Coluna K

Os pecados do cantor Kleber Lucas

O ícone da música gospel nacional vem sendo condenado nos tribunais da moralidade evangélica por três pecados: cantar música profana, convidar um padre para pregar e participar de um culto ecumênico num terreiro de candomblé. O que fundamenta esse furor contra ele?

 

Imagem disponível em: <http://jasielbotelho.blogspot.com.br/2009/09/o-fariseu-dentro-de-nos.html>

 

 

Delcides Marques*

 

Quantas igrejas protestantes brasileiras não incluem em suas reuniões oficiais ao menos uma das músicas de Kleber Lucas? Esse compositor, instrumentista, cantor e produtor musical mantém uma surpreendente popularidade desde fins da década de 1990. Ele é autor de vários hits no meio evangélico há dois decênios, entre eles: “Deus cuida de mim”, “Aos pés da cruz”, “Deus forte”, “Meu alvo é Cristo” e “Eu vou seguir com fé” e “Vou deixar na cruz”. A indubitável presença de suas músicas no cancioneiro cristão fez dele um dos mais importantes ícones da música gospel contemporânea. Trata-se, em suma, de uma influência musical celebrada, cantada e reconhecida amplamente.

Mas Kleber Lucas cometeu três pecados crassos em 2017. Três vezes, não é possível. E mais: um pecado pior que o outro. Aí não dá para perdoar. Se fosse ao menos pecado contra Deus! Pecar contra os costumes evangélicos, sem chance. Não há penitência que salve. Afinal de contas, Deus perdoa, já os crentes…. Até quando suas canções serão ouvidas nas igrejas? Ao que tudo indica, tendem a minguar em breve tempo. Vamos entender melhor o que está em jogo.

O primeiro deslize de Kleber Lucas foi cantar “música mundana”. O primeiro registro disso ocorreu no púlpito da igreja que fundou e pastoreia, a Igreja Batista Soul, na Barra da Tijuca, na Zona Oeste do Rio de Janeiro. Ele entoou a música “Epitáfio”, dos Titãs, durante uma pregação sobre o tempo e, imediatamente à publicação do vídeo, os comentários contestadores o acusavam de cantar “música do mundo”, “música secular”, “música profana”. Ele foi acusado de ter se “perdido”, de ter se “desviado do foco”, de estar caminhando para a “inversão dos valores”. Outro registro desse pecado de Kleber Lucas seguiu a mesma esteira, mas agora entoando “Lanterna dos Afogados”, canção de Os Paralamas do Sucesso, no evento Encontro com Caio Fábio.

O segundo tipo de pecado de Kleber Lucas, e visto por muitos internautas como mais grave que o pecado anterior, foi convidar o padre Fábio de Melo para participar da festa de aniversário da Igreja Batista Soul. Em comemoração aos três anos do templo, o padre fechou o encontro cantando e pregando. Mais uma vez, não faltaram acusações, mas agora ainda mais violentas: “apóstata”, “herege”, “fogo estranho”, “virou bagunça”, “desviado”, “perdeu o sentido”. De fato, não é possível dizer que a totalidade dos evangélicos produziu comentários com esse teor de indignação, mas a repercussão polêmica e difamadora se expandiu muito rapidamente nos fecundos fulcros das fofocas evangélicas.

Recentemente, contudo, um acontecimento arriscou minar mais drasticamente ainda toda a sua reputação entre os evangélicos. O incidente em questão ganhou enorme reverberação. O evento se referiu à entrega da doação de R$ 11 mil pelo Conselho de Igrejas Cristãs do Estado do Rio (CONIC-Rio) para o terreiro que havia sido criminosamente incendiado em 2014 por ato de intolerância religiosa. Trata-se do terreiro Kwe Cejá Gbé de Nação Djeje Mahin, localizado em Duque de Caxias (RJ). O dinheiro, arrecadado por iniciativa da pastora luterana Lusmarina Campos Garcia (presidenta do CONIC-Rio), foi entregue num culto ecumênico com a presença de pastores, incluindo Kleber Lucas. Imediatamente à divulgação, páginas virtuais, grupos sociais e canais de vídeos proliferaram a notícia de que ele havia visitado, tocado e cantado “músicas seculares”, mas agora num terreiro de candomblé. Parte da reunião ecumênica, e particularmente o momento em que Kleber Lucas participa das canções, é publicizada num vídeo no Youtube em que ele aparece cantando mais uma “música mundana”: “Maria, Maria”, de Milton Nascimento (e nesse caso, irônica e literalmente compõe o álbum Música do mundo), acompanhado de atabaques. Nada mais foi preciso para um novo e desmedido alvoroço entre os crentes. A ida e a participação de Kleber Lucas nesse terreiro fizeram do ídolo um demônio. Foi o pecado que faltava para se decretar a apostasia de um dos maiores nomes do cenário gospel nacional: da glória à rejeição, de homem abençoado a desviado. Sabe-se que após a entrada triunfal vem o julgamento, condenação e crucificação. E assim foi com Kleber Lucas: num dia é exemplo de adorador e no outro é amaldiçoado como idólatra e endemoniado.

Para acompanhar as respostas do próprio Kleber Lucas, há uma entrevista disponível. Contudo, em um sentido diverso à entrevista, o que eu pretendo fazer agora é colocar determinadas questões produzidas e acompanhadas de uma intrigante irritação com a falta de bom senso nos comentários e posturas de muitos dos mais santos e espirituais religiosos que se manifestaram nos ocorridos. E que cada um elabore honestamente suas próprias autoavaliações, como sugere Paulo, “examine, pois, cada um a si próprio” (I Coríntios 11,28).

Qual o sentido e pertinência de tratar o outro como inimigo e demoníaco e não como irmão? O que torna necessário destruir os diferentes, quaisquer que sejam eles? Já avaliou de onde procedem determinados qualificativos usados como acusação, caricatura, rejeição, exclusão e condenação daqueles que vivem de modo diverso ao seu? Por que o honroso é, contraditoriamente, aquilo que se torna rejeitado? Não deveria haver constrangimento generalizado, pois enquanto os evangélicos apedrejavam Kleber Lucas, os filhos de terreiro promoveram um ato de solidariedade e reconhecimento a ele? É tão difícil reconhecer práticas que prezem pelo respeito, convivência, cuidado e aceitação do outro como Jesus sugeriu com o exemplo do samaritano? Por que será que o vergonhoso vira motivo de orgulho? Ou seja, o que faz com que líderes e costumes patéticos sejam aclamados como santos, mesmo sendo contraditórios aos ensinos cristãos? Não é o desamor a maior marca do mundo na igreja? O que torna concebível, de outra parte, celebrar um fascista, racista, homofóbico e torturador como homem de Deus, como muitos vêm fazendo? Sabia que foram homens assim que mataram a Jesus? Entendeu também que Cristo não andava com os religiosos, mas muito pelo contrário, costumeiramente escandalizava-os? Irônico, não? Sabia que o que mantém o preconceito tão aguçado não é cristão? Pensou em quais critérios efetivos e refletidos podem ser adequadamente usados para conduzir melhor a sua própria vida pessoal antes da alheia? Já considerou o que alimenta a reiterada guerra entre as religiões? Sabe o que fazer com a velha tagarelice evangélica que se reproduz irrefletidamente e ad infinitum? Juízes da espiritualidade alheia, vocês sabiam que a propalada expressão “Deus abomina o pecado, mas ama ao pecador” não está nos textos sagrados do cristianismo, mas é citada como tal? Aliás, por que é tão difícil entender que Jesus, o maior exemplo para os cristãos (ao menos em teoria), só desprezava um grupo de pessoas, justamente os religiosos hipócritas presos à legalidade rigidamente desumana, atados ainda ao cinismo espiritual disfarçado em santidade, bem como à vanglória de serem julgadores de tudo e de todos?

* Delcides Marques é professor de Antropologia na Univasf, membro do KRISIS – Laboratório de antropologia, filosofia e política, colunista no site PontoCrítico, pesquisador sobre teologia e missão no cristianismo e participante da Igreja Episcopal Carismática do Brasil.

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