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Processo Medusa

Algumas palavras e reflexões provocadas pelo espetáculo. * Por Sebastião Simão Filho

Foto: Tássio M. Tavares

Um bom espetáculo de teatro nos proporciona experiência. Experiência estética, social, mental, verbal, sonora. Assim é o que nos proporcionou ontem a Cia Biruta com o seu Processo Medusa que compôs a programação do Projeto Entre Margens, do SESC-Petrolina.

E isso foi possível pelas verdades que o espetáculo: é! Uma verdade artística e outra a verdade da denúncia a que se propôs abraçar: a opressão milenar e ainda escancarada que uma sociedade machista, patriarcal e falocrata exerceu e exerce contra a pessoa humana mulher.

A verdade artística está em o espetáculo ser forte, agressivo, autêntico, pessoal. Em ser todo vontade, cega e ingênua vontade de ser teatro e teatral. De erguer bandeiras. De dar bandeira. De ser amador e pretensioso. Uma verdade artística em ser, por enquanto, o que pode ser.

Foto: Tássio M. Tavares

Muitas são as cenas impactantes, com relação direta e de agressão direta e proposital para com público. E funcionam, pois, o público aceita ser conduzido e embarca nessa viagem de mergulho e autocobrança pelas críticas ali expostas. Há cenas disfarçadamente líricas, cômicas, divertidas, revoltantes, raivosas, de horror.

A cena sobre o consumismo alienante é um brinco no espetáculo. Cena singela, calma, tensa. Nela uma menina robotizada, hipnotizada, pede à mãe uma Barbie. A mãe a embala e tenta persuadi-la a desistir do presente e objeto ícone-fetichista de esterótipo feminino. E mesmo ante tão doce e eloquente discurso politizante da mãe, a menina de olhar opaco e mórbido de zumbi, apenas repete: “Eu quero uma Barbie”. Fiel retrato de uma sociedade de consumo que tudo transforma em festa, festa do consumo, desde o amor de mãe às paradas gays que alavancam o comercio de bens e serviços.

Foto: Tássio M. Tavares

Uma alegria dupla, tripla, quíntupla me proporcionou esse trabalho. O fato de ser um espetáculo de numeroso elenco composto quase que integralmente de jovens iniciantes no ofício, é uma alegria maior. Também outra é o de ser um elenco em formação na periferia. Se há deficiências? Claro que há. As vozes ainda estão reféns do valor das palavras do texto, e não da exploração dos sons potenciais que as palavras ensejam. E, para um espetáculo que se propõe físico (leia-se, orgânico), os gestos ainda são demasiadamente periféricos. Mas detalhes que serão dissolvidos pela maturação artística futura, que virá. Detalhes que se perdem em meio a tantas outras qualidades do espetáculo.

Tássio M. Tavares

A verdade social do espetáculo estar em ser direto, ir direto ao assunto, às vias de fato dos fatos da opressão e aniquilamento humano a que a pessoa mulher foi e é submetida. O espetáculo diz o que deve ser dito, o que tem de ser dito. São muitas e diversas opressões que o espetáculo denúncia. Mas priorizou falar e pôr como pano de fundo e de frente a mais funesta das opressões, a opressão de todas as opressões: o estupro.

Libertar (tenho um gosto pessoal pela palavra: livrar), livrar a mulher dessa realidade brutal será uma conquista humana. Toda agressão é agressão e como agressão deveria e deve ser tratada, ou seja: não esqueçamos nenhuma agressão e vamos dar relevo a todas. Mas certamente a agressão que é o estupro é uma agressão que devemos ressaltar, destacar, gritar.

Foto: Tássio M. Tavares

O estupro é uma invasão. A desconsideração pelo território material-existencial alheio, do outro, da outra: seu corpo. O corpo é o recipiente que acumula e guarda absolutamente tudo o que somos: memórias, sensações, identidade. Inconscientemente, digo, passivamente o corpo vivencia e guarda as experiências a que é submetido. A saúde e a doença é proporcional as experiências as quais e ao modo de como são vivenciadas. A pessoa mulher deve ser a única, estritamente a única a escolher quem deve visitar amorosamente seu corpo. O estupro põe em risco total a globalidade do indivíduo humano, pois aniquila, invalida essa autonomia.

O estuprador é um doente criminoso e a sociedade onde ainda perdure qualquer resquício dessa anomalia é uma sociedade doente. Estamos doentes então. E a cura urge, pois a humanidade tem ainda muitas tarefas lindas e elevadas a cumprir. Esse peso em suas-nossas costas nos atrapalha e atrapalhará o crescer.

São essas reflexões que suscita Processo Medusa. Um espetáculo artisticamente impactante e de provocação social necessária.  Um espetáculo que deveria assistir todo o Pernambuco, e o Brasil todo.

Foto: Tássio M. Tavares

Uma questão…

Considerando que o estupro é um crime abominável… Como classificar uma sociedade em que uma pessoa homem público fala abertamente ao microfone e diante de câmaras de ser um possível estuprador, não praticando o ato porque a outra pessoa mulher não merece? (Não merece ter seu precioso falo entre suas pernas?) E o que dizer mais se essa pessoa homem é um presidenciável bem cotado? Afinal, quem tão numerosamente é seu eleitor?

Era só uma questão…

Dedico essas palavras às mulheres com as quais aprendi e aprendo, a trancos e barrancos, a ser a pessoa homem em construção que sou.

Obrigado.

* Por Sebastião Simão Filho