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Pesquisa aponta motivos para agressores cometerem crimes contra mulheres

Com base em um estudo de mais de 1,7 mil casos de mortes de mulheres ocorridas no Brasil nos últimos três anos, pesquisadora da UnB traça o perfil do agressor e aponta os motivos apresentados por eles para cometer crimes.

Lourdes Bandeira: mulher é vista como “pertencimento” do homem (foto: Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press)

A professora Lourdes Bandeira, do Departamento de Sociologia da Universidade de Brasília (UnB), estudou mais de 1,7 mil casos de mortes de mulheres no país nos últimos três anos. O resultado será um livro publicado como tese de pós-doutorado em feminicídio. A visão da especialista é que, em 70% dos casos, o assassinato é tratado como crimes de paixão ou de honra. As motivações dos crimes costumam se dividir em três: mulheres querem se separar e o companheiro não aceita; suspeita de adultério ou dificuldade de aceitar que a ex-esposa possa seguir a vida de solteira.

“É notada uma crueldade nos crimes. Espancamentos, diversas facadas e tiros. Para o homem, a mulher não o querer é um ataque contra a sua virilidade. Eles sentem que falharam diante de uma sociedade sexista e patriarcal onde a mulher ainda é vista como parte do pertencimento do homem”, opina Lourdes.

Em casos como o do policial militar Epaminondas Silva Santos, que se suicidou após matar a esposa, Lourdes acrescenta que se trata de um ato de covardia. “Ele quer desaparecer, e tem um ato em que decide destruir tudo junto dele. Isso mostra o quanto o homem não respeita a mulher, pois ele decide que, por escolha própria, a companheira não terá direito de liberdade e nem de existir. É o pensamento de ‘ou ela me pertence, ou não será mais de ninguém”, classifica.

Voz às vítimas

Especialista em violência doméstica, a antropóloga Lia Zanotta, da UnB, acredita que o aumento no registro de feminicídios é o reflexo de uma construção histórica que colocou a mulher abaixo do homem. Para ela, a visibilidade de casos faz aumentar as denúncias e torna o processo judicial mais eficaz, mas ainda há um caminho longo a ser percorrido para desconstruir essa tradição. “A mulher é uma válvula de escape. Se o homem passa por uma crise econômica, desconta nela. Se passa por um momento difícil, bebe e bate nela. Isso vem de uma idealização lá do Brasil Colônia, em que, ao casar, a mulher passava a ser um ser totalmente submisso, obediente ao marido”, comenta, em relação a casos em que o agressor é o companheiro.

Para Zanotta, tanto o feminicídio quanto a Lei Maria da Penha, que completou 12 anos ontem, são enormes vitórias, mas precisam se tornar mais incisivas. “São raras as vezes em que agressões, humilhações verbais e constrangimentos não eram notados anteriormente. O feminicídio é o fim de um ciclo violento, e o Judiciário precisa trabalhar para impedir que se chegue a esse ponto. É necessário que agressões e denúncias sejam tratadas como atos sérios, passíveis de prisão, medida protetiva e um longo período de reflexão psicossocial para os agressores”, defende a especialista.

Secretário de Segurança Pública do DF,  Cristiano Barbosa considera a denúncia um dos primeiros mecanismos para romper o ciclo de violência contra a mulher. “É um crime covarde, hediondo, que muitas vezes a vítima sozinha não tem coragem de tomar atitude e se sacrifica, seja por causa dos filhos, seja pela dependência financeira, o que torna o ciclo vicioso e se agrava”, observa. Ele sugere que vizinhos e familiares possam prestar assistências. “Essas pessoas podem incentivar a vítima a fazer o registro necessário e realizar a denúncia. Só assim podemos mapear e agir. A sociedade inteira sofre com isso. Precisamos pedir socorro e dar luz a esse problema”, reforça.

Para a juíza Theresa Karina de Figueiredo, do Juizado Criminal do Recanto das Emas, organizadora do livro Mulher e a Justiça e autora do texto A violência doméstica sob a ótica dos direitos humanos, que atuou na Vara de Família e de Violência Doméstica, deveriam haver políticas públicas de dar voz às vítimas para elas compartilharem suas histórias com outras mulheres. “Às vezes, a mulher só é ouvida na sala de audiência”, reforça.

Cadeia por descumprimento

Ontem, o Senado aprovou o projeto (PLC 4/2016) que manda para a cadeia quem descumprir as medidas protetivas previstas na Lei Maria da Penha. A proposta vai agora à sanção presidencial e prevê penas de dois meses a três anos de prisão para quem deixar, por exemplo, de manter distância das vítimas de violência por determinação judicial.

Por Pedro Grigori e Isa Stacciarini, do Correio Braziliense

 

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