Coluna K

A verdade de Bolsonaro

Qual seria a verdade de Bolsonaro? Como entender seu método político? O que aquilo que ele diz revela sobre o que ele é? Essas são algumas questões que a presente reflexão tangencia.

A verdade de Bolsonaro

 
Delcides Marques, antropólogo

 

Há quem diga que uma mentira contada mil vezes vira verdade. E aquele que mente mil vezes, passa a ser verdadeiro? Se a repetição faz o hábito, o hábito distingue o sujeito. A verdade acerca do mentiroso é que ele é mentiroso, de modo que, sendo verdade que ele mente, a mentira é a verdade sobre ele mesmo. E quanto mais mentir faz parte do hábito e evidencia o mentiroso, mais a mentira é uma verdade acerca dele. Em suma, a verdade sobre ele é a sua mentira. Então, conhecer a verdade acerca do mentiroso permite entender que a mentira faz o mentiroso. E essa breve reflexão trata justamente de desdobrar alguns pontos sobre um sujeito que seria a personificação daquilo que Tomás de Aquino chamou de mentira viciosa, cuja finalidade primordial seria enganar de forma vil. Quero falar de um sujeito que é a personificação da mentira maldosa, da mentira viciosa e viciada, da mentira que se perpetua como prática, hábito e diretriz existencial e que é produzida para um fim perverso. Vamos de forma direta e breve a esse caso concreto, digamos assim.

 

Há estatísticas de que o presidente Jair Bolsonaro profere uma média de três mentiras por dia, e até o dia 06 de agosto de 2021, com 948 dias de mandato, foram cerca de 3751 declarações falsas ou distorcidas (cf. aosfatos.org). Não poderia ser diferente, pois foi a mentira que o elegeu e é com ela que pretende se perpetuar no poder. Ele é a própria mentira, a quimera dilacerante, o engodo estrutural e a falácia irresponsável. E cada vez que ele abre a boca se funde uma impostura desrespeitosa, uma fraude absoluta e uma inverdade estrutural. Para utilizar a linguagem bíblica, muitas vezes os lobos chegam vestidos de ovelhas. E em poucas ocasiões o disfarce foi tão mal feito como no caso de Bolsonaro. Na verdade, nem há exatamente um disfarce, pois ele é a incongruência escancarada, o engano evidente. E estranhamente, há uma legião de seguidores que percebem nesse lobo uma ovelha do rebanho de Deus. Isso pode estar relacionado ao fato de que ele fala em Deus e está comumente rodeado de líderes religiosos e personagens “terrivelmente evangélicos”. Isso tudo, apesar de maquiar o engodo, não o escamoteia plenamente. 

 

Seu lema desde a campanha eleitoral é a mais clara manipulação deturpadora de um texto bíblico. Mais ou menos como aconteceu quando Satanás tentou Jesus citando as Escrituras: “Está escrito” (Mateus 4.6). Como se citar versículos bíblicos conferisse automática legitimidade espiritual a alguém. Como se falar em nome de Deus fosse suficiente. De fato, Bolsonaro se vale de jargões retirados das Escrituras, tais como: “E conhecereis a verdade e a verdade vos libertará”. Arrisco-me a dizer que nunca um texto bíblico foi usado com tanta objeção. O texto sagrado é usado como escudo para aquilo que o próprio texto condena. Se a verdade liberta, a mentira aprisiona. E aquele que cita o texto sobre a verdade libertadora é justamente quem faz da mentira uma aparência de verdade. Assim, a mentira escondida sob a verdade aparente não liberta. Com sua técnica de confundir produzindo dissimulação, Bolsonaro é um impostor do começo ao fim. Sabe-se que é possível torcer textos para levá-los às mais diversas e divergentes interpretações. E isso também vale para os textos sagrados, ou ainda mais para eles. Há brecha para vários usos e manipulações explicativas, com o Diabo bem sabe, Bolsonaro acompanha e seus consultores eclesiásticos estimulam tanto mais.

 

É fato que ele se elegeu como simpatizante dos evangélicos, reiterado por um batismo falacioso e um slogan de campanha bastante controverso: “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”. Mas interessa lembrar que de um simpatizante não se exige compromisso. Por isso mesmo, ele se aproveita dos evangélicos quando convém, pois sabe que eles lhes são fieis. Não raras vezes, mais devotados a ele que ao seu fundador. Quando os valores de Cristo se chocam com as falas inconsequentes de Bolsonaro, há muitos que não titubeiam e escolhem a lealdade terrena e tentam manipular uma defesa cristã dessa escolha. Há muitos que fazem pacto com a falsidade e a mentira de forma inocente, e que são levados pelas notícias falsas, sendo enganados e enganando sem más intenções. Esses precisam conhecer a verdade para serem libertos. Mas nem sempre é questão de inocência. Bolsonaro também consegue o apoio de não desprezível ala eclesiástica que anseia por prestígio e defende valores hipocritamente tidos como tradicionais. Nesse caso, ninguém é insuspeito. São da mesma corja, Bolsonaro e seu séquito de fariseus. Esses não estão interessados em verdade ou qualquer coisa do tipo, só querem mesmo tirar alguma vantagem da situação, e aturam até as idiotices que ouvem, tendo em vista um cálculo de regalia pessoal.

 

É preciso mesmo admitir que a verdade sobre Bolsonaro é a mentira. Nem sofista ele é. Nem contraditório ele é. É de sua natureza agir como age. Por isso mesmo, seu governo é permeado de calúnia, intriga, ameaça e irresponsabilidade. É praticamente impossível não perceber que ele funciona à base do equívoco deliberado. E os números absurdos de mentiras destruidoras mostram o quanto  estamos diante de um ser abjeto, que espalha descontroladamente inverdades sobre eleições, vacina, corrupção, congresso, coronavírus, ditadura, imprensa, justiça, meio ambiente e tantos outros temas essenciais. Por onde ele passa, projeta-se a si mesmo mesmo e evidencia que seu método é o logro manifesto, a ilusão cínica e a bestialidade fundante. Ele se arvora a partir do despautério inegável, ludibrio ontológico e ilusão absoluta. O campo da disputa política permite atitudes que escapam ao viés moral, mas vale tudo? É preciso tolerar o intolerante? Mentira não é crime? Se o Diabo é pai da mentira, quem seria Bolsonaro?