Ébano

Votos Negros importam

Somos responsáveis por honrar cada uma dessas vidas.

É preciso esclarecer de uma vez por todas que as conquistas sociais que beneficiam a maioria da população não são concessões de governantes bondosos, mas resultado de intensas lutas, muitas das quais nunca soubemos, mas através delas muito sangue foi derramado para que hoje possamos decidir minimamente o nosso futuro.

Somos responsáveis por honrar cada uma dessas vidas.

Para que os donos do poder imponham a sua vontade sobre a maioria da população, é necessário convencê-los de que a injustiça social é algo natural e aceitável. E como eles fazem isso?

Criando teorias e discursos que nos diferenciam e inferiorizam. Essas teorias foram disseminadas por livros, TV, currículos escolares etc. Não à toa, quando essa violência material e simbólica começava a ser revista e uma compreensão mais adequada do papel da população negra principia no horizonte, há um recrudescimento da violência a nossos corpos, eliminando vidas: nossos jovens, nossas Marielles, nossos mestres Moas…

E ainda vão mais longe: colocam-nos uns contra os outros para que as divergências nos impeçam de enxergar nossa humanidade comum: a dor e a indignação.

A pergunta que devemos fazer é: QUEM GANHA COM ISSO?

É a população negra e/ou pobre?

Recentemente, o jornal El País publicou um estudo sobre concentração de renda e desigualdade social no Brasil, realizado em 2017, que constatou que as seis pessoas mais ricas do Brasil concentram 50% da riqueza do país. Se os ricos forem “conceder” vida digna a todos os pobres (que são os trabalhadores), terão que dividir sua riqueza e isso, claro, eles não admitem. E vão lutar a todo custo e com todas as armas (literalmente) para evitar que esse momento chegue um dia.

Para impor seus interesses, a população mais pobre precisa conquistar mais força e participar do exercício do poder político! Precisamos eleger em primeiro lugar representantes negras e negros, e aqueles políticos que incorporem nossos anseios e necessidades. E não podemos eleger ou nos neutralizar diante de falas e históricos de candidatos contra a nossa gente. Precisamos honrar esse sangue, essa luta, essa gente: NOSSA GENTE!

Não é admissível que entre nós negros haja quem vá votar em candidatos que reforçam o racismo e todo tipo de preconceito, desrespeitando nosso passado, agredindo nosso presente e ameaçando nosso futuro.

Ao contrário do que tentam nos convencer, vidas negras importam. E, em particular e todos sabem cada vez mais, VOTOS NEGROS IMPORTAM. Pelos que já foram, pelos que estão e pelos que virão.

 

Por Adriana Pinheiro, professora de Sociologia do IFBA e militante dos Movimentos Antirracistas do Vale, MAV.