos podem ser percebidos e combinados em toda parte e não se restringem, de forma alguma, ao universo dos religiosos. Veremos que certos jargões e frases prontas e convencionais são condições privilegiadas de apresentação discursiva do óbvio onde quer que ele apareça.

E toda vez que aparece a pergunta sobre o motivo de ser assim, a resposta tende a ser: “é desse modo porque é, e é porque é mesmo…”. Repetido à exaustão, o óbvio é o que é porque é. Tal estratagema aponta para um princípio de identidade do discurso que se fecha na relação da verdade consigo mesma. Com isso, qualquer enunciado contrário é remetido à exclusão de sua validade. Portanto, ele é aquilo que se apresenta como a verdade mais verdadeira. O óbvio substantiva a verdade, em vez de adjetivá-la. Aliás, ele se confunde com a própria verdade. E, com isso, é um desatino duvidar daquilo que não é passível de suspeita.

Vivemos tempos que se tornam particularmente oportunos para se recuperar o belo ensaio de Darcy Ribeiro [Sobre o óbvio, 1977]:

Nosso tema é o óbvio. Acho mesmo que os cientistas trabalham é com o óbvio. O negócio deles – nosso negócio – é lidar com o óbvio. Aparentemente, Deus é muito treteiro, faz as coisas de forma tão recôndita e disfarçada que se precisa desta categoria de gente – os cientistas – para ir tirando os véus, desvendando, a fim de revelar a obviedade do óbvio. O ruim deste procedimento é que parece um jogo sem fim. De fato, só conseguimos desmascarar uma obviedade para descobrir outras, mais óbvias ainda”.

Ele foi sagaz ao dizer que o óbvio esconde outras obviedades e que uma obviedade se encontra atrás de outra. Para avançar nessa questão, como antecipei no início, eu pretendo tomar como demonstração o caso daqueles discursos que rondam o mundo evangélico. Entre certos grupos evangélicos circulam diversas verdades autoassumidas que pretendo elencar mais adiante. São verdades repetidas pelo hábito ou convencionadas pela convivência, como toda e qualquer obviedade. Com isso, o óbvio se respalda na aceitação coletiva que se impõe como incontestável. O dogmatismo que marca a rotulação atribuída aos chamados fundamentalistas pode ser exatamente tomada como o apego existencial ao óbvio. É certo que dogmatismo e fundamentalismo são termos extremamente carregados mas, e de todo modo, ambos apontam para uma certa postura de afeto incondicional ao pensamento de tais certezas . Há mesmo uma defesa que mescla razão e emoção em torno de sua legitimidade. Entre tantas misturas há, por um lado, doutrinas que passam por agudas construções racionais, mas há também, por outro lado, concepções meramente reproduzidas desse tipo de discurso. Abaixo apresento uma breve lista de concepções que carregam, cada uma a seu modo, as marcas da obviedade entre os evangélicos.

Irmão elege irmão, crente vota em crente”.

Quem é de esquerda é intrinsecamente ateu e contra Deus”.

Candomblé é macumba e religião do demônio”.

Os hinos evangélicos agradam a Deus e as músicas do mundo não”.

O pastor é ungido e não pode ser contrariado, pois é protegido por Deus”.

Os crentes vão para o céu e os seguidores de outras religiões vão à perdição”.

O Brasil será do Senhor Jesus, pois está se tornando evangélico”.

Os salvos estão nas igrejas evangélicas e, de preferência, na minha denominação”.

A Bíblia deve ser o único manual de regra e fé”.

Ter dons espirituais é sinônimo de santidade”.

Quem fecha os olhos para louvar e orar é mais espiritual”.

Pastor não peca, apenas escorrega”.

O pregador x ou y é a voz de Deus, pois ele sabe a vontade de Deus na terra”.

Quem saiu da igreja é desviado e perdeu a salvação”.

Antes de entrar para a igreja eu era pecador, agora sou mais amado por Deus”.

Silas Malafaia é homem de Deus”.

Os gays estão longe de Deus”.

Quem não vem pelo amor, vem pela dor”.

Tem que fazer a campanha para vir a vitória”.

Quem passa por dificuldades ou tragédias, pode ou deve estar em pecado”.

Quem não crê nessas coisas fundamentais, não pode agradar a Deus”.

Quanto mais se fala em Deus, mais se tem Deus por perto”.

A lista seria muito mais extensa, mas é melhor parar. Todas essas concepções podem ser tratadas como obviedades ululantes, para retomar o neologismo de Nelson Rodrigues [O óbvio ululante, 1993]. São verdades que gritam, vociferam, berram. De tão óbvias, não podem passar despercebidas e, tal como o uivo prolongado de um animal, conclamam a atenção. Mas ao mesmo tempo que convocam a percepção, precisam ser compreendidas em seus aspectos fundamentais. Com isso, não se trata aqui de dizer que essas assertivas não funcionem pragmaticamente. Trata-se, isso sim, de pensar a possibilidade da dúvida em relação a elas, mas também, e principalmente, de pensar seus efeitos. De todo modo, e em ambos os casos, parece preciso e urgente perguntar: a serviço de que elas estão funcionando? O que as evidências presentes nas assertivas escondem?

Não se trata ainda, e afinal de contas, de colocá-las no crivo do julgamento lógico da tabulação da verdade ou falsidade dos enunciados. É apenas uma questão de considerar o jogo discursivo em que elas estão implicadas. Afinal de contas, o caráter indubitável de tais assertivas evidencia a presença explícita ou escamoteada das certezas que existem por si mesmas. Em suma, o óbvio é aquilo que salta à vista, que se manifesta de forma clara e patente, sendo fácil de descobrir, ver ou entender. Enfim, é aquilo que não se pode colocar em apreciação, pois apresenta as marcas axiomáticas de sua evidência incontestável. A obviedade é o autoevidente.

Como tal, ele é perigoso e paralisa o pensamento. O óbvio produz cópias: mais do mesmo. Todo o pensamento se restringe a reforçar o que já se sabe. Há um círculo vicioso que começa e termina no mesmo ponto: a sua internalização e justificação. E se as coisas não fossem tão facilmente tomadas como dadas, prontas, acabadas, resolvidas? E se a sutilidade das certezas incondicionais bem-sucedidas fosse desvelada? E se descobríssemos o modo como chegamos a saber o que achamos natural e peremptório?

Não é vãmente que uma das características da heresia é questionar o inquestionável. As voltas da roda não podem mudar. O círculo precisa se manter incólume. A certeza da doutrina não pode ser abalada. Duvidar é, portanto, um ato de rebeldia e precisa ser contido. Uma vez que o óbvio pode se mascarar na linguagem que se afirma como certa, desvelá-lo é um procedimento malquisto. Qual a razão, então, para tirá-lo de sua posição intocável? A crítica é, em certo sentido, um esforço fundamental de esclarecimento: questionar é se afastar da menoridade que nos é convincentemente imposta pela obviedade.

* Delcides Marques é professor de Antropologia na Univasf, membro do KRISIS – Antropologia Crítica, colunista no site PontoCrítico, pesquisador sobre teologia e missão no cristianismo e participante da Igreja Episcopal Carismática do Brasil.