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Diva e Angela: utopia para resistir à distopia

“Quando você escuta uma Diva Guimarães ou uma Angela Davis, senhoras e senhores… Ante o que passaram e ante aonde chegaram… Como não se orgulhar? É preciso aprender com elas”. *Por Nilton de Almeida

Diva Guimarães, afro-brasileira do Paraná.

Angela Davis, afro-americana do Alabama.

Dois marcos para uma utopia que brilharam no mês de julho de 2017.

Diva pediu a palavra na Festa Literária de Paraty (Flip). E falou por milhões.

Muitas e muitos de nós se sentiram representados naquela fala de 13 minutos sobre a perseverança da mãe para que ela estudasse.

E sobre transformar a raiva por sofrer discriminação em determinação e destemor para lutar e vencer no esporte. E quantas e quantos não se identificaram com a atroz história ouvida por ela quando criança, contada por freiras, que explicavam a diferença de cor entre brancos e negros por conta de um rio “criado por Deus”. Os brancos teriam se banhado na água limpa e por preguiça e atraso os negros só teriam chegado até a lama.

A novidade não está no que Diva disse. A novidade foi trazer à baila, à luz do dia, uma realidade conhecida por todos e enfrentada por bem poucos.

Mas eis que Diva, como um arauto da utopia antirracista, dá nomes aos bois. E nos deixou de alma lavada.

De alma lavada ficaram os que assistiram ou leram a conferência proferida por Angela Davis na UFBA. Segundo a lendária ativista, “o movimento das mulheres negras brasileiras representa o futuro do planeta. As mulheres negras brasileiras têm uma história extensa de envolvimento em lutas pela liberdade. Como tem sido simbolizado, por exemplo, pela Irmandade da Boa Morte. O conceito de Boa Morte nos convida a imaginar a imagem de um futuro melhor”.

Angela Davis é com muita justiça conhecida pela sua arguta produção intelectual, suas aulas brilhantes e sua militância no Partido dos Panteras Negras ou no Partido Comunista dos Estados Unidos, bem como sua projeção internacional na luta antirracista e dos direitos humanos.

Mas Angela Davis também foi injustamente acusada de conspiração e homicídio, sendo pedida pela promotoria a pena de morte, em 1970. Depois de quase dois anos (vinte e dois meses) presa, foi absolvida de todas as acusações. Pesaram tanto a defesa brilhante como uma campanha mundial contra tamanha injustiça. As chances. Poucas. Lutaram. Venceram.

A absolvição e libertação de Angela Davis foram daqueles momentos históricos que dão esperança. Daqueles eventos que nos fazem insistir na utopia.

Celebremos estes dois grandes momentos destas mulheres negras no Mês da Mulher Negra Latina e Caribenha.

Utopia, esse lugar que ainda não é, mas pode vir a ser, depende de desbastar esta distopia chamada Brasil.

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Há um livro brilhante intitulado Manifesto Anti-racista – ideias em prol de uma Utopia chamada Brasil, de autoria do professor Marcelo Paixão, e que se constituiu numa referência pela síntese que empreende sobre a realidade das desiguais relações raciais no Brasil.

Mas o antônimo de utopia é distopia.

No cinema ou nas artes em geral, a distopia se refere a um tipo de sociedade imaginária, como na utopia.

Contudo, são geralmente caracterizadas pela dominação e controle da sociedade, em particular com uso da tecnologia não para libertação, mas para opressão das massas, seja pelo Estado ou corporações privadas. Na distopia, o bem comum não existe.

As leitoras e leitores haverão de me perguntar se no lugar de “imaginário”, isso não já não existe. Em um lugar chamado Brasil. E adianto que é quase impossível discordar.

Como não chamar de distópica uma sociedade, para ficar no caso da Bahia, onde há uma escalada na chacina de quilombolas? O último episódio envolveu o assassinato de seis pessoas do quilombo de Iúna, em Lençóis. Como não chamar de distópica uma sociedade onde comunidades quilombolas e indígenas só vieram a ter direitos efetivos mais de cem anos depois do fim da escravidão legal e da proclamação da república, correm o risco de ter suas conquistas anuladas?

Em 2004, o Partido Democratas (DEM – ex-Partido da Frente Liberal, PFL) entrou com uma Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) no Supremo Tribunal Federal (STF), questionando o decreto 4887/2003. Este decreto regulamentou a titulação das terras dos quilombos. O julgamento será retomado nesta quarta, 16 de agosto, junto a outras três ações que também envolvem direitos territoriais e socioambientais de comunidades indígenas.

Ante a secular omissão do Estado e da sociedade brasileira para com estes povos, no lugar de terem seus direitos ampliados e consolidados, o aceno é para a estagnação, o retrocesso, a injustiça, a necropolítica.

Rafael Braga segue como o único brasileiro condenado nos protestos de junho de 2013 – da qual boa parte das leitoras e leitores participou. O crime? Portar um frasco de Pinho Sol, que como todos sabem, é um desinfetante. Mas segundo as autoridades, serviria para fazer uma bomba! Em 2017, recebeu uma condenação por tráfico de drogas e associação para o tráfico. Desde o primeiro depoimento referente a esta acusação, o ex-catador afirma que tal material não lhe pertencia. O material cuja posse lhe era atribuída?  0,6 grama de maconha, 9,3 gramas de cocaína e um rojão.

Em 12 de janeiro de 2016, segundo Rafael, ele ia à padaria quando foi abordado por policiais de uma unidade de Polícia Pacificadora. A justiça se recusou a ouvir uma testemunha arrolada pela defesa, bem como se recusou a usar as imagens da câmera da viatura ou a retirar as algemas de Rafael nas audiências.

Alguns estão, com razão, bastante preocupados com o esgarçamento das mínimas garantias constitucionais no nosso país. O que analistas e ativistas têm chamado de onda conservadora ou fascista não é novidade para a maioria da população negra e indígena neste país. A distopia é velha conhecida.

Mas quando você escuta uma Diva Guimarães ou uma Angela Davis, senhoras e senhores… Ante o que passaram e ante aonde chegaram… Como não se orgulhar? É preciso aprender com elas.

É preciso serrar fileiras com os quilombolas e indígenas. É preciso serrar fileiras com Rafael Braga. É preciso utopia para resistir à distopia.

 

*Nilton de Almeida Araújo é professor de História do Brasil, presidente da SindUnivasf (2016-2018), integrante dos Movimentos Antirracistas do Vale e membro do Conselho Municipal de Promoção da Igualdade Racial de Juazeiro.