Ciência & Sertão

O dia em que o Brasil ficou nu

“O Brasil que volta ao mapa da fome e vê novamente suas crianças dormirem com essa dor horrível em seus estômagos é o mesmo Brasil que vê os ricos receberem a sua bolsa cerveja no prostíbulo. Que país é este, hein?”. Por Helinando P. de Oliveira

imagem da internet

07 de abril de 2018. Não foi final de copa do mundo, desfile de carnaval, final de reality show. Nenhuma cirurgia no dedo mindinho transmitida ao vivo… Apenas mais um sábado no país da festa e do pão. Era, no entanto, o aniversário de dona Marisa. Ela completaria 68 anos. E milhares de pessoas choraram junto com Lula na sede do sindicato dos metalúrgicos em São Bernardo. Ele foi abraçado e carregado nos braços do povo em um afago que precisa ser eternizado em sua alma. E dali partiu voluntariamente em direção à Curitiba. As imagens remetiam-nos à mesma sensação de dor em ver o avião com o caixão de Ayrton Senna chegando ao Brasil. O povo estava arrasado e em vigília por seu líder. Era um dia triste até a chegada do helicóptero com Lula à Curitiba. A partir daí a comoção deu lugar ao estarrecimento. Naquele momento explodiu (literalmente) o ódio. Separados em alas, os opositores de Lula pareciam estar em Copacabana celebrando o réveillon, ao torrar seu rico dinheiro em pirotecnia. Do outro lado, os apoiadores receberam bombas de efeito moral e o avanço da polícia com escudos e rifles. As mães seguiam na linha de frente com as mãos erguidas em sinal de paz. O momento de tristeza dera espaço ao ódio, definitivamente. Enquanto a esquerda voltava para casa, de cabeça baixa, os homens recatados celebravam a prisão no prostíbulo, recebendo cerveja grátis.

O Brasil que volta ao mapa da fome e vê novamente suas crianças dormirem com essa dor horrível em seus estômagos é o mesmo Brasil que vê os ricos receberem a sua bolsa cerveja no prostíbulo. Que país é este, hein?

Este é o Brasil do escárnio, da classe média que quer ser burguesia e de uma burguesia que quer ver a desgraça de todo o resto. Por ser tão rico, este país não se incomoda em perder suas riquezas e jogar suas crianças no berço da criminalidade. Não perceberam a venda do pré-sal e nem tão pouco de nossos aquíferos, não viram a escalada da violência e da corrupção. É esta a sociedade que transforma em mito quem tem ódio a ofertar.

Esta história, no entanto, é uma reedição do que já aconteceu a grandes líderes. Jesus curou e realizou milagres para ser enviado pelo povo à morte, pregado na cruz. Mandela e Ghandi seguiram à prisão. Cada um à sua forma se levantou contra o poder dominante. E o sistema os castigou.

Lula é cidadão do mundo, o maior líder político vivo da história deste planeta. E isso não pode ser apagado por uma prisão. Ele fez o povo sonhar, acreditar que poderia sair da miséria, viajar de avião, ter casa, comida, energia elétrica, ser doutor! Há 30 anos atrás, qual o pobre que imaginaria ter um filho com doutorado? Sair do Brasil, estudar em Universidades no exterior? Era impossível. Lula acendeu esta chama em nós. Lula vive, respira e pulsa nos sonhos dos pobres que buscam dias melhores. E a força do povo (que bom que internalizássemos isso) é muito maior do que o próprio povo imagina. Só assim o povo teria orgulho de ser a cada dia mais povo.

* Helinando P. de Oliveira é físico e professor da Univasf. Desenvolve nanotecnologia no sertão desde 2004, quando escolheu ser sertanejo e focar suas pesquisas no Sertão.