Entrevistas

Historiador e Filósofo Michel Zaidan fala ao Ponto Crítico sobre a atual crise do país

Boa parte dos deputados pernambucanos que defendem o impeachment, na crítica do professor, são oportunistas que esperam se livrar de processos caso o impedimento da presidente se efetive.

11427209_416163358586337_1089857748060756202_n“O PSB, que antes se dizia independente, oportunisticamente, resolveu ir para a oposição. Pode ser que a manobra tenha a ver com o envolvimento de muitos de seus membros na Operação Lava-a-jato e a perspectiva de impunidade”. Declarou o professor da Universidade Federal de Pernambuco, Michel Zaidan Filho, em entrevista concedida ao nosso colaborador, Gilmar Santos.

Michel analisa o atual momento político e aponta as raízes históricas das manifestações que setores da direita e deputados da oposição fazem contra o governo da presidenta Dilma.

Boa parte dos deputados pernambucanos que defendem o impeachment, na crítica do professor, são oportunistas que esperam se livrar de processos caso o impedimento da presidente se efetive.

Entrevista Completa:

PC. A crise que toma conta do Brasil, atualmente, começa em qual momento da nossa vida política?

MZF. A nossa crise é sistêmica. O estado é patrimonialista desde o nascimento. A elite política é apátrida e usa o estado como forma de acumulação de capital (burguesia de estado) e o sistema político é o mais improvável que se conhece: multipartidário e presidencialista semi-imperial, fantasmagórico e fisiológico.

PC . Movimentos sociais e partidos de esquerda identificam um golpe nas manifestações a favor do impeachment e demonstrações de fascismo. O que é o fascismo, e como ele se apresenta nesse momento político?

MZF. Eles estão fazendo o seu jogo político. Querem afastar a Presidente de qualquer jeito, com ou seu motivo. O terceiro turno das eleições se prolonga mandato a dentro. É uma espécie de golpe à brasileira. O fascismo é movimento típico daquelas camadas que não querem se misturar com os de baixo, mas não são aceitas pelos de cima. Mas são usados como ninguém, pelos de cima, contra os de baixo. O modelo político chamas-e bonapartismo de direita.

PC. Como o senhor avalia esses movimentos de direita, do tipo Revoltados Online, Movimento Brasil Livre, que fazem boa parte das suas mobilizações via rede social?

MZF. Movimentos de gente que não conhece a história do Brasil, proveniente de uma classe média que não aceita mudanças sociais no país, têm preconceito contra o povo: mixofobia. Mas tem muito aproveitador, pescador de águas turvas, por trás. Esses são os perigosos. A rede virou um meio por excelência para fazer política. Não necessariamente boa. Mas é sim um instrumento de convencimento e mobilizaçao usado pelos mais jovens.

PC. Qual é o nível de responsabilidade dos setores de esquerda e do próprio governo
Dilma para com esse momento?

MZF. Muitos erros foram cometidos. Alianças espúrias com evangélicos, com partidos fisiológicos, velhos gansters da política brasileira. E os efeitos da política anticíclica do primeiro mandato da Dilma.

PC . Tanto os setores à direita quanto à esquerda falam da defesa democracia diante da crise do atual governo. Quais são as principais diferenças entre esses os dois lados?

MZF. A democracia de uns é tomar a cadeira da Presidente, sem eleição. A do governo é manter o resultado das eleições. Apesar se falarem em eleições gerais e mudança da politica econômica, não acredito em eleições gerais, nem reforma política com essa camarilha que está no Congresso.

PC. Como o senhor situa Pernambuco e os seus principais representantes políticos nesse cenário?

MZF. Infelizmente, nossos representantes “roeram a corda” desde a decisão do ex-governador lançar sua infausta candidatura. Aliás, a maioria deles está na lista de propinas da Construtora Odebrecht. O PSB, que antes se dizia independente, oportunisticamente, resolveu ir para a oposição. Pode ser que a manobra tenha haver com o envolvimento de muitos de seus membros na Operação Lava-a-jato e a perspectiva de impunidade. De toda maneira, o script é um só, quando convinha os socialistas estiveram no governo, quase, até o fim. Depois, passaram a fazer o papel da oposição.

PC. Com Dilma ou sem Dilma, o que podemos aguardar?

MZF. Crise, crise e crise. Se ela sobreviver, amargará uma absoluta falta de apoio no congresso e nos meios de comunicação. Falta ver o papel do judiciário.

PC. É possível apontar saídas? Quais seriam elas?

MZF. Reformar pela base todo o sistema político e partidário brasileiro, punindo exemplarmente os bandidos, corruptos e corruptores, os gestores improbos e a serviço de interesses privados.

PC. O que deve fazer os trabalhadoras e trabalhadores para que essas saídas se concretizem?

MZF. Irem às ruas protestar contra o golpe e denunciar o nome de cada parlamentar de seus estados que estão vendendo o voto para o Impeachment. Ir às ruas protestar não significa apoiar a agenda do ajuste fiscal. Essa é outra história. Defender o mandato, não é concordar com a atual política econômica, lesiva aos interesses do povo e dos trabalhadores, de um modo geral.