Entrevistas

Entrevista ping-pong com Santanna, o Cantador

Santanna fala sobre os percalços do forró, esse estilo de música que é praticamente o retrato da cultura do Nordeste no Brasil.

DSC_0964O blog Ponto Crítico entrevistou um dos maiores nomes da música nordestina: Santanna, o Cantador, que esteve presente na gravação do 3° DVD de Flávio Leandro, na Concha Acústica, em Petrolina – PE.

Santanna, nascido em Juazeiro do Norte, no ano de 1960, é um cantor e compositor de forró cearense. Amigo particular de Luiz Gonzaga, participou de vários shows do rei do baião, fazendo a abertura e em seguida, fazendo vocal. Santanna é conhecido por várias de suas músicas, principalmente o hit “Ana Maria”. .

Na entrevista ele falou sobre os percalços do forró, esse estilo de música que é praticamente o retrato da cultura do Nordeste no Brasil.

 

PC– Você acha que é um desafio carregar essa bandeireira de Luiz Gonzaga, desse forró tradicional, autentico da música brasileira?

Santanna – Depende do ponto de vista. Mas, eu acho que a vida é sempre um desafio, só em você acordar de manhã e viver uma aventura diariamente, já é um desafio. Agora eu te digo que não é um desafio assustador, porque Gonzaga abriu todas as veredas para gente, hoje está muito mais fácil. No tempo de Gonzaga não tinha carro com ar condicionado, não tinha estrada, muitas vezes não tinha som para cantar, as vezes o empresário passava a perna, do que que eu posso reclamar?

Eu acho que está tudo mais fácil hoje, por conta dele. Luiz Gonzaga abriu veredas para que a gente pudesse caminhar mais tranquilamente, e mesmo assim, ainda não mensuramos o valor que ele tem. A gente não tem competência, ainda, para enxergar o valor que Luiz Gonzaga tem, nem a visão de futuro que ele tinha. Existe uma diferença entre o Nordeste antes e depois de Luiz Gonzaga, sabia?

PC – Poderia explicar esse antes e depois de Luiz Gonzaga?

Santanna – Eu vou te explicar, repara bem. Tu já imaginaste quantos empregos, quantas pessoas ele emprega hoje com aquele projeto do trio nordestino: zabumba, triangulo e sanfona? Quantas pessoas sobrevivem disso no mundo, e ele nunca cobrou um tostão de royalties. E isso é uma invenção dele. Tu sabes quantas pessoas cantam forró, baião, xaxado e marchinha junina, que são ritmos inventados por ele, e ele nunca cobrou nenhum tostão de royalties.

Ele mudou conceitos culturais, o que não é fácil. E, ele conseguiu fazer isso, principalmente, num país onde viver de cultura é tão complicado. O que eu posso dizer de um homem desse?

PC – Você acha que a cultura nordestina é menos apreciada no cenário musical brasileiro?

Santanna – A autoestima do nordestino é baixa, muito baixa. Mas, eu digo uma coisa: o Deus dos americanos, dos alemães, dos Japoneses, é o mesmo Deus nosso e ele confia na gente, nós é que somos fracos de confiança. A gente, as vezes vai para o Rio de Janeiro e muda o sotaque em pouco tempo, por isso, que eu tiro o chapéu para Geraldo Azevedo, que é filho desta terra e já está no Rio há uns 50 anos e o sotaque dele é mais puro ainda, isso me deixa realmente orgulhoso.

A gente precisa fazer esse trabalho de levar essa verdade do povo nordestino, porque nós já estamos acostumados a viver na adversidade.

PC –  Santanna, na sua opinião, porque há tanta falta de respeito do governo, seja federal ou estadual com a cultura nordestina e também porque as rádios tocam tão pouco essa riqueza que você mencionou?

Santana – Falando de instituição pública, o povo é quem elege, e, a voz do povo é a voz de Deus. Agora, eu te digo que nem sempre os nomeados por esse eleito são consoantes com cultura popular, porque cultura popular não é coisa para qualquer um não. É uma coisa que vem dos ancestrais, e muita gente está aí por um motivo político, por um apadrinhamento. Existe as exceções claro, nada é generalizado.

Quanto essa questão das rádios não tocarem, rádio é uma concessão pública, mas, que virou uma coisa tão comercial, que se você não pagar, você não toca. Mas, também tem as exceções. Eu mesmo, Santana o cantador, nunca paguei um tostão de jabá a ninguém, para tocar as minhas músicas. Eu tive muita sorte, agora, eu digo que a música nordestina é a melhor música no momento, além de ter sido a primeira música a protestar politicamente. Eu espero que as rádios, como formadoras de opinião, tenham um pouco mais de generosidade para abraçar nossa causa, porque a gente precisa e porque a música forma cidadãos.