Ciência & Sertão

Física: exatamente humana

‘Ela habita no pulsar acelerado de corações aflitos de quem busca as repostas para as perguntas mais universais.’. Por Helinando P. de Oliveira

O primeiro contato de nossos jovens com a física normalmente é deveras traumático. Os livros texto (sempre eles) começam a física pela definição de pontos materiais. E depois trajetórias, velocidades e pedrinhas voando de lá para cá – como se arremessar pedras fosse o grande barato de fazer física.

Este início, frio e distante, torna a física sisuda e arrogante. Introduzir tão somente os modelos condiciona o pensar dos estudantes a entender a física com algo fechado e rígido, como um cubo de equações a serem combinadas e aplicadas. A condição de protagonista é atribuída a seres iluminados, inatingíveis.

Mas a física é bem diferente de tudo isso. Ela habita no pulsar acelerado de corações aflitos de quem busca as repostas para as perguntas mais universais. E é possível fazer física dentro dos escritórios de patentes, tocando bongôs nos bares, na beira do mar ou embaixo de um umbuzeiro. A física é feita em inglês, alemão, francês, mandarim e português… Fazer física é não aceitar o modelo pronto, é admitir que os fenômenos ocorrem porque ocorrem e não para satisfazer algo assumido por verdade absoluta. As leis de Newton são importantes para a mecânica, porém não são elas que fazem uma maçã cair da árvore. Ela cairia da mesma forma, havendo ou não o modelo. Isso significa que nada é absoluto e muito menos encerrado. A busca pelo conhecimento admite recuos e avanços, tal qual Einstein fizera na mecânica de Newton quando estudou “coisas” rápidas.

Anos atrás, meu filho perguntou o que era física. No princípio, eu fiquei nervoso pela responsabilidade em responder pela primeira vez esta pergunta a meu querido estudante. Eu não poderia recorrer a nenhum livro texto e nem tão pouco falar de lançamento de pedrinhas. Então deixei sair de pronto a resposta que vem de cor (do coração). Pedindo que ele sentasse, respondi:

No início tudo era escuridão. A ciência não ousa explicar o que existia no meio daquilo. Prefere dizer que nada havia. Eu digo que uma pessoa estava lá. E nada havia até que este Ser (muito esperto) decidiu dar uma ordem. Ninguém sabe bem o que ele disse naquele momento, mas muitos dos físicos, até mesmo os ateus tentam encontrar qual foi esta ordem, que eles chamam de equação. Após a ordem poderosa seguiu-se a maior explosão já vista. E desta explosão surgiu a luz, que sob forma de pacotinhos de energia saiu correndo muito rápido por todos os lados, cortando o vazio e iluminando o breu. E todas as coisas começaram a ser formadas, desde as estrelas aos planetas. E tudo era muito quente, e passou a esfriar, permitindo com que houvesse vida. E a vida evoluiu até aqui, e esta evolução permitiu com que adquiríssemos inteligência suficiente para remontar a criação, construindo o conhecimento como uma grande conquista humana. E das perguntas mais básicas fizemos computadores, antibióticos, o ar condicionado…

Entender as coisas nos faz mais humanos, não pelas equações ou modelos, mas pela nossa capacidade de entender o todo, idealizado naquelas poucas palavras ditas pelo observador fundamental, que eu chamo de Deus.

E antes mesmo de Einstein e Maxwell, Deus foi também o primeiro dos físicos, ao funcionar como grande observador do espaço em expansão. Fazer física é ter a capacidade de observar qualquer fenômeno natural tentando perturbá-lo minimamente, tendo todavia a convicção de que sua presença afeta o que se está observando. Neste ponto pensei em falar do gato de Schroedinger, mas desisti. Seria um modelo que mais atrapalharia do que ajudaria.

E finalizei dizendo que física era isso: entender a estrelas e também as coisinhas que existem dentro da pasta de escovar dentes, fazer contas e usar muita matemática, mas especialmente buscar respostas para tornar nosso mundo melhor.

Sim, a física é exata. Exatamente humana.

 

* Helinando P. de Oliveira é físico e professor da Univasf. Desenvolve nanotecnologia no sertão desde 2004, quando escolheu ser sertanejo e focar suas pesquisas no Sertão.