Colunas

O Deus de Bolsonaro

“Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”. Qual o sentido do bordão político do candidato Jair Bolsonaro? O que está em jogo na simpatia que essa expressão produz entre diversos religiosos? Quais implicações de tal slogan político do ponto de vista do cristianismo?

Imagem da internet

 

Delcides Marques

 

O que está em jogo na expressão “Deus acima de todos”? O presidenciável Jair Bolsonaro angaria certa simpatia nos meios cristãos (católicos e protestantes) com suas recorrentes menções ao Brasil e a “Deus”. O seu bordão principal, “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”, combina justamente o nacionalismo e a religião de tal forma que seus seguidores chegam a usar camisa com as cores da bandeira nacional (mormente camisetas da Confederação Brasileira de Futebol, tratada como emblema da identidade pátria) e apelam para uma fé religiosa salvacionista fundada na ideia de que Bolsonaro é um escolhido de Deus para governar a nação: “ele é o Messias, o Salvador da Pátria”.

Sobre o espectro religioso da chamada de sua promoção eleitoreira, “Deus acima de todos”, várias perguntas surgem imediatamente: “de que Deus se está falando?”; “qual a relação entre esse Deus e o Deus de Jesus?”; “que conexão esse Deus tem com a política nacional?”; e “o que significa a ideia de que esse Deus está ‘acima de todos’?”. São perguntas sinceras que precisariam ser feitas também pelos eleitores cristãos de Bolsonaro.

Penso em duas possibilidades para a utilização exacerbada do nome de Deus nessa campanha política. Ou o termo “Deus” é usado grosseiramente, de forma leviana e fútil, reforçando um enorme descuido ou desrespeito com o seu sentido; ou o termo “Deus” possui um uso tão perigoso quanto o anterior e aponta para a proposição absurda de um governo teocrático brasileiro. Enfim, ou displicência ou fascismo.

Sem entrar nos méritos teológico-judaicos do nome de Deus, ou de seus diversos nomes hebraicos, trato de concentrar atenção no ponto específico da vulgarização do termo “Deus” como objeto de propaganda eleitoral. E não se pode negar a centralidade do uso do termo “Deus” no sucesso da campanha, associado que se acha a citações bíblicas, assim como correlacionado às ideias de conservação da família e dos costumes das pessoas de bem. Sobre o uso grosseiro do termo “Deus”, o mandamento diz que não se deve tomar o nome de Deus em vão (e sabe-se “Deus” não é o nome de Deus). Portanto, o termo “Deus”, ao que o uso indica, pode ser usado sem quaisquer cuidados. A palavra “Deus”, desse modo, pode ser proferida sem preocupação, uma vez que só é preciso que “santificado seja o seu nome”, ensinou Jesus na oração ao Pai Nosso. Sendo assim, algumas pessoas se acham no direito de falar “Deus” indiscriminadamente, retoricamente, vulgarmente, profanamente. Não há necessidade de reverência, pois “Deus” é só uma palavra cotidiana de uso irrestrito.

“Deus acima de todos” pode ser outro modo de dizer “Eu acima de todos”. Qual a necessidade de falar tanto em “Deus”? Se esconder sob o termo “Deus”, ou seja, “Deus” fica subsumido no eu, como uma máscara para o moralismo pessoal. Desse modo, falar de “Deus” pode ser um modo de falar de si mesmo. Assim, “Deus” funciona como uma retórica vazia e como sinônimo de “minha moral”, “meus costumes”. Em outro sentido, quando falta consistência para defender argumentos ou se apresentar a debates, fala-se em “Deus” e tudo se resolve. Essa é a mais eficiente palavra mágica, o amuleto mais eficaz, particularmente quando “Deus” aparece associado a frases prontas e expressões vagas e simplistas, mas que impressionam por evocarem a crença. É preciso aprender que a fé do governante não entra em pauta quando se trata da questão pública e “Deus” não deve funcionar como marketing político. É preciso aprender que “Deus” não deve ser usado para justificar promessas e posturas que são nossas.

No que tange ao uso fascista do termo “Deus”, o perigo é ainda maior. “Deus acima de todos” indica a soberania divina, algo fundamental para a teologia cristã e que calcou discussões clássicas sobre predestinação e livre-arbítrio. É bastante evidente que Bolsonaro não está aludindo às querelas teológicas acerca da transcendência divina. Esse “Deus acima de todos” é outro modo de dizer que o “Deus” de seu governo é uma divindade que atua em termos de hierarquia. O “Deus acima de todos” é uma divindade militarizada. Esse “Deus” não pode ser o Deus de Jesus. O Deus dos Evangelhos é um Deus com todos. A encarnação de Cristo aponta justamente para isso: Emanuel, Deus conosco. Nada de Deus com alguns, com os bons. Deus conosco manda chuva sobre justos e injustos e não faz distinção, preconceito, acepção de pessoas. Assim, o “Deus acima de todos” desacompanhado de um “Deus que está com todos” é uma incompreensão do sentido do cristianismo e funda critérios de dominação, exclusão, opressão. Quando a transcendência se descola da imanência há o risco do autoritarismo teocrático. Há líderes religiosos, por exemplo, que se valem do estratagema do “Deus acima de todos” para colocar seus discursos num patamar inquestionável. O problema se agrava quando um líder político se vale dos mesmos subterfúgios com o intuito de comandar uma nação. Trata-se de um discurso que oscila entre a exaltação patriótica, de um lado, e a veneração religiosa, de outra parte.

Sabe-se historicamente que argumentos de soberania divina como fundamento para governo humano foram utilizados para embasar a teologia monarquista absolutista (vejam Robert Filmer, combatido pelo “liberal” John Locke). Imagina-se que “Deus” é o soberano do universo e delegou a um homem a sua soberania irrestrita sobre um povo. Curiosamente, o partido ao qual Bolsonaro acha-se filiado (no momento é o PSL – Partido Social Liberal) mantém duas vertentes políticas principais: teocracia e monarquia. O que isso pode se tornar, ainda não sabemos, mas é de se temer. E como disse Bolsonaro em várias ocasiões: “O Estado é laico, mas seu povo não. Somente católicos e evangélicos somam mais de 90% de brasileiros”. Ótimo, fica aí a deixa para que “Deus acima de todos” funde um Estado Cristão no qual se cumpra que “o Brasil é do Senhor Jesus”. Esse “Deus acima de todos” é lido como o “Deus de Bolsonaro” acima de todos os outros deuses. Como seria menos grave se esse “Deus” estivesse sendo entendido a partir da teologia do pluralismo religioso que indica os muitos caminhos e sinais divinos, e que extrapolam o ecumenismo cristão e implicam num diálogo inter-religioso! Mas não é o caso. Assim, como ficará, na prática, a liberdade religiosa propugnada como um dos itens de plano de governo do candidato? O paradigma do Estado Democrático de Direito defende e garante um governo com respeito a todos e não apenas para a maioria ou para alguns.

O projeto de “Deus acima de todos” faz de Bolsonaro um candidato querido de diversos religiosos. O seu séquito de apoiadores vê nele: (a) um político honesto (apesar de sua funcionária fantasma Walderice e de seu irmão Renato, bem como do recebimento de propina da JBS: “qual partido não recebe propina no Brasil?”, é como ele se defende da lavagem de dinheiro); (b) um defensor da família tradicional brasileira (seus três casamentos foram marcados pela renovação de esposas, literalmente a busca por uma mais nova: a atual é 25 anos mais jovem que ele); e (c) um homem eleito por Deus para presidir o país. O argumento que vou desenvolver, contudo, segue na direção unilateral do uso do termo “Deus” no slogan de sua campanha política.

Trago agora à baila as falas de um pastor, Josué Valandro Jr., da Igreja Batista Atitude, no Rio de Janeiro, onde congrega a atual esposa de Bolsonaro. O pastor faz explícita campanha para o candidato na igreja e nas redes sociais com expressões do tipo: “Os que temem a Deus, aqueles que acreditam na família não terão dúvida em quem votar”; “Bolsonaro é amigo da igreja evangélica”; “Jair Bolsonaro é o único que vai poder liderar esse país de uma forma isenta”; e “Eu acredito no Jair Bolsonaro”. Um líder religioso pode e deve fazer uso público de sua fé, mas quando isso se torna coação à consciência de qualquer pessoa, se torna também uma vergonhosa e vexatória desonestidade com a fé.

E são muitas as combinações perigosas e complicadas: templo e quartel; exército e igreja; militares e religiosos; Bíblia e Constituição; fé e urna. Tudo aponta para um governo religioso militar. Mas, qual é a religião de Bolsonaro? Cristão, diz ele. Na prática, ele fica entre um católico batista e um batista católico com passagem pela Assembleia de Deus, onde foi rebatizado. Tanto faz, nesse caso, pois todas essas vertentes do cristianismo não aceitam dupla adesão; e nem duplo batismo. Um batismo anula o outro. Vejamos isso mais de perto.

Em sua infância, ele foi batizado na Igreja Católica e se declara católico até hoje. Mas em 11 de maio de 2016, no Rio Jordão em Israel, ele foi rebatizado pelo pastor Everaldo Dias Pereira, então presidente do partido anterior de Bolsonaro (PSC – Partido Social Cristão), bem como ministro da Igreja Evangélica Assembleia de Deus Ministério Madureira do Rio de Janeiro e candidato à Presidência da República no pleito de 2014. Sabe-se que, o batismo tem um duplo papel: manifestação pública de aceitação da fé cristã e rito de filiação à comunhão de uma igreja cristã. Com isso, o batismo deve ser precedido por uma confissão de fé. E assim aconteceu: antes de ser mergulhado nas águas do Rio Jordão, Bolsonaro respondeu assertivamente a todas as perguntas do pastor Everaldo. E as perguntas eram: “Jair Bolsonaro, você acredita que Jesus é o filho de Deus?”; “Você crê que Ele morreu na cruz?”; “Que Ele ressuscitou?”; “Está vivo para todo o sempre?”; e “É o salvador da humanidade?”. Ele sempre dizia: “sim”, “acredito”. E o batismo termina com as palavras do pastor Everaldo: “Mediante a sua confissão pública, eu te batizo em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo”.

Todavia, causa espanto saber que depois desse batismo ele continuou se declarando católico e não membro da Assembleia de Deus que, aliás, ele nem cita como arte de sua vivência religiosa. Diz ele: “Acredito em Deus, essa é a minha religião. Sou um católico que, por 10 anos, frequentou a Igreja Batista”. O que estaria em jogo, portanto, nesse batismo evangélico de Bolsonaro? O que significa um batismo sem conversão? Por que iniciar numa igreja e manter sua filiação na antiga?

Para partilhar da comunhão católica depois de um rebatismo em outra religião, dizem os cânones da Igreja, ele teria que confessar publicamente o erro e pedir o retorno à fé. Evidentemente que Bolsonaro não fez isso. Então: qual o sentido de se dizer católico e ser rebatizado no meio evangélico? Claro que as experiências religiosas no Brasil são múltiplas e, se existem sincretismos inter-religiosos, Bolsonaro parece ser ecumênico. Mas de um ecumenismo estratégico e bastante superficial. Pois não basta se dizer cristão, oscilando entre catolicismo e protestantismo, é preciso saber o que está em jogo nessa autoclassificação. É o caso se extrair disso a substância do cristianismo: o amor.

Mas é muito explícito que Bolsonaro não conseguiu trazer para si o princípio do Evangelho. E, por isso mesmo, seu herói não é Jesus: é o torturador Carlos Brilhante Ustra. Para aceitar incólume tal exaltação é preciso possuir um espírito ariano na alma. No limite, esse é o sentido do bolsonarianismo. Não é possível que o “Deus acima de todos” de Bolsonaro seja o Deus de Jesus. Esse “Deus” é justiceiro, germina fascismo, incita ódio, mata e tortura, se vinga: “bandido bom é bandido morto”. Jesus morreu exatamente assim. O Deus de Jesus exalta os pacificadores. E associar “Deus acima de todos” ao Deus de Jesus é ferir o espírito do Evangelho. São inconciliáveis. Não há jeitinho brasileiro que dê jeito. E quando se tenta dissimular o Deus de Bolsonaro com o Deus de Jesus, isso produz prejuízo para o Evangelho. Bolsonaro é danoso ao Evangelho quando se diz cristão. E contrário a isso, quando o discurso não se coaduna com a prática, o cristianismo nomeia como hipocrisia. É inconcebível que um cristão elogie a ditadura militar e seus torturadores, e diga que deveriam ter matado mais do que mataram. E que nunca nos esqueçamos: o cristianismo foi fundado por um perseguido político e religioso: preso, silenciado, torturado, violado, criminalizado, excluído, assassinado. O Deus de Jesus está com o torturado, nunca com o torturador. Rubem Alves me ensinou que Deus costuma estar onde menos se espera e não exatamente onde mais se fala d’Ele.