Coluna K

O PT permitirá que Marília seja Candidata?

Já adentramos o mês de junho e o povo de Pernambuco segue sem saber se Marília Arraes, tecnicamente empatada nas pesquisas de opinião com o candidato à reeleição para o governo do estado, será candidata. O que se passa no interior do PT às vésperas da disputa de eleitoral?

*Tassia Rabelo

 

Na democracia representativa, os titulares do Executivo e membros do Legislativo são selecionados de acordo com a decisão dos eleitores, cujos votos são revertidos em cadeiras e instituem governantes. Entretanto, antes deste momento, e mesmo antes do início da campanha eleitoral, parte do jogo que definirá quem serão os eleitos é jogado longe dos holofotes, no interior dos partidos políticos. Neste período que precede as convenções, os partidos definem quais serão as opções disponibilizadas aos eleitores e em que condições cada candidato ou candidata disputará as eleições.

É no presente momento que está em curso a construção da tática eleitoral de todos os partidos. Neste artigo destacarei parte do debate que tem sido realizado no interior do partido que detém o maior número de cadeiras na Câmara dos Deputados e esteve à frente da Presidência da República por quatro vezes, o Partido dos Trabalhadores (PT).

Se a manutenção da candidatura de Lula à presidência já foi reafirmada em mais de uma ocasião pelo PT, que inclusive já realizou ato de lançamento de seu candidato, no plano estadual a posição do partido varia e, em alguns casos, como o de Pernambuco, segue bastante nebulosa. Aqui, o debate sobre a tática do partido no que tange à disputa do governo do estado, já extrapolou seus limites internos e vem ganhando espaço nas ruas. Já adentramos o mês de junho e muitos ainda se perguntam se o PT permitirá que Marília Arraes seja candidata à governadora.

Marília, originalmente filiada ao Partido Socialista Brasileiro (PSB), rompeu politicamente com parte de sua família, os Campos, e no ano de 2016, em meio a uma profunda e multifacetada crise do PT, se filiou a este partido pelo qual foi eleita vereadora de Recife. Desde então esteve no front contra o golpe de 2016 e denunciou seus artífices. Dessa maneira demonstrou uma coerência e firmeza ideológica que a fez ser acolhida pelos petistas.

Crítica ao extremamente mal avaliado governo de Paulo Câmara, despontou também como alternativa ao poderio do PSB que há mais de uma década comanda o estado de Pernambuco. À despeito deste cenário, e ainda que a cada pesquisa a petista amplie sua preferência junto ao eleitorado e já se encontre em empate técnico com o candidato à reeleição, a possibilidade de que o número 13 não seja uma opção para os eleitores pernambucanos na disputa pelo governo do estado se mantém.

Enquanto Marília cresce, cresce também a articulação de seus adversários para impedir sua candidatura. Neste cenário chama a atenção a repentina mudança no calendário dos encontros estaduais do PT realizada, sem reunião presencial, pela Comissão Executiva Nacional (CEN) do partido na última terça-feira (05). Segundo nota divulgada pelo partido a alteração teria como base as articulações com partidos de centro-esquerda e a construção da tática nacional que tem como centralidade a candidatura de Lula.

Se a referida decisão trouxe preocupação aos defensores da candidatura própria, a nota da CEN do último sábado (09) foi mais explícita em suas intenções. Nesta a direção do PT reafirma que a definição de candidaturas estaduais terá que ser submetida antecipadamente à CEN; cita textualmente o PSB como um partido a ser procurado para a construção de uma aliança nacional; determina a construção de palanques estaduais preferenciais com o PC do B e o PSB; e afirma que: “Nos demais estados (que não são governados pelo PT) o PT deve priorizar as alianças com os partidos considerando a composição da nossa chapa de deputados federais e senadores, bem como buscando participação nas chapas majoritárias sempre que possível”.

Tais declarações apenas reforçam o alerta feito por setores internos ao partido que apontam que este pode vir a ser mais um caso de intervenção nacional, à exemplo da que devastou o partido no Rio de Janeiro no ano de 1998, e da que ocorreu em Pernambuco em 2012 – com efeitos não menos nocivos -, que impediu a candidatura à reeleição de João da Costa à prefeitura de Recife.

Mirando para este caso, não pretendo questionar a necessária autonomia política dos partidos, nem tampouco seu direito de definir sua tática eleitoral sem intervenções externas, mas sim apontar que tal autonomia não deve significar que os eleitores devam ignorar os processos construídos nesta arena, dado suas possibilidades de escolhas dependem das decisões internas aos partidos. É preciso que cada vez mais joguemos luz a esses processos para que deixe de ser aceitável que diminutas burocracias partidárias sigam tomando decisões unilaterais sobre assuntos que tem a capacidade de impactar a vida de um sem-número de pessoas.

A situação atual de Pernambuco é apenas um exemplo, mas vale destacar que em outros partidos sequer existem direções estaduais, ou encontros com delegados eleitos para debater a tática eleitoral. Nestes Comissões Provisórias se perpetuam no tempo, e decisões referentes a candidaturas em todo país podem ser tomadas em uma sala por um par de pessoas que também tem o poder de alocar recursos públicos para as candidaturas que bem entenderem. Ao não questionarmos o processo decisório no interior dos partidos deixamos de olhar a face que conforma a arena eleitoral, deixamos de fora da equação democrática um de seus elementos fundamentais.

Neste caso em específico é possível que a pergunta que abre esse texto seja respondida pelos delegados/as do Encontro Estadual do PT de Pernambuco, mas, a depender da resposta, esta poderá ser confirmada ou anulada por sua Direção Nacional. Tal decisão definirá se os eleitores de Pernambuco terão alternativas reais, ou se precisarão se contentar com o mais do mesmo nas eleições para o Governo do Estado.

Vivemos em um momento no qual a soberania do voto foi desrespeitada com o afastamento da presidenta Dilma, em que a desconfiança nas instituições é cada vez maior, tirar do povo a possibilidade de escolha e embaçar a compreensão deste processo por meio de uma aliança entre golpistas e golpeados, em nada contribui com este já tão difícil cenário em que nos encontramos.

 

* Tassia Rabelo é professora de Ciência Política da Universidade Federal do Vale do São Francisco.