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Política, futebol e religião

A religião tem influenciado diretamente a política, esta tem influenciado o futebol, este tem sido objeto de corrupção e por aí vai. Ou seja, mente aquele que para aparentar neutralidade ou imparcialidade, diz que sua religião ou seu partido compete apenas a si. * Por Patrick Campos.

Talvez uma das sentenças mais repetidas pelo senso comum seja a de que política, futebol e religião não se discutem e não se misturam. Contraditoriamente, talvez sejam estes alguns dos assuntos mais debatidos pela maioria das pessoas diariamente. E assim é pelo fato de serem questões extremamente cotidianas e presentes tanto na esfera privada quanto pública.

A origem desta afirmação remonta a ideia de que existem temas que se delimitam a esfera particular, não cabendo tratá-las em público, sob pena de se ver invadida a liberdade e desrespeitar-se a opinião ou crença do outro.

Ocorre que os três temas que estamos tratando, se algum dia foi, há muito deixaram de ser competência da esfera particular e transitaram para o domínio público. Na verdade, muito mais correto seria afirmar que são questões fundamentalmente de cunho público e coletivo, muito mais que individual.

Ser fiel desta ou daquela instituição religiosa, torcer por este ou aquele time, ser filiado a um ou outro partido político são opções feitas a partir de uma determinada forma de compreender o mundo, de viver a vida e de se relacionar que vai muito além daquilo que um indivíduo pensa na intimidade de seu quarto. Trata-se justamente da maneira que a sociedade e os sujeitos que a constroem vivem e estabelecem regras e limites de convivência.

Evidente que não se pode desprezar ou ignorar a individualidade de ninguém, muito menos despersonificar um indivíduo retirando-lhe seus atributos pessoais que o fazem ser quem ele é, pelo contrário. Mas também não parece ser correto transferir para a arena do privado questões que pertencem muito mais ou tanto quanto a arena pública.

Esta pequena introdução foi necessária para afirmar que política, futebol e religião devem sim ser discutidas, e muito discutidas. Principalmente porque uma observação mais atenta da realidade revela que o discurso que busca inibir o debate sobre estes temas é comumente manifestado por quem está em uma condição de poder, posição esta ameaçada por qualquer debate que questione o status quo.

Quem afirma que estes e outros temas não devem ser objeto de discussão busca, direta ou indiretamente, esconder a sua opinião, muitas vezes para não revelar uma obviedade que cega pela força de sua clareza, a de que estas questões, além de estarem muitas vezes ligadas, estão entre algumas das mais importantes e decisivas para a vida e a sobrevivência das pessoas.

Um exemplo recente, motivador deste texto e que merece destaque, pôde ser observado nesta última terça-feira (12/09), aqui mesmo em Petrolina, durante o debate e votação da Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) ocorrido na Câmara Municipal de Vereadores.

Foi simbólico ver um Vereador, ex-presidente de um time de Futebol usar a Bíblia Sagrada para combater a inclusão de políticas de direitos humanos entre as diretrizes para o orçamento municipal. Ora, se isso não é revelador da hipocrisia do discurso de que política, futebol e religião não se discutem (e que não se misturam), nada mais será.

Precisamos discutir e entender que tudo está ligado intimamente. A religião tem influenciado diretamente a política, esta tem influenciado o futebol, este tem sido objeto de corrupção e por aí vai. Ou seja, mente aquele que para aparentar neutralidade ou imparcialidade, diz que sua religião ou seu partido compete apenas a si.

O que assistimos ontem foi uma demonstração cabal de que no fim das contas, a religião, a política, o futebol e tantas outras questões, cada vez mais saem da esfera privada para ditar publicamente os interesses pessoais de quem diz que não devemos discutir, mas nos resignar no aconchego de nosso lar, orando, torcendo e votando de quatro em quatro anos, acreditando que assim tudo irá melhorar.

*Patrick Campos é graduando em Direito pela Universidade Estadual da Paraíba. Foi diretor da União Nacional dos Estudantes, é virginiano e rubro-negro pernambucano.