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“Queremos liberdade. Queremos o poder para determinar o destino de nossa Comunidade Negra”

“A autonomia que estamos construindo é herança das sementes de tâmara plantadas no passado, e que nos possibilitam o mínimo de sombra, para continuar cultivando o bosque aos nossos descendentes”. *Por Ana Luiza

Foto: Divulgação

Liberdade para os detentores de melanina, os filhos da diáspora do grande continente mãe, possui significâncias maiores do que muitos podem imaginar. É a liberdade de não sermos determinados por nossas características fenotípicas, de encarar a nossa beleza e singularidade tal como ela é, produtora de cores, vida e humanidade. Liberdade para afirmação de nossos territórios, cânticos e saberes. O direito pleno de executarmos nossos tambores de pele e digitais, mover-se no mundo sem o risco da força repressiva.

Livres para o ciclo da vida em sua completude. O direito de ser criança, Erê, com sapequices, risadas e amor. Sem interrupções brutais forjadas pelo Estado que diz ser democrático e de direito. A possibilidade de ser jovem, descobrir e por do avesso o mundo que lhe comporta… Liberdade para ter voz e oportunidade, e não ficarmos refém da possibilidade diminuta de dignidade. Livres, enfim, para envelhecer. Amadurecer o corpo, olhar para trás e entender o que foi bom para quando chegar a hora, preencher com brilhantismo o nosso panteão de ancestrais.

A emancipação que queremos é plural e ampla demais para um único texto. Está no desejo mais profundo de nossas mentes e almas, na terra e no asfalto, é a linha que nos costura. A autonomia que estamos construindo é herança das sementes de tâmara plantadas no passado, e que nos possibilitam o mínimo de sombra, para continuar cultivando o bosque aos nossos descendentes. E continuaremos aqui, na fronteira plantando e erguendo a liberdade desejada que atravessa o tempo, desde os primeiros desembarques nos litorais americanos. Amandla!

 

Por Ana Luiza Souza Jesus

Integrante da Frente Negra do Velho Chico