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A tática de Humberto não pode ser a tática do PT

“Ou seja, segundo Humberto, para enfrentar uma direita radical devemos ser moderados. Para enfrentar quem pegou galões de gasolina e incendiou o país, devemos dialogar para construir convergências com quem ajudou a acender o fósforo. Impossível concordar com tal raciocínio”.*Por Patrick Campos

Humberto Costa colocou a discussão sobre os rumos do Partido dos Trabalhadores em Pernambuco nas eleições de 2018 em novo patamar. Como divulgado em seu próprio site por meio de matéria intitulada “Da tribuna do Senado, Humberto defende aliança entre PT e PSB em Pernambuco” (disponível em http://www.senadorhumberto.com.br/da-tribuna-senado-humberto-defende-alianca-entre-pt-e-psb-em-pernambuco/), o companheiro Humberto explicita pela primeira vez a tática que defende para o partido neste momento.

Digo que explicita pela primeira vez, pois, apesar da posição já ser conhecida e especulada por algum tempo, é com o ato realizado na Rua da Aurora e com a manifestação na tribuna do Senado que ela passou a ser “oficial”. E justamente por isso me sinto completamente à vontade para fazer a discussão pública sobre o assunto.

Afinal, por inúmeras vezes, junto com outros companheiros e outras companheiras, fui acusado de fazer em público o debate que deveria ser interno. Sempre discordei dessa ideia que mais serve para silenciar quem possui opiniões divergentes da maioria do que para preservar o partido, pois o debate do Partido dos Trabalhadores é público e assim deve ser feito. O fato de Humberto finalmente expor sua opinião é o grande (e neste momento o único) acerto político que tiro de sua manifestação.

Isso acontece não apenas por considerar equivocada a tática eleitoral defendida por Humberto para eleições de 2018 em Pernambuco. Mas principalmente por entender que a estratégia na qual a tática de Humberto está inserida é antagônica a estratégia que o PT precisa adotar.

O que Humberto defende é, em outras palavras, dobrar a aposta na conciliação com os setores que construíram o golpe e prenderam Lula. Ou seja, “que o PT no Estado deve amadurecer o diálogo interno em favor da construção de um plano de governo para oferecer a [Paulo] Câmara” e não que o PT no Estado construa um plano alternativo ao dos golpistas (inclusive Paulo Câmara) para derrotar suas medidas e construir novas bases políticas e sociais.

Contraditoriamente, logo em seguida, Humberto afirma que o melhor caminho para o PT em Pernambuco “é integrar um bloco sólido em defesa de um projeto para o Estado e para o Brasil no qual o PT terá um papel protagonista”. Mas que protagonismo é esse que Humberto fala? O protagonismo de construir um “plano de governo para oferecer a Câmara”? Ou seja, construir um plano que seja palatável ao PSB, PP e MDB?

Não pode ser esse caminho apresentado por Humberto o seguido pelo PT em Pernambuco. Como afirmou o editorial do Jornal Página 13 na edição de Maio/2018 (Disponível em https://www.pagina13.org.br/publicada-a-edicao-de-maio-do-jornal-pagina-13/) “Defender o PT é mudar a estratégia”. E mudar a estratégia passa por abandonar as ilusões/crenças que setores que construíram e apoiaram o golpe farão concessões em troca do apoio de Lula nas eleições de 2018.

Pois é justamente disso que se trata. O PSB em Pernambuco não mudou de posição. Continua construindo seu palanque com Jarbas Vasconcelos, Raul Henry, Eduardo da Fonte e etc. E continuaria construindo com Fernando Bezerra Coelho, Mendonça Filho e quem mais a direita apresentasse se fosse oportuno e conveniente.

Ocorre que estes setores da direita pernambucana, por oportunismo e sagacidade, já perceberam que o Governo Paulo Câmara caminha para a bancarrota. É um Governo ruim, reprovado pela maioria da população e que por isso apresenta limitações na implantação do programa golpista de retirada de direitos. Por estes motivos, além dos desejos pessoais, de famílias e de oligarquias, abandonaram o PSB. Não por discordar de sua política, mas por verem um governo frágil e incapaz de implanta-la.

Mas ainda assim, imaginemos um hipotético segundo turno entre uma candidatura do PT e o Governador Paulo Câmara. Com quem Michel Temer, Fernando Bezerra Coelho, Mendonça Filho, Daniel Coelho e companhia estarão? Ora, com certeza não será no palanque de Lula.

O que faz o PSB então diante daquele cenário? Vira-se para o PT. Não por concordar com absolutamente nada do que o PT apresenta para Pernambuco, mas para tentar enfrentar eleitoralmente e sobrevier aquele outro setor. Caso consigam o apoio petista, ao contrário do que diz Humberto, não será para aplicar um programa de governo construído por nós, mas sim para aprofundar suas próprias políticas, aquelas que condenamos deste o primeiro dia do Governo Paulo Câmara, como afirma Resolução da Executiva Estadual aprovada em Dezembro de 2017 (Disponível em: http://ptpe.net.br/resolucao-do-diretorio-regional-do-ptpe/):

Além de tudo isso, a desastrosa gestão do PSB em Pernambuco está impondo outros graves retrocessos ao povo pernambucano, do que são exemplos o caos atual na segurança pública, a privatização e a precariedade da saúde, a repressão às reivindicações de professores e a falta de políticas eficazes nas questões hídricas, deixando o nosso povo vulnerável seja quando ocorre estiagem, seja quando chove.

Portanto, o argumento de que o PT deve “integrar um bloco sólido em defesa de um projeto para o Estado e para o Brasil no qual o PT terá um papel protagonista para devolver a Pernambuco o fantástico desenvolvimento econômico e social que experimentou anos atrás”, não se sustenta. Primeiro porque o PT não será protagonista; segundo porque o “bloco sólido” de Humberto terá na sua composição MDB, PP e outros setores da direita; terceiro porque não é interesse desses setores que o PT tenha qualquer espaço, muito menos para fazer o povo voltar a experimentar o “fantástico desenvolvimento econômico e social” que vivemos.

Mas a defesa de Humberto, na lógica construída e apresentada por ele, tem sentido quando enxergamos o pano de fundo, ou seja, a estratégia. Como já dito, é mais uma vez a aposta na conciliação com quem deseja nos derrotar. Humberto diz que “por meio do diálogo, estamos construindo convergências que nos aproximem, ao invés de investir no radicalismo dessa direita sectária que incendiou o país”.

Ou seja, segundo Humberto, para enfrentar uma direita radical devemos ser moderados. Para enfrentar quem pegou galões de gasolina e incendiou o país, devemos dialogar para construir convergências com quem ajudou a acender o fósforo. Impossível concordar com tal raciocínio. Impossível, pois se trata de uma estratégia que já está absolutamente esgotada, tendo em vista ser a mesma adotada ao longo de nossos governos e que culminou com um golpe e com a prisão de Lula. E além de esgotada, que já demonstrou servir muito mais aos nossos adversários do que para a maioria dos trabalhadores.

Nesse sentido, me parece fundamental a reflexão da tendência petista Articulação de Esquerda, exposta também no editorial de Maio do Jornal Página 13 ao afirmar que:

…há setores da esquerda que defendem rebaixar o programa e moderar a política; e há os que defendem a necessidade de aprofundar o programa e radicalizar a política. O bom senso pareceria indicar que é hora de rebaixar e moderar. Mas fazer isto seria errado: quando o lado de lá não tem limite, o único jeito de deter o incêndio reacionário é criando uma barreira de fogo.

O que a proposta tática de Humberto propõe, apesar da tônica combativa, é um rebaixamento de nosso programa e uma moderação da política. Apesar de o objetivo ser enfrentar os golpistas e as medidas de Temer, me parece que tal atitude deixa o PT ainda mais fragilizado para fazer exatamente este enfrentamento. O que precisamos é de um programa mais ousado e uma política combativa, sem medo inclusive de uma política radical.

Como dito, “quando o lado de lá não tem limite, o único jeito de deter o incêndio reacionário é criando uma barreira de fogo”. Em Pernambuco, considerando que nos limitamos neste momento ao debate eleitoral, esta barreira precisa ser uma candidatura e um programa que seja radicalmente alternativo a todos os setores da centro-direita, inclusive o PSB. A pré-candidatura de Marília Arraes aponta neste sentido.

Sobre o argumento do “isolamento”, este se trata de um duplo engodo. Por um lado, porque em 2014 construímos em Pernambuco uma aliança com setores da centro-direita e o resultado foi um desastre monumental, que em nada se diferenciará do que teremos agora caso se repita à tática. Segundo por que há amplos setores populares que sinalizam concordância com a candidatura própria e são estes setores que devemos prioritariamente considerar.

E há ainda um terceiro elemento: o PT historicamente defendeu posições que nem sempre foram seguidas por outros setores da esquerda (votação da Constituição de 1988; Plano Real e etc.). No entanto, não consideramos erradas as nossas posições e a história provou terem sido as posições mais acertadas.

Sobre o argumento do “não fazer política olhando apenas para o retrovisor”, acredito ser uma das reflexões mais ricas. De fato, não podemos apenas olhar para trás e ignorar o que está a nossa frente, aonde queremos chegar e quais os caminhos que são possíveis. No entanto, assim como não podemos olhar “apenas para o retrovisor”, não podemos também olhar apenas para a estrada e ignorar o que passou, mas principalmente o que pode estar vindo logo atrás.

Nesse sentido, o que alguns companheiros estão propondo é arrancarmos nossos retrovisores. Ou seja, o projeto nacional que está colocado “de agora para frente”, por ser mais importante do que o passado, deve ser a medida de valor a ser considerada para balizar nossa tática. Quais os erros desse raciocínio? Inúmeros. Mas destaco um em particular: ele nos deixa completamente cegos. A ponto de levar quem defende esta tática a acreditar que conciliação de classes ainda é uma alternativa.

Por fim, destaco outro elemento que considero decisivo. O palanque de Lula em Pernambuco não pode ser o palanque de golpistas. E neste sentido apresento imensa divergência à opinião do companheiro Humberto Costa. Ele acredita que devemos moderar, eu acredito que devemos radicalizar. Podemos chegar a um denominador comum. Ele acredita que devemos apresentar um plano para o PSB, eu acredito que devemos elaborar um plano alternativo ao do PSB/MDB/PP e MDB/DEM/PSDB. Podemos mediar, considerando sempre os cenários de segundo turno.

Mas ele acredita que devemos compor com o PSB de Pernambuco logo de saída, em nome do fortalecimento do bloco nacional. Com isso não há denominador comum ou mediação. E repito o argumento: O palanque de Lula em Pernambuco não pode ser o palanque de golpistas. A tarefa número um de cada membro do partido é defender a liberdade do presidente e o direito dele ser candidato. E em último caso, se a direita impedir sua candidatura, que votemos Lula 13 em todas as urnas do país, assumindo as consequências desta posição.

Não podemos construir este movimento em Pernambuco com um PSB que a cada dia apresenta um novo candidato CONTRA LULA. Não é apenas um equívoco, é um erro inaceitável. E este erro não posso aceitar calado que seja cometido.

*Patrick Campos é Advogado, mestrando em Educação pela Universidade de Pernambuco e Vice-presidente do PT de Petrolina-PE.