Notícias

O fantasma do comunismo ronda o Brasil – como a elite engana os incautos

“O comunismo sempre foi advogado no Brasil para promover golpes. Mas os golpes nunca foram realizados pelos comunistas. Foram os “liberais” que utilizaram do fantasma do comunismo para romper com a ordem democrática, alterar as regras do jogo, usurpar a soberania popular e assaltar o poder”. Por Antonio Marcos E. dos Santos¹

Foto: Facebook

Lembrando o velho Marx “um fantasma ronda a Europa – o fantasma do comunismo” – Manifesto Comunista.

O comunismo sempre foi advogado no Brasil para promover golpes. Mas os golpes nunca foram realizados pelos comunistas. Foram os “liberais” que utilizaram do fantasma do comunismo para romper com a ordem democrática, alterar as regras do jogo, usurpar a soberania popular e assaltar o poder.

Era os anos de 1950. Os golpistas da época (esta história vem de longe) exacerbam a campanha de denúncias contra Getúlio Vargas. Os argumentos utilizados – o Catete está mergulhado em corrupção.  O comunismo está rondando o Brasil. Atravessaram as fronteiras da então União Soviética e há qualquer momento assaltaram o poder.  Manchetes e mais manchetes. Páginas e mais páginas de jornais. O Presidente Getúlio é chamado de tudo. Era o pai da corrupção. O aliado comunista. O que estava por trás – os “liberais” de então entenderam que por voto não ganhariam eleições contra Getúlio. O drama nacional termina com o suicídio do presidente e a publicação da Carta Testamento, com frases de teor forte: “mais uma vez as forças e os interesses contra o povo coordenaram-se e se desencadeiam sobre mim” […] “Precisam sufocar a minha voz e impedir a minha ação…” […]” a campanha subterrânea dos grupos internacionais aliou-se à dos grupos nacionais revoltados contra o regime de garantia do trabalho” […] “ lutei contra a espoliação do Brasil. Lutei contra a espoliação do povo. Tenho lutado de peito aberto. O ódio, as infâmias, a calúnia não abateram meu ânimo…” .  Nesta carta, o presidente Getúlio cita a luta contra a Petrobras e a Eletrobrás (nada atual?). A comoção pelo suicídio de Getúlio refreia o golpe. Os golpistas temem o povo.  O Vice de Getúlio toma posse e implementa uma agenda diferente da dele. Juscelino Kubitschek disputa as eleições tendo como vice João Goulart – o Jango, que foi ministro do Trabalho de Getúlio e demitido a pedido dos “liberais” por ser comunista.  Os “liberais” perdem. Fazem de tudo para impedir a posse de Juscelino e Jango. Busca ajuda no exterior. Tramam com setores das Forças Armadas. Mobilizam a imprensa. Faz acusações de toda sorte e ordem. Inconformados, passam a gestão de Juscelino tentando-o desestabilizá-lo. Novamente os “liberais” rompem com as ideias de defesa da democracia. Juscelino termina o mandato.  Entra os anos 60. Jânio Quadros é eleito presidente e Jango, seu vice. Jânio renúncia. Pela Constituição, Jango deve assumir. Os “liberais” tentam inverter a lógica democrática do voto, que legitima um mandato. Querem assaltar o poder. Querem dar um golpe. Esqueceram de que os ideais liberais criaram a tese da soberania popular. Usam do argumento, que mobiliza até hoje os corações apaixonados e religiosos crédulos – o fantasma do comunismo ronda o Brasil. Acusam Jango de aliançasse com a União Soviética, a China e Cuba. Bradam através dos meios de comunicação: “O Brasil vai se transformar num país comunista com a posse de Jango.  Os comunistas vão mudar a bandeira do Brasil para vermelho. Os comunistas vão tomar as suas casas. Os comunistas vão fechar as igrejas e impedir a liberdade religiosa. Ladainha. Ladainha. Conversa e mais conversa pra boi dormir. Encontram uma saída golpista. Implantam o parlamentarismo e permite a posse de Jango, tornando-o uma “rainha da Inglaterra”. Acontece que por vários motivos os “liberais” não tinham o controle total sobre as condições políticas da época e fazem um plebiscito. O povo contraria os “liberais” e votam no presidencialismo. Jango recupera os seus poderes e sai fortalecido da disputa plebiscitária. O fantasma do comunismo é despertado novamente. E inicia-se a campanha mentirosa na imprensa, nos bares, nas incautas igrejas cristãs, nas ruas. Os derrotados (os “liberais”) saem as ruas e promovem a Marchada Família com Deus pela Liberdade. Os idiotas de plantão, ignorantes sem conhecimento histórico reproduzem a boca miúda as cantigas de grilho – “nossa bandeira não será vermelha”; “não permitiremos que destruam a família tradicional”, o “Brasil não será uma Cuba”, etc. etc. A União Nacional dos Estudantes – UNE, as ligas camponesas são financiadas pelo governo, bradam os golpistas. São vagabundos. São baderneiros.  E assim vão. Os jornais, em sua maioria esmagadora, só falam isto. Os “escolarizados” reproduzem estas mantras.  E os “liberais” dão novamente um golpe, agora implantam um regime milite para salvar o Brasil dos comunistas. Este regime dura mais do que os “liberais” planejam. Dura 21 anos.

  1. Lula assombra os “liberais”. Estes novamente acionam o fantasma do comunismo. Manchetes de jornais são forjadas. Sequestros são armados acusando o PT de realiza-los. Empresários dão declaração que se o povo escolhesse Lula eles deixariam o país. Os incautos “cristãos” – que ao contrário dos bereanos não leem, não pesquisam, não analisam discursos a luz da história – gritam, esbravejam, agitam – Lula é comunista e vai fechar as igrejas. O fantasma do comunismo ronda novamente o Brasil. Assombram as almas desavisadas. A Rede Globo dá o golpe final – forja um debate. Influência o resultado eleitoral. Collor ganha. Época do neoliberalismo brasileiro. Privatizações. Entrega de nossas riquezas ao controle de empresas estrangeiras e do capital privado. Brasil quebra três vezes. Os juros aumentam. Os índices sociais pioram.

2002 – o fantasma do comunismo ronda novamente o Brasil. Lula, vacinado, coloca na vice José de Alencar do Partido Liberal, com forte relação com a Igreja Universal. Mas a campanha do fantasma do comunismo ronda os “discípulos” cristãos. Contudo, desta vez, o discurso não cola e Lula é eleito presidente. Começa a fazer um governo exemplar. Os “liberais” acionam outro dispositivo da época de Vargas – a corrupção palaciana. Manchetes e mais manchetes são estampas – “o maior caso de corrupção”. Os “liberais” apostam de que, sangrando Lula até 2006 – eleição – voltam ao poder pelo voto popular. Aposta errada. Lula ganha as eleições. Sai da presidência depois de 4 anos com 80% de aprovação popular. O maior índice da história do Brasil. Elege “seu poste” – segundo os “liberais” e se consagra no imaginário popular. Dilma fez um excelente governo nos primeiros dois anos. Os “liberais” iniciam, então, a campanha de desestabilização do governo. Dilma agora não é mais a “gerentona”. Não é mais a Thatcher brasileira. A imprensa passa a desqualificá-la. Isto tudo porque ela não rompeu com Lula, como apontavam os “liberais” encastelados na imprensa e nos partidos de oposição. A disputa ganha as ruas. O fantasma do comunismo volta novamente a assombrar o Brasil. Que discurso usar? Lula e Dilma não implantaram o comunismo. Não fecharam as igrejas. Não tomaram as terras e as casas dos ricos. Não acabaram com a liberdade de imprensa. As condições sociais melhoraram. O Brasil assumiu papel de liderança mundial. Aciona-se o discurso de que as políticas da minoria visavam implantar a ditadura gay no Brasil. Que as escolas estavam doutrinando as crianças na ideologia do comunismo. Que o governo cresceu demais e que os impostos estão sendo dirigidos para sustentar vagabundos, cujo trabalho é fazer sexo com o propósito de ter filhos. Manchetes e mais manchetes são produzidas. 2014, os “liberais” acreditam que desta vez levam. O povo vai derrotar os “comunistas” nas urnas. Aécio, neto de Tancredo que foi o primeiro ministro na época do Parlamentarismo do Governo de Jango, bate na trave. Dilma faz o gol e leva mais quatro anos. Os “liberais” perdem a paciência e se lançam na campanha odiosa de desestabilizar o segundo mandato de Dilma. Atuam em duas frentes inicialmente – o Congresso Nacional e na Mídia. Usam dois discursos manjados – a corrupção e a o fantasma do comunismo. A corrupção move os “escolarizados” e o poder judiciário – que entra em cena. O fantasma do comunismo – os incautos cristãos. Manchetes e mais manchetes. Calunias e mais calunias. O PMDB se presta ao serviço de potencializar a destruição de Dilma. Temer aflora seu lado de lobo mau – o lado golpista e como Morgana da lenda do rei Artur – planeja diariamente o golpe ao lado de Eduardo Cunha (cristão assumido e praticante) – eleito presidente da Câmara contra o candidato petista.  O derrotado Aécio leva o PSDB para o abismo e romper as regras liberais da soberania popular através do voto. E assim o desfecho é o impeachment. Tiram Dilma sob a acusação de crime de responsabilidade. Confundem propositadamente impeachment (típico do presidencialismo) com voto de desconfiança (instrumento do parlamentarismo). Passado mais de um ano, os “liberais” não provam nenhum crime de responsabilidade de Dilma e o aí o seu impeachment se esvazia. Revela-se o verdadeiro objetivo do impeachment – o medo de Dilma conclui o mandato e eleger Lula em 2018. Mas os “liberais” não contavam com a liderança de Lula.  Passado todo este período de ataque planejado contra Lula, este resiste e lidera as pesquisas. Aí tem que impedir Lula de alguma forma. O discurso da corrupção e do fantasma do comunismo é acionado novamente. Começa-se a farsa judicial para impedir Lula de disputar as eleições de 2018.  Estes dois discursos só convencem os incautos. O povo ver que esta elite, que discursa contra a corrupção, é a mesma que sempre assaltou os cofres públicos. É uma elite sonegadora de impostos. É uma elite do “rouba mais faz”. Ai, entra a parte triste da história. A imprensa não tem poder de destruir Lula. Lembram-se de que um apartamento tirou Juscelino da disputa presidencial quando era favorito nas pesquisas. E que as acusações contra Getúlio o levaram ao suicídio. Então, vamos condenar Lula. Vamos impedi-lo juridicamente. Lula não pode concorrer às eleições. Pronto – solução encontrada. Parece um xeque-mate.

Enquanto isto, os incautos são novamente enganados e continuam com as mantras do discurso de quem verdadeiramente manda no Brasil – os herdeiros da Casa Grande: “nossa” bandeira nunca será vermelha”, “o Brasil não será um Cuba e agora também uma Venezuela”, “a família tradicional não vai ser destruída”, “o maior caso de corrupção”, e assim sucessivamente.

Os governos petistas não conseguiram abrir a cabeça dos incautos e o fantasma do comunismo ainda domina o imaginário social de uma parcela importante da sociedade brasileira, assim como o discurso mentiroso das elites de combate a corrupção.

O final deste drama ainda está em disputa. Só Deus sabe quem vencerá.

¹ Professor de Pernambuco e Juazeiro. Militante de Educação e Direitos Humanos. Evangélico pentecostal