Cosmopolita

Cultura surda e a necessidade de quebrar as barreiras na comunicação

‘Nós, seres humanos, tendemos a reforçar uma imagem distorcida de quem é diferente da norma estabelecida, é difícil aceitar a diversidade’. Por Edianne Nobre

Em meio a mil palavras
Um único gesto molda toda a expressão do sentimento
O corpo se expressa com desenvoltura
E as mãos seguem graciosamente cada movimento
Ouvidos trocados pelos olhos em uma escuta atenciosa
E o balé das mãos segue incansável e incessante.
– O balé das mãos, Alexis Pier Aguayo

Nós que nascemos com a habilidade de ouvir temos imensa dificuldade de imaginar o mundo sem seus sons, barulhos, rumores. É difícil imaginar acordar no silêncio, comer em silêncio, viver em silêncio. Aliás, no mundo contemporâneo, as pessoas odeiam o silêncio. Acordam com o despertador do celular tocando uma música estridente, ligam a TV para dirimir a sensação de estarem sozinhos, ligam o som do carro, falam alto, mandam áudios pelo whatsapp, tudo para esquecer a possibilidade do silêncio.

E se você tivesse nascido sem poder ouvir?

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[Imagem: Prosa de Cora]

Neste ano, tive a oportunidade de iniciar um curso de Libras – Língua Brasileira de Sinais*, no Centro Auditivo Municipal de Petrolina**. Era uma vontade antiga e embora eu não tivesse contato com surdos, sempre me interessei pela dinâmica da língua.  Fazer esse curso me inseriu em um novo universo de possibilidades e posso dizer sem medo de errar: é apaixonante!

Nós, seres humanos, tendemos a reforçar uma imagem distorcida de quem é diferente da norma estabelecida, é difícil aceitar a diversidade. Os ouvintes tendem a ver os surdos como pessoas nervosas ou agitadas e não é bem assim. Imagine você chegando em um país, no qual, você não fale a língua local, como faria para se comunicar? Seria confuso e, provavelmente, você ficaria nervoso, gesticularia e tentaria de todos os modos se fazer entender. Eu lembro que quando morei na Argentina, fiquei arrasada um dia em que, indo a um restaurante, não sabia pedir um guardanapo de papel, e, o garçom não fez nenhum esforço para tentar me entender. Acabei sem guardanapo e tive que esperar chegar em casa para procurar no dicionário a palavra correta: servilleta. Nunca mais esqueci.

A Língua de Sinais assusta porque utiliza instrumentos, os quais não estamos familiarizados. Por mais que usemos as mãos para falar algumas coisas, como para dizer “tchau” ou “legal”, ou mesmo apontar para alguém, ouvintes se comunicam essencialmente pela voz/escuta. O surdo, por sua vez, empreende uma comunicação espaço-visual. Assim, é importante lembrar que a designação “surdo-mudo” é incorreta. O fato de uma pessoa ter deficiência auditiva não significa que ela seja muda. A mudez é outra deficiência que não tem relação direta com a surdez e é raro encontrar um surdo que também seja mudo. Se o surdo não consegue falar é porque, provavelmente, ele não foi oralizado quando criança.

O neurocientista Oliver Sacks no livro “Vendo vozes: uma viagem ao mundo dos surdos” (recomendo muito!!!!), estuda a introdução da pessoa surda na sociedade ouvinte e ressalta que antes de 1750, os surdos eram vistos como aberrações, incapazes de se comunicar, eram abandonados pela sociedade e obrigados a viverem sozinhos, muitas vezes, na miséria, chegando inclusive, a serem perseguidos pela Inquisição Católica.

O problema nasce quando pais ouvintes tem um filho surdo, e, não sabem lidar com essa diferença. Hoje em dia, no entanto, não há mais desculpa para o preconceito e para a ignorância, pois temos alternativas para inserir a pessoa surda na sociedade. A criança surda deve ser acompanhada por um fonoaudiólogo e oralizada através da “terapia da fala”, a fim de que ela possa se comunicar melhor e aprenda a regular o tom da voz, bem como interpretar a língua dos ouvintes. Daí a importância de um órgão público que atenda às necessidades de famílias de classe social mais baixa que pela falta de informação ou de dinheiro, não conseguem lidar com este tipo de dificuldade.

[Imagem: Web]

Para entender o universo das pessoas surdas precisamos mergulhar nele, entender o que chamamos de Cultura Surda, ou seja, um espaço onde a comunicação flui de outras maneiras, um modo dos surdos se moverem e transformarem o mundo em um lugar acessível. A Língua de Sinais, além de tudo, é poética e um símbolo de resistência em uma sociedade que exclui. É de suma importância que busquemos quebrar as barreiras da falta de comunicação, que busquemos nos integrar. Você não precisa ser surdo ou conhecer algum surdo para ser sensível às dificuldades que eles enfrentam diariamente.

O curso básico de Libras para Iniciantes, aqui em Petrolina, vem sendo promovido trimestralmente no Centro Auditivo Municipal e, hoje, uma grande preocupação é que o curso deixe de ser oferecido. Por isso, esse texto é, também, um apelo às autoridades locais, principalmente, ao Senhor Prefeito eleito, para que esteja na pauta de governo dos próximos anos, a manutenção do curso gratuito de Libras no Centro Auditivo Municipal. Aprender a Língua Brasileira de Sinais é importante para a socialização e a integração na sociedade, seja você, surdo ou não.

É importante ressaltar que este texto parte de uma iniciativa minha, enquanto estudante de Libras, na qual, os gestores do Centro Auditivo Municipal não possuem nenhuma responsabilidade.

 

* Cada país possui uma língua de sinais própria, assim, a Libras é a Língua Brasileira de Sinais, existindo outras como: a Língua de Sinais Americana, a Língua de Sinais Francesa, a Língua de Sinais Portuguesa, etc.. Leia um pouco sobre a história da Língua de Sinais aqui no Portal da Educação. Vejam também o site Acessibilidade Brasil.

** O Centro Auditivo de Petrolina fica localizado na Rua Tobias Barreto, nº 240, Zona Central da cidade. O telefone para contato é o (87) 3863.3129. O horário de funcionamento é das 8h às 17h, de segunda a sexta-feira.

 

* Edianne Nobre é uma leonina que nasceu em fevereiro. Gosta de contar histórias, viajar e tomar café.