Cosmopolita

Sobre apego e o vazio nas relações contemporâneas

“Mas cada pessoa traz uma bagagem e o medo de que experiências do passado se repitam não vão resolver nossa solidão no presente.” Por Edianne Nobre

Por Edianne Nobre*

|A solidão passou a constituir o único
meio de furtar-se à sensação opressiva de
estar constantemente falhando,
por não saber viver como os outros viviam.|

– Elisa Lispector

 

<<Não quero relacionamento sério>> é, provavelmente, a frase mais dita pelas pessoas neste milênio. Segundo experiência própria e relatos de vários amigos (e olha que eu conheço muita gente), quase ninguém quer relacionamento sério. Por que se amarrar se é preferível ficar flanando por aí de pessoa em pessoa, de corpo em corpo, de uma relação vazia à outra? Pior ainda é quando a frase acima vem acompanhada do bordão: <<O problema não é você, sou eu>>. Dá vontade de rir e dizer: <<Realmente, o problema é você>>. Em um contexto de amor líquido ninguém quer se comprometer. Para viver neste mundo <<tem que ter habilidade>>. As questões da vida a dois se tornam cada vez mais difíceis. <<Queria que o intenso não viesse com o tenso>>, como diz minha amiga Maíra.

Eu não sou contra o “amor livre”, só quero viver o amor-livre- com-alguém.

Será que estamos nos abandonando, paulatinamente, ao vazio? Será que as relações se tornarão cada vez mais insignificantes e fluidas, com corpos famintos deslizando continuamente por outros corpos famintos sem se deixar amparar ao cuidado do outro? <<Poderia ser twogether but it’s just alone>>. Minha terapeuta diz que eu tenho uma imagem idealizada do que é um relacionamento amoroso. E, para meu temor, talvez ela tenha razão. Conheço casais que estão juntos há 15, 25, 40 anos. É errado querer isso para mim também? Eu não sou contra o “amor livre”, só quero viver o amor-livre- com-alguém.

Sem apego mas com amor. O apego talvez seja o maior empecilho hoje. As pessoas confundem posse com cuidado, ciúme com carinho, cobrança com dedicação. Na verdade, tenho a sensação que procuramos no outro uma cópia de nós mesmos, ainda quando somos incapazes de lidar com nossas próprias fobias e dores. O erro é depositar essa carga no outro. Mas cada pessoa traz uma bagagem e o medo de que experiências do passado se repitam não vão resolver nossa solidão no presente. É difícil. Toda relação envolve sofrimento, em maior ou menor medida, para todas as partes envolvidas.

– Descreva nossa relação em duas palavras? – Nossa o que? Fonte: Wink Magazine

A maioria busca um amante perfeito, aquele que suprime a carência temporária de sexo e suor. Aquele que cumpre seu papel e vai embora. Aquele que promete não esperar (para não se apegar). Aquele que não acaricia seu cabelo (enquanto você dirige). Aquele que não quer te ver (numa segunda à noite). Aquele que não pensa nos beijos (dados, roubados, queridos). Aquele que não diz coisas românticas (cliché de enamorados que contam os minutos para rever o outro). Aquele que não ri das piadas (que você faz sobre sua altura). Aquele que não conta segredos (que não compartilha). Aquele que não te liga às três horas da madrugada (perguntando se você tem saudades; quando vamos nos ver? Dorme aqui em casa hoje?). Aquele que não tem esperanças nem ilusões ou expectativas <<porque meu coração se cansou de emoções equivocadas>>. O amante perfeito não existe e a gente acaba magoando muitas pessoas nesse processo de proteger o coração com uma armadura anti-amor.

Anti-amor. O que falta é equilíbrio. Bobagem. Para mim, o amante perfeito é aquele que passou por tantas frustrações quanto eu, e, ainda assim, não tem medo de ficar.

 

 

*Edianne Nobre é uma leonina que nasceu em fevereiro. Gosta de contar histórias, viajar e tomar café.

  • Wellington Moreira Lopes

    Eu estava desesperadamente precisando ler coisas como essa. Preciso entender que eu não estou errando em querer algo que me venderam e eu tomei como verdade para construir o meu mundo, precisava começar a entender que essa sensação de “não ser suficiente” para o outro não é só minha e nem culpa minha. Obrigado. Tenho lido os seus textos e cada vez me sinto mais emocionado e contemplado.
    Obrigado, obrigado, mil vezes obrigado.

    • Dia Nobre

      Olá Wellington, acho que é esse mundo que está louco mesmo… Que bom que você gostou do texto. Ele é parte de mim e das minhas inquietações e também é muito bom para mim compartilhar essas dores e alegrias. Fique bem. Abraço!