Ciência & Sertão

Qual a anuidade que cabe no seu bolso?

‘A Universidade precisa continuar sendo pública, gratuita e de qualidade por este e por todos os outros jovens que alimentam o sonho de construir um futuro melhor pela educação. E isso não é um favor, é um direito.’ Por Helinando P. de Oliveira

Tamanha surpresa foi a minha quando abri a enquete do Senado Federal e vi a pergunta:

Deve-se cobrar pelo ensino público brasileiro?

De imediato relembrei da propaganda de faculdades, que dizem “com a mensalidade que cabe no seu bolso!”

Parei e pensei: o que cabe para todo e cada um brasileiro é o acesso universal ao conhecimento, o respeito, a dignidade, o acesso a moradia, a saúde e a comida. Eu poderia aqui argumentar sobre o papel democrático da Universidade Publica, Gratuita e de Qualidade, sobre o papel fomentador de sonhos que esta instituição representa… Mas não farei isso… Achei melhor conversar com um jovem de 18 anos, calouro da engenharia elétrica da UFPE. Quatro meses depois de ser aprovado no processo seletivo, ele perdeu o pai em um hospital público de Recife. Ele não tem condições nem de ir a Universidade, pois não tem dinheiro para comprar as passagens. Ele mora longe da UFPE e precisa de quatro ônibus por dia para ir e voltar. Só consegue frequentar as aulas porque seus tios compram os tíquetes da passagem de ônibus. Ele está à procura de bolsa de iniciação cientifica, pois esta é a única opção que lhe restou para conseguir o dinheiro que lhe garanta o almoço. Qualquer um que veja a situação de vulnerabilidade deste jovem pode imaginar que ele não terá futuro dentro da academia. Seria muito mais simples ser atendente de supermercado, caixa de padaria ou ajudante de eletricista.

Ao contar ao jovem da enquete do senado percebi uma revolta enorme deste, que se mostrou extremamente inconformado com a sua nação. Ele não era exceção na Universidade, mas uma regra geral.

Além disto, ele vinha de um luto muito doloroso. Havia perdido o pai no meio dos leitos superlotados de um hospital de urgência, que tratava os pacientes como amostras de estudo. Por não ter como pagar um plano de saúde seu pai deixou de entrar em cirurgia e veio a óbito. Por falta de uma casa própria ele vivia pulando de aluguel em aluguel. Por falta de comida ele passava fome na aula de cálculo. Ele lutava por um futuro diferente do pai, que morreu sem carteira assinada, sem férias, sem FGTS, sem direitos.

E tudo o que a nação reservara a ele era um boleto de anuidade a pagar. E tudo o que ele queria era estudar!!! Ele queria ser professor de engenharia, descobrir o mundo, dar esperanças aos pobres, tirar os jovens das drogas… E não entendia porque um pais rico, que concede perdão a dividas e alimenta emendas de bilhões de reais precisaria do seu dinheiro minguado.

O mais bem intencionado cidadão poderia sugerir uma bolsa de estudos. Depois de formado ele pagaria (simples assim). Ele lembrou de imediato dos tempos em que estudava em uma escola privada de Recife. Sua avó doava metade do salário para pagar a mensalidade. Por sua situação de vulnerabilidade tentou a dita bolsa de estudos junto a diretoria da escola, sem sucesso.

Qual foi a surpresa deste jovem ao identificar que as bolsas já estavam alocadas para os colegas que chegavam a escola com carros dirigidos por mordomos, cujos pais frequentavam o ciclo de amizades dos diretores.

A vida, de fato, não é fácil para os pobres. A classe média não suporta vê-los felizes. Odeia presenciar o brilho de suas vitórias.

Pobre não tem dinheiro para fazer poupança para a Universidade do filho, pois o pouco que tem serve para tapar o buraco na barriga, deixado pela fome.

Dei um abraço forte naquele menino revoltado e disse baixo ao seu ouvido:

Teus estudos te levarão ao infinito, acredite. O teu futuro eu sei de cor.

A Universidade precisa continuar sendo pública, gratuita e de qualidade por este e por todos os outros jovens que alimentam o sonho de construir um futuro melhor pela educação. E isso não é um favor, é um direito.

Juntos somos muito mais fortes. Precisamos lutar por eles. Levantar um muro de resistência pela sobrevivência desta chama de esperança na vida de cada brasileiro e cada brasileira.

Universidade Publica, Gratuita e de Qualidade – Sim!

#MenosEmendasMaisCiencia

#AbaixoCorruptos

#VivaoPovoBrasileiro

* Helinando P. de Oliveira é físico e professor da Univasf. Desenvolve nanotecnologia no sertão desde 2004, quando escolheu ser sertanejo e focar suas pesquisas no Sertão.