Entrevistas

Xico Sá dispara contra velhas formas de dominação e falsos patriotas

“Acho que a canalhice se refugia muito na camisa verde-e-amarela, na bandeira, nos símbolos da pátria, pra tentar mostrar que é mais brasileiro do que quem discorda daquela opinião”. disse Chico Sá

- CLISERTÃO 2016 - (Foto Lizandra Martins) (5)
– CLISERTÃO 2016 – (Foto Lizandra Martins)

O Cearense, Xico Sá, é jornalista e escritor.  Começou a carreira no Recife e foi colunista do jornal Folha de S. Paulo, no qual mantinha um blog diário no site folha.com, até pedir demissão em 2014, após ser impedido de publicar artigo em que declarava seu apoio à presidente Dilma Rousseff.

Sá escreveu os textos do livro-documentário “Nova Geografia da Fome” que uma homenagem ao clássico “Geografia da Fome”, com o qual Josué de Castro, médico, geógrafo e antropólogo pernambucano, ainda em 1946, denunciou esta problemática no Nordeste, até então vista como tabu.Xico fez uma com U.Dettmar durante o ano de 2003, onde percorreu 60 mil quilômetros, cruzando os nove Estados nordestinos, o norte de Minas Gerais e os arrabaldes de São Paulo, onde, segundo o próprio Xico Sá, “deságuam todos os sertões”.

O livro se propõe, segundo o autor, a revelar a nova “geografia da fome” no Brasil, bem como as iniciativas públicas e privadas que o país está desenvolvendo para combater a miséria. Os autores do livro mostram o retrato de sertões, veredas, periferias e mangues, bem como os novos personagens e dramas de uma antiga história que ainda atinge, pelo menos, 9,9 milhões de pessoas, segundo estimativa do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome.

Em texto e foto, o livro-documentário é uma narrativa que mostra os rostos vincados de sol e “precisão”, xilogravuras ambulantes do abandono histórico, vítimas da “velha do chapelão”- como a fome era representada no imaginário sertanejo mais antigo. Além disso, os autores também trouxeram da estrada a crônica de costumes de um sertão cheio de quixotices, mungangas, marmotas, estripulias à João Grilo e Pedro Malasartes.

A “Nova Geografia da Fome” também traz focos de esperança, entre eles estão a caprinocultura, com o bode dando lição de resistência e convivência com o semi-árido; a agroindústria de ponta que vingou em Juazeiro (BA) e Petrolina (PE), herança dos sonhos de Delmiro Gouveia – o homem que ligou a caatinga na tomada; as invenções tecnológicas de Campina Grande (PB), entre outras tantas mostras localizadas pelos repórteres.

O Ponto crítico conversou com Xico Sá durante o 3º Clisertão, onde ele encontrou com Chico Egídio para  uma das mesas de debates, e debateram sobre a obra de Sá.

 ENTREVISTA- Por Gilmar Santos

PC: Como é que você avalia esse encontro na terceira edição do Clisertão, onde se discutiu questões relativas à memória no nordeste, a literatura, numa espécie de reivindicação de direito à memória?

Xico Sá: De cara, amei a expressão que você usou, direito à memória. Acho que esse é um direito sagrado, humaníssimo, e muitas vezes a gente esquece e muitas vezes a gente quer esquecer. Você tem em relação a esse passado mais cruel do nordeste, por exemplo, muita gente quer esconder ou evitar, eu acho que até para compreendermos o que acontece hoje e para se ter uma ideia de futuro precisamos está com isso na memória. Portanto temos que preservar a memória, cutucá-la mais, porque sabemos pouco ainda, mesmo eu tendo investigado muito como jornalista, como interessado, como nordestino, tem muito pra se saber dessa história. E o legal é que no Clisertão a gente conversou com a plateia muito jovem, então isso é fundamental, jogar ali uma sementinha qualquer pra eles também…porque basta, pra você valorizar esse memória, basta você ver, qualquer um de nós, nas nossas famílias, com origem sertaneja, tem uma belíssima história, no sentido de uma história-época, basta ir no pai, no avô, que a gente vai ter uma grande história. E é importante que a gente saiba de onde veio, como foi formado, como foi a luta dos antepassados, isso é muito importante, tentar entender o que nós somos.

PC: Durante o debate onde se tratou dos campos de concentração no nordeste você usou a expressão “currais mentais” para se referir a uma outra forma de dominação, o que significa?

Xico Sá: Os currais mentais, imagem que me ocorreu na hora, me faz pensar que não precisamos ter aquela coisa física, do tipo barracas da fome, que a gente viu muito no nordeste, até nas frentes de trabalho dos anos 80, ou voltando um pouco mais, no caso da minha família, que viveu muito a situação da seca de 32, ou 1915, os currais mentais são aqueles que formam o preconceito, que segregam, que criam o ódio, que cria os vários tipos de brasis, que desqualifica o nordeste e o julga diferente das demais regiões do país, que disseminam a ideia de que o Bolsa Família está criando uma legião de preguiçosos, e isso é o curral mental de muita gente da classe média, não somente do sudeste, mas também das capitais do nordeste.

PC: Em artigo publicado na Folha de São Paulo há uma declaração tua de que “o patriotismo é o último refúgio dos canalhas”, como se dá essa canalhice?

Xico Sá: Acho que a canalhice se refugia muito na camisa verde-e-amarela, na bandeira, nos símbolos da pátria, pra tentar mostrar que é mais brasileiro do que quem discorda daquela opinião, no caso agora dessa atual crise, de quem é contra o impeachment, como é o meu caso. Eles se arvoram em se dizerem mais brasileiros porque sequestram a simbologia nacional, numa atitude de posse. O que você vê de sonegadores de impostos, crápulas que se vestem com camisa da CBF e vão protestar na rua, vão pra frente da televisão, é como se estivessem comprado o ingresso da honestidade, um ingresso para se entrar no céu. Mas esquecem o passado e que podem ser surpreendidos por ratoeiras, como é o caso do Eduardo Cunha, símbolo maior de tudo isso, que agora foi afastado da Câmara pelo STF.

PC: Como é que se rompe com tudo isso, quais são os caminhos para a mudança?

Xico Sá: Acho que é nessa nossa teimosia, e aí volto aos currais mentais, já que nós jornalistas temos muita responsabilidade com tudo isso, o que me leva, em alguns momentos, a sair do tom (risos), mas procuro tratar, também, com certo humor, e não abro mão dessa defesa, o que não se trata defender a minha região, o meu lugar, mas é teimar contra o ódio, contra a intolerância, você não pode ser mais ou menos brasileiro que o outro, e isso é uma espécie de guerra cotidiana. Eu sempre que posso faço uma provocações (risos), crio uns “incêndios” (risos), e eu creio que seja muito o papel do comunicador, do jornalista, do cronista, eu procuro exercer nos lugares onde eu trabalho e, principalmente nos lugares onde eu mando (risos), é caso das redes sociais (riso), meu blog, minha coluna, ali o patrão sou eu, então mando “bala”.

Por: Yonara Santos

Entrevista: Gilmar Santos

Foto: Lizandra Martins