Ciência & Sertão

Uma ponte para o futuro: da Venezuela de 1989 ao Brasil de 2017

‘Na matéria de hoje falaremos da Venezuela de 1989 e o plano neoliberal conhecido como “A grande virada”. Qualquer coincidência com as consequências da “ponte para o Futuro” brasileira pode ser mero acaso… Ou não!’ Por Helinando P. de Oliveira

A proposta “Uma Ponte para o Futuro”, que revelou o desembarque do PMDB do governo Dilma (e que levou à desestabilização generalizada do país) ainda é considerada por alguns como uma proposta enigmática em sua própria definição. Uma ponte que leva ao futuro pode conectar qualquer situação à outra, levando-nos do presente ao futuro ou do passado ao presente (tudo é mera questão de referência). Desta forma, a ponte para o futuro pode nos conduzir ao mais profundo dos precipícios, já conhecido e provado por vários povos.

Na matéria de hoje falaremos da Venezuela de 1989 e o plano neoliberal conhecido como “A grande virada”. Qualquer coincidência com as consequências da “ponte para o Futuro” brasileira pode ser mero acaso… Ou não!

A economia da Venezuela foi e é extremamente dependente do preço do petróleo. As bonanças petroleiras são tipicamente acompanhadas de grandes avanços econômicos. São nestes momentos em que o poder econômico hegemônico abre concessões para que a administração pública (caso seja de seu interesse) estabeleça agendas para desenvolvimento social – desde que o apoio primário do governo seja direcionado à inciativa privada.

Aos primeiros sinais de recessão econômica, este processo tende a ser revertido de forma muito intensa. E assim, nos idos de 1989, o então ex-presidente venezuelano Carlos Pérez retornou ao poder e deu vez à grande virada, um plano que contava com a assessoria de economistas da Escola de Chicago e que estabelecia a premissa de reduzir o Estado à sua expressão mínima.

O processo teve início com a desvalorização da moeda, aumento no preço dos combustíveis, corte e restrição de salários e abertura da exploração petrolífera por empresas externas. A Venezuela então mergulhou em uma recessão muito mais forte, o que levou a uma retirada quase imediata de 200 mil trabalhadores do mercado de trabalho, o que foi associado a aumento nas passagens em 30% e uma enorme revolta popular, que explodiu em 27 de fevereiro de 1989, naquele que foi conhecido como o Caracazo. Esta manifestação culminou com o assassinato de 277 pessoas, que saíram às ruas para protestar contra a agenda neoliberal, outrora definida como a “Grande Virada”. Em 1992, uma tentativa de tomada de poder encabeçada por Hugo Chaves terminou sendo frustrada, o que resultou na prisão daquele que retornaria ao poder anos mais tarde.

E o presidente Pérez continuou a seguir a sua cartilha neoliberal até sofrer impeachment em 1993, sob acusação de desvio de recursos. Seu sucessor, Rafael Caldera, continuou o plano neoliberal, agora chamado de “Agenda Venezuela”, completando um roteiro que resultou em alarmantes 48,33 % dos venezuelanos abaixo da linha de pobreza, sendo 27,66% da população nos índices de pobreza extrema.

E as sequelas destas agendas chegam aos dias de hoje, encontrando um país que ainda não conseguiu superar o abismo social em que foi enterrado.

E em nome das contas, mercado e empresas, a história tende a se repetir nos países latino americanos, com agendas que mudam de nome, mas mantem a essência de produzir recessão, fome e miséria, pela exploração gratuita dos recursos naturais destas nações para o lucro das grandes multinacionais.

E com o tempo e a ação incisiva da mídia, menos Caracazos são observados, pois a anuência consentida de um povo mal informado é ferramenta extremamente forte nas mãos dos governos entreguistas.

Uma nação dominada por empresários com renda inferior a um salário mínimo e que tem aversão a trabalhadores resgata uma versão tupiniquim de que desemprego é uma ótima oportunidade de empreendedorismo, fazendo dos camelôs uma versão moderna do empresário informal. Desta forma, a fome e miséria são anuências assinadas pelo povo que morre na esperança de sentar à mesa da Casa Grande, compartilhando do caviar importado.

* Helinando P. de Oliveira é físico e professor da Univasf. Desenvolve nanotecnologia no sertão desde 2004, quando escolheu ser sertanejo e focar suas pesquisas no Sertão.

  • Marcelo Ribeiro

    Há boa informação integrada a reflexões instigantes