Ciência & Sertão

Yo Sí Puedo

Uma homenagem à ciência cubana

imagem da internet

A evolução da história recente da Ciência e Tecnologia (C&T) em Cuba tem sido dividida em três fases:

  • A promoção dirigida da C&T
  • A institucionalização da C&T
  • O período especial

Na primeira fase (delimitada entre 1959 e 1974) houve um despertar para a formação da massa crítica de cientistas cubanos, antecedendo o período em que a agência estatal contribuiu com a criação de mais de 40 instituições de ensino superior por todo o país. Este processo sofreu um grande baque naquele que seria o momento da consolidação das ações (o chamado período especial) que terminou por coincidir com a queda do bloco socialista e o fortalecimento do bloqueio americano à Cuba.  Embora o governo cubano sempre tenha entendido que é a educação a chave para a libertação de um povo (e por isso mantido os investimentos em C&T), Cuba passou a sofrer com o isolamento promovido pelo embargo, que inevitavelmente afetava o seu parque tecnológico. Em particular, para a ciência experimental, a manutenção de infraestrutura laboratorial representa um requisito fundamental para o avanço na produção do conhecimento. E os cientistas cubanos precisaram manter sua ciência ativa mesmo que faltassem reagentes, equipamentos importados, parcerias internacionais… (para alguns pesquisadores isto seria o suficiente para abandonar definitivamente a ciência).

No entanto, a ciência em Cuba persistiu, e das Escolas de Engenharia, Medicina, Química e tantas outras surgiram ações que mantiveram aberta a trilha para caminhos de excelência acadêmica. Entender este fenômeno curioso requer uma imersão na realidade daquele país e o contato com o seu povo.

E quis o destino que o primeiro professor visitante da Univasf fosse um químico cubano, o prof. Jacques Rieumont. Quando de sua chegada em 2008, tudo o que tínhamos era um destilador de água, uma balança e algumas vidrarias. Eu estava apreensivo ao recebê-lo, pois para um pesquisador como ele, que passou por grandes universidades no mundo, esta poderia ser uma grande decepção. Para minha surpresa, não foi!

Os cubanos aprenderam, da forma mais dura, a praticar a economia circular: se eu não posso trocar o meu carro, preciso necessariamente reinventá-lo.

Ao invés de criticar e reclamar da falta de equipamentos e infraestrutura, ele parabenizou pelo que tínhamos e pelo que ainda poderíamos avançar. Para mim, aquela primeira reação foi chocante, pois estamos acostumados a reclamar pelo que não temos. Ele me ensinou a explorar ao máximo aquilo que temos. E o prof. Jacques começou a fazer o impossível dentro do laboratório. Desde as suas habilidades de vidreiro a exímio químico orgânico, muitas eram as vezes em que eu ficava sentado (de boca aberta mesmo) vendo como ele conseguia fazer ciência com o que tínhamos.

E daquele laboratório vazio (em que as bancadas ressaltavam seu brilho, ávidas por equipamentos) muita coisa saiu. Começamos extraindo clorofila de espinafre e um ano mais tarde já fazíamos liberação controlada de fármacos.

Esta parceria com o prof. Jacques afetou fortemente a minha visão de ciência e me fez entender um pouco melhor esta dinâmica dos cubanos, que poderia ser resumida como: “do menos podemos fazer muito mais”.

A máxima capitalista transformou o planeta em um grande mercado consumidor, que compra, usa e joga fora para comprar de novo. Os cubanos aprenderam, da forma mais dura, a praticar a economia circular: se eu não posso trocar o meu carro, preciso necessariamente reinventá-lo. E esta criatividade extrema de produzir criostatos em caixas de isopor à base de gelo seco e medidores de densidade em pipetas tornam a ciência ainda mais espetacular.

E da mesma forma que um programa de erradicação do analfabetismo foi exportado por Cuba (Yo Sí Puedo), veio à Univasf um tutor cubano de altíssimo nível dizer: “Você também podem fazer nanotecnologia aqui no Sertão”. Esta resiliência cubana ainda habita em meu coração e foi, sem sombra de dúvida, o legado deixado pelo querido prof. Jacques pelas bandas de Juazeiro.

De toda a forma, é inevitável a comparação entre a história da ciência em Cuba com a história recente da ciência no Brasil.

Nosso país experimentou momentos de extrema esperança com a consolidação das agências de fomento, a interiorização das universidades federais e agora vive o seu “período especial” com tudo o que aconteceu nos últimos anos – culminando com a PEC do teto. Este “auto” embargo é muito mais crítico do que foi o que os EUA fizeram com Cuba, pois ele surge de dentro para dentro. É um suplício que o Brasil impôs à sua própria ciência. E para piorar, a opção da fuga dos cientistas brasileiros para o exterior parece ser muito mais atraente. O que dirá a seus filhos o cientista que apagar as luzes por último: que a ciência brasileira foi apenas um sonho de verão?

Seguiremos o exemplo capitalista e embarcaremos no primeiro vôo que segue para Miami, ou usaremos a boa e velha inspiração cubana?

Eu respondo à la Renato Russo: “Mas é claro que o sol vai voltar amanhã!”.

Visto o jaleco e vou ali fazer mais um pouco de ciência. Da mesma forma que meu velho amigo Jacques, sem alardes, sem self. Por amor! Há de dar certo, conseguiremos!

 

* Helinando P. de Oliveira é físico e professor da Univasf. Desenvolve nanotecnologia no sertão desde 2004, quando escolheu ser sertanejo e focar suas pesquisas no Sertão.