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Terreiros de Matrizes africanas e a proposta afrocêntrica, para vencer o racismo estrutural e religioso

“Inibir o racismo estrutural e institucional é o caminho para romper com a lógica de dominação e exclusão que institucionalizam linguagens, conteúdos e conceitos, que reforçam ao longo da história as desigualdades raciais”. Por Sônia Abiké Ribeiro

Foto: Frente Negra do Velho Chico

Os terreiros de matrizes africanas são espaços de organização e manutenção de um legado organizativo, participativo e comunitarista herdado das práticas coletivas das comunidades africanas pré-colonialista.

Estas práticas foram reelaboradas no Brasil  referendando as memórias e as histórias sagradas, sociais, políticas e filosóficas das/os antepassados africanas/os. Memórias estas, que estavam grafadas, nos corpos dos diferentes grupos étnicos que aqui chegaram e reorganizaram espaços sociopolíticos de resistências e permanências, trazendo pensares e fazeres baseados em modos e comportamentos com princípios filosóficos e éticos coletivos e participativos, respeitando as diversidades políticas e organizativas dos diferentes povos que aqui chegaram na condição de sequestrados,  imposto pelas/os ignorantes europeus.

Estes diferentes grupos do tronco linguístico bantus, reconstituíram o conceito de povo africano, dispersos no Brasil e a  partir de suas linguagens e grafias gestuais e corporais e  organizações comunitárias, reconstruíram famílias de afetividades e  trouxeram como base inicial  as similaridades filosóficas africanas, para organizarem os primeiros aquilombamentos coletivos e recriaram as práticas espirituais.

Reinterpretaram as epistemologias  sociais sagradas,  contidas nas cantigas e contos,  nas memórias e histórias como metodologias participativas de enfrentamentos às violações de direitos ocasionado pelos Estados escravistas que estruturaram e institucionalizaram o  racismo.  

A força comunal das mulheres e homens, movidos pela lógica Africana de interligar saberes e crenças determinou um novo aprendizado de sobrevivência trazendo  as matrizes África para o centro como referências de  organizações resistentes.

Em todos os territórios recriados, mesmo sendo vigiados pelos olhos das/os colonizadora/res, estavam presentes a memória ancestral coletiva e a força vital das/os Inkices, Voduns e orixás, que embasou o fortalecimento da vida das/os Africanos na dispersão, é sabido que a carga muito forte de sacralidade deu equilíbrio emocional e racional e o suporte à espacialidade e territorialidade, elementos fundantes na matriz identitária das comunidades de terreiro, grande espaço repositor da vida que permitiu as/os africanos escravizados o resguardo de todo o potencial imaterial e patrimonial das tradições.  

Cabe lembrar, que esses aquilombamentos mesmo com pensares, saberes diferentes, conseguiram sintetizar uma prática coletiva de proteção, escuta, autocuidado e resistência, que possibilitou a continuidade de nossas tradições sejam os nossos sagrados e os nossos quilombos e várias outras manifestações culturais pretas. 

Estes grupos teceram redes de colaborações, constituíram espaços sacralizados de fortalecimento do povo preto.  Salientamos o papel social e político das mulheres pretas, na escravização e após seu fim.

Elas foram fundamentais, para resguardar o sentimento de pertencimento do povo preto transcenderam os sentidos para compreender um povo em dispersão e realocar os princípios de afetos, recriarem os sentidos de famílias por dentro dos úteros míticos e colocaram nossos corpos como portais de alteridade (roncós, colos, seios, escutas, abraços) esses aconchegos e acolhimentos, embrionaram e religaram corpos de crianças, mulheres e homens e religaram em sujeitos afetivos e comunitários para enfrentar as realidade antissociais, esse úteros foram primordiais para  substituir o rompimento desses povos dos  úteros maternos.  

Rompimento esses, que desligaram os laços consanguíneos impostos pelo escravismo. Portanto, precisamos reconhecer o papel das organizações sagradas ou espaços ancestrais, terreiros, terreiras como vínculo de interação a tudo que tem um valor humano, histórico, ambiental e social e político. 

O sagrado nos reconectou ao sentimento de povo preto, pois foi à origem de outras territorialidades e espaços de reivindicação política e social e solidariedade familiares e entre comunidades. Todas as comunidades pretas foram originárias de um núcleo radial de cuidado, escuta, comunicação, reuniões de enfrentamentos políticos e propositivos internas comunitárias. No entanto, as reflexões cotidianas são presentes nas realidades sociais dos terreiros e precisam serem cada vez mais organizadas para repensar politicas específicas e  jurídicas, que inibam os processos de racismo religioso e intolerâncias ocasionadas pelo racismo estrutural, institucional que moldam as institucionalidades e a séculos perseguem o povo preto, sobretudo os espaços coletivos em  comunidades, que produzem uma epistemes afrocêntrica e reforçam as identidades pretas.

Sendo assim, sabemos que as históricas perseguições, com medidas institucionais revelam o projeto eurocêntrico instituído por pacto que conhecem o valor social e organizativo dos espaços pretos, que ameaçam as hierarquias racistas.  Trazer as comunidades de terreiros é apresentar outras propostas, traçando outras referências de respeito à vida em comunidades, sobretudo do povo preto, sobretudo as mulheres, trazendo outras propostas educacionais valorando os afroreferênciais, como alicerce de reconstituição do legado do povo preto com os ideários de coletivizar, respeitar, compreender as dinâmicas transformadoras em todos os aspectos.

Apresentadas por nossas espiritualidades, somos herdeiras/os de povos, que trazem no sagrado uma proposta emancipadora de valor a vida e a concepção biomítica do nosso corpo território  (parte biológica e parte divina) que  reside o projeto filosófico Africano, baseados na preservação da natureza em valor da vida  e somos seres  revestida de um valor sagrado onde qualquer violação ou violência, contra o ser humano, seja ela material ou imaterial viola contra a vida física, social e ambiental.

Trazemos a natureza como vinculo de produção de vida e produção de continuidade e produção epistêmica.   O corpo território das pretas/os é um lugar sagrado e guarda uma memória coletiva e com arquivos textuais que são reproduzidos nas linguagens orais, gestuais e práticas rituais e escritas e estão em constante  simbiose com os elementos naturais, as comunidades   e resguardaram  uma proposta e hoje rebuscam a recuperação do projeto filosófico de coexistência trazendo os elementos da natureza como uma proposta inicial coletiva e os terreiros são lócus identitário e espaço de reconexão, cognição e trás uma pensamento contra colonial.  

Estes espaços atravessaram séculos orientando suas/seus seguidores a importância das vivências espirituais como fortalecimento coletivas para enfrentar as violações de direitos, impetradas pelo processo histórico das desigualdades raciais e as vulnerabilidades sociais comunitários e todas as perseguições raciais impostas pelos pactos hegemônicos da branquitude. Inibir o racismo estrutural e institucional é o caminho para romper com a lógica de dominação e exclusão que institucionalizam linguagens, conteúdos e conceitos, que reforçam ao longo da história as desigualdades raciais.

*Por Sônia Abiké Ribeiro
Mulheres de terreiro, quilombola, Socióloga e Mestra em Extensão Rural. UNVASF- Integrante da frente Negra do Velho Chico.
Integrante da Frente Negra do Velho Chico

 

Para saber mais

OYÉWÙMÍ, Oyèrònké. Matripotência: Iyá nos conceitos filosóficos  e Insdtituições sociopolíticas (Iorubas). Nova Iorque: Palgrave Macmillan, 2016. Tradução por Wanderson Flor do nascimento.

PEREIRA DE JESUS, Jairo. Cadernos Afros. Os terreiros de Matriz Africanas. Porto Alegre: Fórum Social Mundial, 2001.

Ramose, M. B. Sobre a legitimidade e o Estado da Filosofia Africana. Pretoria: volume V: 2011.

SANTOS, Juana Elbein dos. 7. ed. Os nagôs e a morte. Petrópolis:Vozes, 1993.

SODRÉ, Muniz. O terreiro e a cidade – a forma social negro brasileiro. Claros e escuros. Petrópolis: Vozes, 1988.

TEODORO, Helena. Mito e Espiritualidade das Mulheres Negras. Rio de Janeiro:Vozes: 2000.