Coluna K

MORRER VOLUNTARIAMENTE: Da condenação do suicídio à liberdade de pensá-lo

De onde vem a condenação moral do suicídio? De tal condenação não permanecemos mudos diante da necessidade do debate? Somos capazes de aprovar moralmente o suicídio? Apresento aqui algumas reflexões sobre nossos pré-julgamentos e tomo uma posição sobre o valor positivo de pensar a própria morte.

Charge POnto Crítico

Alexandre H. Reis*

Se o suicídio é verdadeiramente um problema sério não deveríamos torná-lo o tema de um debate público e aberto? Fala-se constantemente dos que provocaram a própria morte. Comenta-se na surdina o modo terrível como morreram. Sim, na surdina, em baixa voz, para que não se ouça o murmurejo sobre o que não se pode falar. Na internet, como diversão macabra, há inúmeros vídeos de pessoas que pulam de pontes: a morte do outro tornada espetáculo. O que proponho, por hora, é que façamos o inverso: deixemos os suicidas de lado, em suas subjetividades impenetráveis, nós que não conhecemos suas intimidades, e falemos abertamente do suicídio. Talvez, se conseguirmos fazer essa separação, possamos diminuir nosso receio de tratar do assunto. Podemos debater a ideia do suicídio e sua história; seu lugar na sociedade; suas proibições e suas aceitações.

A primeira questão que me perturba é o julgamento que nossa cultura fez do suicídio: ele é condenado no Ocidente ao menos desde quando Santo Agostinho no Livro I de sua obra Cidade de Deus (capítulo XIX), no início do século V, tomou para si a tarefa de julgar o suicídio de Lucrécia (a filha do prefeito de Roma que tirou sua própria vida após contar para o marido do estupro que sofrera por parte de um nobre): ela deveria ser condenada ao inferno por ter tirado a própria vida do mesmo modo que um assassino tira a vida de um inocente. Com esse veredito, Agostinho aproximou o ato de se matar ao mandamento não matarás, incluindo-o aí. Mais tarde, outro pensador de peso veio em sua ajuda reforçar o argumento: no século XIII, Tomás de Aquino na obra Suma Teológica (no artigo 5 da questão 64 da Segunda Parte do livro) defendeu esta posição e contribuiu para a condenação cristã do suicídio do mesmo modo que se condena o homicídio, e tal visão penetrou toda a cristandade europeia instalando-se na cultura. Mas, podemos ainda relembrar uma evidência linguística do século XVII que demonstra o julgamento negativo da sociedade europeia (estendido a todo o ocidente): a própria aparição do termo suicídio, formado pelo pronome reflexivo si (sui) e pelo verbo matar (caedere). Este vocábulo, suicidium, que não pode ser encontrado antes do século XVII (precisamente 1643), é formado por sinonímia com o termo homicidium. Isso explicaria em parte o peso negativo que a palavra tem. Nossa cultura bateu o martelo a favor dos argumentos agostinianos que veem no suicídio uma forma de homicídio, de assassinato. Parece-me que aí está um caminho interessante para se compreender o caráter estigmático da morte auto infligida. Poderei, em outra ocasião, precisar mais essa questão.

Se conseguirmos com esforço intelectual suspender nosso juízo moral por um momento, poderemos nos fazer algumas perguntas sinceras: podemos moralmente interferir na decisão de outrem? Compreendemos os motivos do estranho que pretendemos salvar ao vê-lo sentado no parapeito de uma ponte? Salvar ou condenar? Podemos de antemão, sem nenhum conhecimento, dizer que estamos a salvar aquele estranho? E se ao intervir estivermos a condenar aquele desconhecido a uma vida que nem mesmo o mais indiferente dos homens suportaria? Os estudiosos e profissionais que se ocupam com a Saúde têm apontado as relações do Suicídio com a Depressão. No entanto, a questão envolve um sem número de outros pontos que precisam ser discutidos. Uma vez mais essa relação revela a vocação de nosso Sistema de Saúde de tratar apenas os sintomas. A questão da economia não pode ser esquecida: já não temos muitos casos como na época do romantismo, quando a morte voluntária se dava pelo desespero amoroso, por um sentido impossível de ser conquistado. Para além das justificativas psiquiátricas, a questão do suicídio envolve os subsalários, as dívidas, a competição de mercado, a banalidade da vida, a ausência de sentido, a incapacidade de criar novas formas de vida, a impossibilidade de consumir o estilo de vida idolatrado por uma sociedade de dinheiro e poder e uma decisão que não pode ser previamente julgada.

Uma questão séria exige de nós um pensamento livre dos preconceitos morais: a vida é mesmo desejável em quaisquer circunstâncias? Sendo ela insuportável e diante de um mal incontornável que está necessariamente por vir, não poderíamos aprovar moralmente o suicídio? Diante de uma doença terminal, o sujeito é mesmo obrigado a esperar as piores dores e sofrimentos ou poderíamos aprovar uma escolha que parece razoável por uma morte com um pouco de dignidade, assistida pelo conhecimento médico? Quando legalmente não aceitamos a eutanásia não fazemos a escolha pela vida a todo custo? O tema do suicídio exige que abramos nossas mentes para compreender o problema para além das pessoas de carne e osso: seria uma grande reviravolta se acolhêssemos o sofrimento alheio com um coração mais aberto. Somos capazes de aprovar um suicídio assistido em circunstâncias de sofrimento incontornável? Em outra ocasião trarei para nosso debate o tema da eutanásia e seus desdobramentos.

A vida, na ótica em que a vejo, é um valor, e como tal, é possível que sejamos capazes de compreender o desejo de suicídio como a impossibilidade de criar para si novas formas de vida. Isso na grande parte dos casos. Ora, neste sentido, para além da economia, para além da psicologia e da psiquiatria, o suicídio envolve também uma questão estética, pois é aí que reside a ciência da arte da criação. Entendo que o suicídio, de forma apenas geral, é uma negação da própria vida, do próprio eu empírico. Se assim penso, a consequência é uma associação da morte de si com a incapacidade de criação. Criar é viver. Se não fosse assim, não teríamos erigido para além de nossa vocação natural e biológica um mundo simbólico e cultural. Nós criamos a nós mesmos para além dos determinismos da espécie. Mas parece que estamos esgotados! Não tenho esperanças para ver em minha vida mudanças estruturais em nossas sociedades. Mas do ponto de vista das pequenas coisas, da criação de um estilo de vida próprio, de uma pequena comunidade, ainda penso ser possível uma saída para a criação de novas formas de vida.

Esperar a morte quando a vida não tem nenhum sentido de prosseguir, quando é insuportável a dor da ausência, a pressão dos cobradores, os subsalários, a dor insuportável, quando existe mais mal em viver do que em morrer: como podemos condenar moralmente o suicídio? A grande questão é neste sentido um verdadeiro pacto de solidariedade: mesmo que condenemos o suicídio em nossa cultura, podemos, individualmente, ser benevolentes com os sujeitos. A questão não é interferir no ato, mas na vida do sujeito e contribuir para a criação de um sentido, de um valor, de uma justificativa. Ora, cada um de nós pode agora se perguntar: por que simplesmente não acabo com minha vida? Qual o sentido de viver? E podemos ainda virar para um sujeito com ideação suicida e fulminar a pergunta: por que você ainda não se matou? As respostas a essas perguntas geralmente apontam para algum sentido ou ao menos para a possibilidade de algum sentido. E é aí que podemos trabalhar a nossa solidariedade no ato de criação de novas formas de vida. Mesmo se eu disser que a escolha pela vida ou pela morte cabe ao próprio sujeito, não quero com isso dizer que se deve escolher pela morte. Ao contrário. Penso que é preciso construir sentido de existência. Dizer que devemos exorcizar os estigmas do suicídio não implica em dizer ele seja a melhor escolha.

Um pensador no início da Modernidade, Michael de Montaigne (no ensaio Costume da Ilha de Quios), lançou sobre a questão o seguinte raciocínio: se não é roubo eu me apropriar de meus próprios bens, se não é crime o lance de faca sobre a minha própria bolsa, porque seria então assassinato o ato de tirar a minha própria vida? Este argumento afirma a própria liberdade do indivíduo em contraposição com o argumento da pertença (família, sociedade, Deus). Mas lendo o ensaio com a devida atenção, não se pode concluir uma aprovação moral da morte voluntária por parte de Montaigne, mas sim um questionamento sobre a ordem judicial do problema. Lembro essa questão para que pensemos sobre nossos próprios pontos de vistas: porque ao proibirmos o suicídio em nossa sociedade moralmente, o compreendemos como uma forma de homicídio. Ao meu ver, aí reside a raiz do problema.

A outra questão que gostaria de lembrar nesse pequeno artigo, e que talvez seja seu ponto crítico, é o valor positivo do pensamento do suicídio. O pensamento do suicídio é ele mesmo uma criação, ele mesmo um valor. Se for bem elaborado ele dispensa o próprio ato. Em situações em que a vida parece ter desmoronado e que nada mais resta para o sujeito aparece afinal de contas uma alternativa, uma última esperança, um último domínio de si e uma afirmação plena de liberdade: “ora, posso eu mesmo tirar a minha própria vida!”. Uma carta escrita aos amigos na qual se despede o seu autor pode ela mesma revirar as coisas e revelar afinal que existe o poder de infligir a si próprio a morte. Se a morte é possível, então a própria vida é também possível. Permitam-me lembrar o depoimento de um dos grandes pensadores do século XX a este respeito, Emil Cioran (no livro O mau demiurgo, 1986, capítulo “Encontros com o suicídio”):

Na minha juventude, eu vivi todo dia com essa ideia, a ideia do suicídio. Mais tarde também, e até agora, mas talvez não com a mesma intensidade. E se ainda estou vivo é graças a essa ideia. Eu só pude suportar a vida graças a ela, ela foi meu suporte: ‘ És mestre de tua vida, podes matar-se quando quiseres’, e todas as minhas loucuras, todos meus excessos, foi assim que eu pude suportá-los. E pouco a pouco essa ideia começou a se tornar algo como Deus para um cristão, um apoio; eu tinha um ponto fixo na vida”

A grande questão que se coloca aqui é a possibilidade mesma de pensar livremente a ideia de se matar. Ora, o que nos impede o suicídio é a grande questão de nossas vidas, é a descoberta do sentido. Por isso é sempre oportuno pensar em se matar para se reafirmar a própria vida. Conforme penso, liberdade é atributo dos vivos, não dos mortos, mesmo que meus mestres tenham pensado diferente (a exemplo de Platão, Fédon, ou de Drummond, no poema “Liberdade” de seu póstumo, Farewell, ou o próprio Cioran). Sendo assim, o pensamento do suicídio é muito mais libertador do que o próprio ato. É uma forma de encontrar sentido quando o desespero tomou conta de toda existência: ora, ainda posso me matar, posso, afinal de contas, guiar os rumos de minha própria vida e impor-me a própria morte. Com este raciocínio é possível descobrir o valor da própria vida: ela é em si mesma a possibilidade criação de novas formas de existência. A nós, que por hora não somos tomados pelo desespero, resta discutir o assunto e impor o dever da amizade: podemos ser meios para que o outro encontre na própria amizade um fim desejável. E neste sentido, debater abertamente a ideia, o pensamento, é um caminho interessante. “Faz bem pensar que a gente vai se matar. Nenhum assunto é mais repousante: desde que a gente o aborda, respira-se. Meditar sobre ele torna a gente quase tão livre quanto o ato mesmo.”, dizia o velho Cioran. E é porque podia dizer, escrever, que suportou suas oito décadas de existência. Muito próximo a ele, um século antes, Nietzsche escreveu no aforismo 157 de seu livro Além do Bem e do Mal: “O pensamento do suicídio (Selbstmord) é um forte consolo: com ele podem-se atravessar muitas noites difíceis”.

A minha proposta é, portanto, que falemos abertamente sobre o assunto, até conseguirmos torná-lo a matéria prima para a criação de novas formas de vida justificáveis. As mais de duzentas ocorrências de suicídio na literatura grega (teatro e poesia épica) deu a eles afinal um olhar bem diferente da nossa visão censuradora. Escrever sobre o assunto, em forma de ensaios, poesias, teatro ou outras representações culturais é, no acerto das contas, um bom início para abrirmos espaço para os que precisam falar. Se não conseguirmos expulsar os estigmas do suicídio, repito, sejamos ao menos benevolentes com os suicidas.

*Alexandre H. Reis é professor adjunto no Colegiado de Ciências Sociais da UNIVASF e membro do KRISIS – Antropologia Crítica. É estudioso de filosofia e cultiva plantas, ideias, o amor e duas Poesias.