Crítica em Movimentos

Quem viver em Pernambuco não há de estar enganado…

Uma das contradições que marcam Pernambuco é a dominação das oligarquias.

O povo pernambucano costuma se orgulhar dos seus grandes feitos. Não poucas vezes, faz referência ao “encontro do Capibaribe com o Beberibe para formar o Oceano Atlântico!”. No entanto, contradições intensas marcam Pernambuco desde os tempos mais remotos. Uma delas é o seu histórico de dominação oligárquica.

Seja em 1534, quando Duarte Coelho Pereira passou a ser donatário da capitania de Pernambuco, “a que mais deu lucro” segundo a música de Reginaldo Rossi; seja no século XIX, quando eclodiu a Revolução Praieira contra, entre outros motivos, a concentração de terras nas mãos de poucos. Uma poesia popular, à época, expressava bem o sentimento de revolta diante do poderio da família Cavalcante: “Quem viver em Pernambuco / não há de estar enganado / Que, ou há de ser Cavalcanti / ou há de ser cavalgado.”

Infelizmente, do século XIX aos dias atuais nossa história segue marcada pela perpetuação das oligarquias e de seus meios de dominação. Se hoje não temos a quadrinha popular dos “Cavalcantis ou cavalgados”, temos a composição ministerial como retrato fiel do tamanho da influência de poucas famílias no destino de Pernambuco. Dos quatro ministros pernambucanos indicados ao ilegítimo governo do vice-presidente Temer, metade são legítimos filhos destas oligarquias.

Ministérios são distribuídos como sesmarias. Se a organização é outra, a submissão às elites locais e estrangeiras é a mesma. O primeiro donatário é Mendonça filho, que assumiu o Ministério da Educação. Eleito aos 20 anos pela primeira vez como deputado estadual, é filiado ao DEM (ex-PFL) e filho de José Mendonça Bezerra, quem iniciou sua vida política, após o golpe de 1964, filiando-se à ARENA, partido de sustentação da ditadura. A família Mendonça tem, como base política principal, o município de Belo Jardim, no agreste do estado. Em resumo: a educação se acha sob os cuidados de um herdeiro da ditadura.

O segundo ministro é Fernando Bezerra Coelho Filho, mais conhecido como Fernando Filho. Herdeiro político da família Bezerra, oligarquia sediada no município de Petrolina e que mantém influência em parte importante do sertão pernambucano há décadas. Fernandinho, como também é conhecido, está filiado ao PSB, junto a pai e irmãos, e assumiu o Ministério das Minas e Energia no governo golpista de Temer.

Não há, em ambos os casos, a menor afinidade técnica entre os ministros e seus respectivos cargos. Curiosamente, ambos são formados em administração de empresas. O Estado é, para eles, um negócio familiar mantido há muito tempo. Assumem as pastas como premiação por seu papel na aprovação do impeachment e cobram caro: o desmonte da educação pública e das políticas de desenvolvimento soberano.

Com 168 anos, a Revolução Praieira retorna à memória como a primeira grande manifestação de nosso povo por democracia e soberania. Desde lá, os problemas se aprofundaram e os sujeitos envolvidos também, mas não deixa de impressionar a persistência do poder oligárquico. Impressionante também é a resistência do povo, novamente às ruas pela democracia e contra os velhos donos do poder hereditário. Democracia ou golpe, em Pernambuco, segue sendo a escolha de um povo, em cavalgar ou ser cavalgado.

Editorial do Brasil de Fato