Ciência & Sertão

Adoecimento docente e o poder do “Não”

A produção acadêmica levada ao extremo troca qualidade por quantidade. E a ciência não precisa de nenhuma quantidade de trabalhos “fatiados”. O conhecimento (grande tesouro da espécie humana) precisa de contribuições que sejam de fato relevantes para que ele possa avançar.*Por Helinando P. de Oliveira.

A carreira docente é singular: o trabalho não começa quando se tem início o expediente nem termina quando o professor retorna ao lar. As ideias, problemas e soluções permanecem junto ao profissional por todos os instantes do dia, daí o bem-sucedido conceito do regime de dedicação exclusiva nas Universidades. É impossível ter outra atividade profissional quando se está mergulhado nas questões de ensino, pesquisa, extensão além das atividades administrativas. De fato, se faz necessário um mergulho neste mundo para entender a rotina de uma vida multifacetada. E assim como no mergulho, é preciso saber a profundidade em que se quer chegar. Lá há um limite em que os tímpanos rompem, e depois quando ocorre má oxigenação cerebral seguindo até a morte. Ninguém pode culpar as profundidades abissais do fundo do mar pela morte dos mergulhadores. Eles escolhem quando e como querem mergulhar. Poderíamos nós, docentes, estabelecermos a profundidade de nosso mergulho? Evidentemente que sim, desde que pratiquemos o poder do “não” de uma forma inteligente.

Os brasileiros, de uma forma geral, têm grande dificuldade em usar esta palavra. Então vejamos: quando alguém nos chama a algum evento e não queremos ir, praticamos toda uma argumentação que nos permita dizer não sem dizer o não. Confundimos o simples “não” com a prática do desrespeito. E desta forma passamos a aceitar inúmeros convites para bancas, comissões, disciplinas eletivas, orientações. Sem perceber, aumentamos a cada dia a profundidade de nosso mergulho e normalmente não questionamos ao nosso corpo onde está o limite para tudo isso. Esta sobrecarga nos leva a um estado de escravidão acadêmica que deprime e conduz ao adoecimento. Mas… Precisávamos ter dado sim a tudo que nos sugeriram? E aí culpamos terceiros. Falamos que a culpa é da CAPES, do CNPq. Concorre às bolsas de produtividade quem quer e passa a estar ciente das regras do jogo. Não somos obrigados a publicar 10 artigos por ano! Não há lei que estabeleça isso. Nós que aceitamos tudo e de repente sentimos nosso tímpano trincar…. E agora?

Neste ponto vale lembrar de um diálogo de um jovem que decidiu trabalhar com um grande cientista. Na primeira conversa, o orientador perguntou a ele:

– Quantos artigos você quer publicar neste tempo?

O jovem respondeu:

– O máximo que for possível.

O orientador então rebateu:

-Pois te digo que o mais provável é que não publiques nenhum. Você fará aqui o melhor trabalho de sua vida. E é possível que no final deste período você não o tenha terminado. Mas um dia você o publicará, e será o melhor trabalho de sua vida.

A produção acadêmica levada ao extremo troca qualidade por quantidade. E a ciência não precisa de nenhuma quantidade de trabalhos “fatiados”. O conhecimento (grande tesouro da espécie humana) precisa de contribuições que sejam de fato relevantes para que ele possa avançar. E fazer coisas boas pede tempo… O mergulho e suas escalas… Qual a profundidade em que você quer chegar?

Vale ressaltar que não sou adepto do jargão “viver não cabe no Lattes” por razões óbvias: na plataforma Lattes cabe tudo o que quisermos colocar, todavia viver é muito mais que carregar dados na internet. Então, viver cabe no Lattes… Só que uma vida assim seria tão triste….

Triste ao ponto de se comparar ao mergulhador que esquece de ver as maravilhas do fundo do mar para anotar a profundidade em que está chegando.

De vez em quando (e a proporção disso é definida por nós) é bom mandar as métricas pro inferno. Precisamos ser felizes naquilo que fazemos. Saber dizer não é manter o foco naquilo em que podemos ser úteis, fazer a diferença.

Se os docentes estão adoecendo é porque estão fazendo aquilo que não querem. Então precisam ligar o botão do “não”. Ir a menos bancas, menos comissões, buscar prazer no que fazem, atualizar menos o Lattes e ver a beleza dos arredores durante o mergulho. Afinal, eles (os mergulhos) são breves. É bom lembrar que além daqueles que querem rasgar nossa aposentadoria, o tempo, ele também, é implacável. Precisamos ser felizes. A partir daí trabalharemos com muito mais prazer.

* Helinando P. de Oliveira é físico e professor da Univasf. Desenvolve nanotecnologia no sertão desde 2004, quando escolheu ser sertanejo e focar suas pesquisas no Sertão.