Espaço do Leitor

Ficção e ideologia na obra de Lygia Fagundes Telles

Fazer da Literatura um espaço de reflexão sobre a realidade e até mesmo sobre as próprias experiências humanas não constitui exatamente uma novidade. Muitos escritores o fizeram e o fazem, tornando-se notórios por isso. Entretanto, o modo como o fizeram ou o fizem, provavelmente, é o que é o que os engrandece.

Autora de uma instigante produção literária, Lygia Fagundes Teles soube aliar com maestria o discurso literário e o ideológico, confirmando a atualidade de sua obra, principalmente, ao abordar temas inerentes ao universo feminino. Por esses e outros aspectos, dificilmente fala-se de uma escritora como ela sem incorrer no risco da redundância ao aponta-la como uma das mais expressivas autoras da Literatura Brasileira na contemporaneidade. Tal risco se deve tanto à riqueza de sua produção quanto a sua presteza narrativa em gêneros, como: contos, romances e crônicas. Dona de um estilo singular, Lygia sempre soube estabelecer uma consistente relação entre linguagem literária e ideologia, tornando inegável o caráter engajado de sua obra, principalmente, no que diz respeito a reflexões acerca do feminino, reiteradas por sucessivas construções de diferentes matizes do segundo sexo.

Autora de contos, romances e crônicas, teve algumas de suas produções adaptadas para a televisão e o cinema, a exemplo do conto O moço do saxofone, retirado da obra Antes do baile verde assim como os romances: Ciranda de Pedras e As meninas, tendo sido este último adaptado para o cinema por Emiliano Ribeiro. Muitas vezes premiada, Lygia já foi agraciada com o Prêmio do Instituto Nacional do Livro (1958), Prêmio Guimarães Rosa (1972), Prêmio Coelho Neto, da Academia Brasileira de Letras (1973), Prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro (1980), Prêmio Pedro Nava, de Melhor Livro do Ano (1989), Melhor livro de contos, Biblioteca Nacional, Prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro, Prêmio APLUB de Literatura, Prêmio Jabuti (Ficção\2001), Prêmio Camões (2005). Em fevereiro deste ano, tornou-se a primeira autora brasileira a ser indicada para o Prêmio Nobel de Literatura.

Seja no conto ou na crônica, fica evidente a natureza engajada de seu trabalho comprometido com a problemática social das desigualdades que separa os indivíduos. Ideologia e linguagem fundem-se pelo viés do humor, apesar da insatisfação que pode experimentar frente seu tempo. Não raramente, percebemos sua filiação à causa feminista, seja através de claras referências à obra O segundo sexo, de Simone de Beauvoir (1949), ou em trechos de suas crônicas, nos quais, muitas vezes, reafirma ou discorre sobre aspectos que confirmam uma postura política e social coerente com sua própria condição de mulher, como em um trecho do livro Durante aquele estranho chá, no qual assevera:

Sou escritora e sou mulher – ofício e condição humana duplamente difíceis de contornar, principalmente quando me lembro como o país (a mentalidade) interferiu no meu processo de crescimento como profissional. Eu era reprimida, mas disfarçava bem minha timidez em meio à imensa carga de convenções cristalizadas na época.

Considerar questões como essas no universo literário, implica em repensar a sociedade em sua totalidade – seu contexto histórico, seus costumes, suas crenças e seus mitos –, recorrendo, muitas vezes, às próprias vivências para ilustrar e representar a realidade no universo ficcional. A fim de estreitar o elo com a essa realidade em que se funda, Lygia lança mão de suas experiências autobiográficas. Nesse sentido, tomar a literatura como espaço de reflexão implica em perceber o mundo sob uma nova perspectiva na qual a alteridade se corporifica e ganha novos contornos enquanto nos convida a visitar e\ou revisitar conceitos mais amplos. Como observa Beauvoir, em O segundo sexo (1949, p. 11), “(…) a alteridade é uma categoria fundamental do pensamento humano. Nenhuma coletividade se define como Uma sem colocar imediatamente a outra diante de si”. A abordagem do universo feminino em tempos como os nossos reitera a atualidade da produção literária de Lygia Fagundes Telles tão afeita à participação ativa de um leitor atento às adversidades de seu próprio tempo.

Por Bethânia Mota Calixto