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O protagonismo feminino nos candomblés

Maioria dos terreiros de candomblé no Brasil são regidos por mulheres negras. Por Guaraci M. Santos*

Nos cultos afro-brasileiros, sobretudo nos candomblés, a imagem da Grande Mãe é perpetuada a partir dos orixás femininos, as Iyabás (Agência Brasil)

Vivemos em uma época marcada por uma crescente valorização social e política das mulheres brasileiras, visto que elas cada vez mais assumem de forma clara posições de destaque nos vários segmentos institucionais, aos quais elas são chamadas. Desse modo, contrapõem-se a valores, lugares e ideias que representam e asseguram o lugar do gênero masculino. Frente a esta mudança de paradigma social e cultural, não podemos deixar de pensar estes movimentos dentro das religiões, aqui no caso de matrizes africanas, os candomblés de Ketu, Jeje, Angola, dentre outros, com suas sacerdotisas.

O sacerdócio de gênero feminino é algo que se institui no âmbito dos candomblés de forma muito particular, uma vez que vai contra ao que é de praxe na cultura ocidental que, muitas vezes, resguarda a função sacerdotal ao gênero masculino. No caso do Brasil, espelha-se a própria estrutura patriarcal de organização sociocultural.

Segundo Matory (2008), os candomblés são caracterizados por divinações, sacrifícios, cura, música, dança, possessões espirituais, os quais garantem a ascensão do iniciado (a) praticante à posição de sacerdote/ sacerdotisa. Há também nestes cenários fatores como os laços parentais consanguíneos ou hierárquicos, a disposição das funções exercidas no decorrer da trajetória de formação religiosa do iniciado (a), os cargos assumidos anteriormente à sucessão por eles (as), além do saber oracular determinante nesse contexto simbólico e místico pertencente aos candomblés, como manifestações afro-brasileiras ricas em suas diversidades.

A importância do feminino se faz desde os primórdios da civilização humana, que se perdeu na geração de formação do homem anterior à civilização, conforme entendia a ciência histórica. Muraro (1993, p. 5) afirma que: “segundo a maioria dos antropólogos, o ser humano habita esse planeta a mais de dois milhões de anos, […]. Nessas sociedades não havia necessidade de força física para a sobrevivência, e nelas as mulheres possuíam um lugar central”.

Muraro (1993, p. 6) reforça que “o homem ainda não conhece com precisão a função reprodutora e crê que a mulher fica grávida dos deuses. Por isso ela ainda conserva o poder de decisão”. Pensando assim, os povos considerados primitivos mantinham uma estrutura social e cultural que era sustentada pelas características do feminino, ou seja, valores de comunidade, cultivo e sobrevivência que dava à mulher o poder de entender e transformar a realidade a partir de sua própria natureza biológica de gerar a vida.

A vida remete à necessidade de sobrevivência. A sobrevivência remete necessariamente ao homem como humanos no processo de transformação da natureza em cultura. Nessa transição entre natureza e cultura, o que os povos considerados primitivos não dominavam era apontado como sendo responsável o campo sagrado.

O reflexo do sagrado, nesse período, era reflexo do feminino, portanto, a representação do divino era de natureza feminina. Ainda segundo French (1985) apud Muraro (1993, p. 8):

Alguns exemplos nos farão entender as diversas etapas e a frase de French. O primeiro e mais importante exemplo da primeira etapa em que a Grande Mãe cria o universo sozinha é o próprio mito grego. Nele a criadora primária Géia, a Mãe Terra. Dela nascem todos os protodeuses: Urano, os Titãs e as protodeusas. Entre elas as quais Réia, que virá a ser a mãe do futuro dominador do Olimpo, Zeus.  Há também o mito nagô que vem dar origem ao candomblé. Neste mito africano, Nanã Buruquê que dá à luz a todos os orixás, sem auxílio de ninguém.

Nos cultos afro-brasileiros, sobretudo nos candomblés, a imagem da Grande Mãe é perpetuada a partir dos orixás femininos, as Iyabás, que representam elementos primordiais da origem e sustentação da vida, como por exemplo, Nanã, citada anteriormente. Yemanjá, a partir do elemento água, é o início da vida: a umidade na fecundação e o líquido amniótico; Oxum, representando talvez, o segundo momento: o aleitamento, o cuidado e a doação materna. E Iansã, a mãe que luta na busca pelo sustento da família. (PRANDI, 2002).

Pensando na transmutação das características dos orixás femininos para sustentação espiritual e sagrada que reflete no cotidiano social, cultural e político das sacerdotisas do candomblé, elas gradativamente ampliam seu poder na hierarquia sacerdotal, ou seja, de filhas-de-santo passavam a mães-de-santo, como aconteceu recentemente com a filha-de-santo Ana de Xangô sendo escolhida, por meio do jogo de búzios (Ifá), para suceder Mãe Stella de Oxóssi, sacerdotisa do Ilê Axé Opó Afonjá, em Salvador/BA. No dizer de Reis (2006, p. 87): 

Assim alguns grupos femininos se tornaram tradição em diversas casas de cultos baianas, inclusive no Ilê Iyá Nassô e em seus rebentos: O Gantois e o Axé Afonjá. Enquanto o posto exclusivamente masculino de babalaô (sacerdote adivinho de Ifá ou Fa) declinou até quase se extinguir, as mulheres tomaram conta do negócios da adivinhação, junto com outras atribuições rituais essências no âmbito da religião […]. Com o desaparecimento dos africanos da população da Bahia e com o estabelecimento da supremacia feminina entre os iniciados, a geração seguinte – a dos crioulos – tornou-se, dessa forma predominantemente feminina.

Em Minas Gerais a presença do feminino na religiosidade afro-brasileira também já se fazia presente desde o período colonial, é o que nos diz Souza (1989) apud Maia (2011, f.57): “Mais uma vez Laura de Souza de Melo e Souza (1989) […] nos relata e resgata […], através de processo inquisitorial, a memória e vida de Luiza Pinta que acabou por reforçar o culto afro-brasileiro em Minas Gerais, na cidade de Sabará, já existente em meados do século XVIII.” No dizer da própria Souza (1989, p. 169) sobre Luiza Pinta:

[…] ela se vestia com trajes inusitados – “invenções”, como diz o processo trazia a cabeça coberta por grinalda ou toucas, dançava ao som de instrumentos musicais africanos, como o atabaque, entrava em transe – “umas grandes tremuras” – e dava as respostas desejadas. Era assistida por outros negros e negras que dançavam e cantavam com ela, bebia vinho e, então, lhe “vinham os ventos de adivinhar”. Às vezes trazia um espadim na sua mão e receitava folhas do mato aos pacientes.

Esse passado colonial mineiro, com influência afro-baiana, refletiu-se em Belo Horizonte, ao analisarmos as pesquisas de Morais (2010), que realizou um percurso da instituição do candomblé na capital mineira, evidenciando a trajetória de ícones representativos dos candomblés na cidade. Dentre as expoentes líderes religiosas candomblecistas do gêneros feminino, tiveram lugar de destaque as Mães: Daxé Bi, Pararás e Oloiá, baianas de tradições religiosas Ketu, Jeje e Angola que semearam suas raízes nas Minas Gerais e Yaterê  (Geralda Do Carmo), e Mam’etu (Mãe) Tabaladê Dia (de) N’kosi (Ogum) (Cecília Félix dos Santos), mineiras iniciadas nas tradições de Ketu e Angola de raiz Goméia respectivamente, sendo que esta última, segundo Morais (2010, p. 95), “[…] teve um terreio de Umbanda antes de ser iniciada no candomblé, sendo que mantinha uma guarda de congado”. Além disso, foi militante e uma das fundadoras dos festejos dos Pretos Velhos, na Praça 13 de Maio (1982) e de Iemanjá, na Lagoa da Pampulha (1957). Além disso, Mãe Tabaladê, falecida em abril de 2007, foi homenageada como sendo o tema de comemoração do cinquentenário da Festa de Iemanjá em agosto do mesmo ano. Fato esse, que ressalta a importância feminina na cultura afro belo-horizontina. A saber, os festejos citados acima se tornaram, por meio da Secretaria de Cultura da Prefeitura de Belo Horizonte em 16 de outubro de 2019, patrimônio imaterial desta cidade.

Dessa maneira, o exposto evidencia o protagonismo do gênero feminino no cenário afro-religioso brasileiro, não somente baiano, mas também mineiro, que em sua maioria eram e são regidos por mulheres que foram/são, em sua maioria, negras. Mulheres de onde advém a coragem de professar sua fé, a persistência de manter suas comunidades religiosas por meio dos instintos maternais de filiação, sustentação e orientação sócio-religiosa, e sobretudo resistência, diante dos ditames opressores de uma sociedade culturalmente patriarcal, em defesa de suas culturas de tradições africanas como os candomblés.

 

Referências:

MAIA, Anderson Marinho. A Manifestação da umbanda na região metropolitana de Belo Horizonte: da tradição à contemporaneidade. 2011. 185 f. Dissertação (mestrado) – Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais. Belo Horizonte. 

  • MATORY, J. Lorande. Feminismo, nacionalismo, e a luta pelo significado do adé no Candomblé: ou, como Edson Carneiro e Ruth Landes inverteram o curso da história. São Paulo: Revista de antropologia, v.51, n.1, 2008.

MORAIS, Mariana R. Nas teias do sagrado: registro da religiosidade afro-brasileira em Belo Horizonte. Belo Horizonte: Espaço Ampliar, 2010.

MURARO, Rose M. Breve introdução histórica. In: FRAMER, H.; SPRENGE, J. M. Maleficarum. O martelo das feiticeiras. Rio de Janeiro: Rosas dos Ventos, 1993. Apresentação, p. 5-17.

PRANDI, Reginaldo. Mitologia dos Orixás. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.

REIS, J. J. Sacerdotes, seguidores e clientes no candomblé da Bahia oitentista. In: ISAIA, A. C. (org.). Orixás e espíritos: o debate interdisciplinar na pesquisa contemporânea. Uberlândia, 2006. Cap. 3, p. 57-94.

 SOUZA, Laura de Melo e. O diabo na Terra de Santa Cruz. São Paulo: Companhia da Letras, 1989.

*Guaraci M. Santos é sacerdote afro-religioso, psicólogo, mestre e doutorando em Ciências da Religião-PUC/Minas.

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