Ébano

Cabelos negros: desacostumem-se com o “normal”

Serei bonita do meu jeito. Somos bonitas do nosso jeito. * Por Ruthe Maciel

Ruthe Maciel

Há algumas semanas um assunto tem me incomodado bastante: o apoio ao empoderamento negro que só parece existir nas redes sociais.

Claro que, descartei a generalização, uma vez que eu moro no interior da Bahia, sendo assim, algo totalmente diferente do cotidiano das grandes capitais, onde – não sei se superficialmente – se veem diversos tipos de cabelo e cortes em uma andada pela cidade.

Quando fiz o BC(“Big Chop” – corte químico), logo postei em meu Facebook e vários amigos comentaram o quão fui corajosa, o quão eu estava bonita, e eu me senti um espelho que futuramente serviria à outras meninas da minha cidade.

Dito e feito. Muitas em comum aderiram ao corte, livrando-se das químicas capilares e se empoderando cada vez mais.

Por ora, no mesmo dia saí à rua e foram muitas as piadas que recebi, inclusive dos meus familiares, fazendo com que eu perguntasse a mim mesma a diferença de ser uma mulher e negra com Black nas redes sociais e de fato viver cotidianamente como uma mulher negra com Black em Juazeiro da Bahia.

Ao longo do tempo, o cabelo foi crescendo e eu passei a lidar com os olhares confrontando-os e militando pela minha beleza não exótica, mas natural. Depois de passar por umas das muitas situações racistas em minha vida, no colégio, apesar de eu escrever que nada seria capaz de me abalar e me tirar as forças, desabei.

Passei a me envergonhar do meu cabelo muito alto, passei a usar pompons, e quando não usava na ida, usava na volta por vergonha de passar por aquele mesmo caminho com ele solto. Uma dose de piadas [na ida] era o bastante pra mim. E ainda assim, não ficava ilesa.

Nada melhorou, então passei a usar tranças afro. No começo foi como uma experiência para saber como eu me sentiria com elas, já que eu sempre me imaginava com uma enquanto admirava muitas meninas no Instagram.

O que seria mais um elemento de empoderamento virou comodismo próprio e motivo de aceitação. Veneravam-me com elogios, já não ouvia piadas ou via olhares tortos, meus colegas passaram a me achar bonita e a me tratar diferente, estava eu me sentindo aceita e enfim, bonita. Passei muitos meses nessa transição de bota e tira de tranças, até então notar o que estava acontecendo e mais uma vez desabei.

Voltei com o cabelo Black pra escola e uma garota da sala comentou: “O que fez com seu cabelo normal?”. Ora, por que linhas são consideradas cabelo, primeiramente, e porquê normais, segundamente? Enquanto o meu cabelo, o qual nasceu em meu couro cabeludo não? Sutilmente como uma batida de trem, assim que pisei os pés na rua recebi uma enxurrada de comentários e olhares, seria isso normal?… Mas é claro que é normal na vida das meninas negras, mas confesso que me desacostumei.

Com isso, aprendi que não é só questão de cabelo, mas de cor. Não importa se ele está preso, solto, com penteado, pranchado, a menos que esteja alisado com gradativa – que gradualmente deixará uma menina negra careca – eu não serei engolida pela sociedade e eu não serei como a branca ao meu lado.

Serei bonita do meu jeito. Somos bonitas do nosso jeito.

Então, desejo a todas as meninas negras, que apesar das dificuldades e dos deslizes, mantenham-se de queixo erguido nesta sociedade acostumada a só ver preto pra cima quando a polícia grita.

 

*Ruthe Maciel – Integrante do MAV. Estudante e poetisa.