Opinião

O PT, Haddad e os caminhos para derrotar a direita

“O PT deve e precisa ter candidatura em 2022, essa não é a questão. A questão é que para termos uma candidatura em 2022 com mais viabilidade e para derrotarmos a direita o ambiente do país precisa ser outro, Lula precisa ter recuperado seus direitos políticos, a extrema direita precisa estar sob constante pressão e o centrão ameaçado”. *Por Patrick Campos

Desde que Fernando Haddad concedeu entrevista para a TV 247 na quinta-feira (08.02) e afirmou que o ex-presidente Lula lhe pediu para colocar “o bloco na rua”, o assunto da candidatura do PT para as eleições presidenciais de 2022 foi alçado ao topo das análises e debates nos jornais e redes sociais.

Há opiniões de todos os gostos, sabores, odores e cores. Mas no fundamental, há quem tenha comemorado o “anúncio” como a solução para todos os problemas e há quem tenha aberto as comportas do antipetismo para escorrer as críticas contra a hipótese de uma candidatura do PT em 2022. Convenhamos: nem tanto ao mar, nem tanto à terra.

Mas para falar sobre esse assunto é importante retomar uma discussão que estava presente há poucas semanas em alguns círculos de esquerda: a abertura ou não de uma “janela de oportunidade” na luta pelo fim do governo Bolsonaro. Ou seja, se esta janela, que existiu em 2020 no começo da pandemia, teria voltado a existir com o aprofundamento da crise sanitária, econômica e social que marcou o mês de janeiro, com a falta de oxigênio no Amazonas, o fim do auxílio emergencial e o crescimento brutal do desemprego.

Em janeiro, o país voltou a registrar manifestações espontâneas com panelaços e carreatas realizadas em centenas de cidades. Além disso, todas as pesquisas de opinião indicaram uma queda significativa da popularidade do governo, que chegou ao patamar semelhante aquele do início da pandemia.

Verificou-se concretamente uma mudança no comportamento de um setor da classe média e dos setores populares que vinham, desde o início do segundo semestre de 2020, com uma postura menos ativa e menos combativa no enfrentamento ao governo Bolsonaro.

Foi, portanto, nesse momento do mês de janeiro de 2021 que para muita gente abriu-se, ou começou a se abrir, uma janela de oportunidade para avançar na luta pelo fim do governo Bolsonaro, sendo que uma das formas disso acontecer seria através da abertura do processo de impeachment.

No entanto, apesar dessa mudança concreta no comportamento de parcela da classe trabalhadora, a maioria dos partidos de oposição (inclusive do PT), adotou na disputa pela mesa diretora da Câmara e do Senado uma tática que foi justamente na contramão dessa mudança. No lugar de lançar candidaturas que tivessem como eixo de seu programa a aceitação de um dos pedidos de impeachment, tanto na Câmara quanto no Senado, as bancadas petistas aprovaram (no Senado por unanimidade e na Câmara por uma pequena maioria) o apoio à candidatos que eram contra o impeachment.

Este é um dos elementos que não podemos deixar de fora ao analisarmos o que aconteceu e ainda está acontecendo nesse momento, em que parte daqueles que achavam que existia uma janela, agora consideram que ela se fechou.

Sobre isso, dois comentários.

Primeiro: assim como foi um erro o PT e os demais partidos de oposição não terem lançado uma candidatura e constituído um bloco de esquerda, foi um erro alimentar a noção equivocada de que com Baleia Rossi o impeachment poderia avançar. Isso nunca existiu. Afinal, se existisse mesmo essa possibilidade, não seria Baleia Rossi (que verbalizou que não faria), mas sim Rodrigo Maia quem deveria ter dado início ao processo de impeachment. E não fez, pelo contrário. Sentou em cima de mais de 60 pedidos de impeachment, sendo cumplice da continuidade e estabilidade do governo Bolsonaro.

De tal forma que a tática errada adotada pela maioria do PT e dos demais partidos de oposição contribuiu para alimentar esta miragem junto a uma parcela da militância, que ao ver Arthur Lira eleito e Baleia Rossi massacrado já no primeiro turno, passou imediatamente a questionar a validade da luta pelo impeachment, quando a reação deveria ser exatamente a oposta.

A luta pelo impeachment, ou seja, umas das formas de mobilização pelo Fora Bolsonaro, continua e deve ser ainda mais incentivada. A luta pelo impeachment, que deveria ter sido potencializada com uma candidatura de esquerda e um bloco de esquerda na eleição da Câmara, mesmo agora, ajuda na mobilização pois é uma bandeira concreta e permite um mínimo de acumulação de forças, que é algo fundamental se quisermos, em algum momento, alterar a atual correlação de forças.

Ela ajuda a desgastar o governo Bolsonaro em diversas camadas e tem como uma de suas consequências, inclusive, favorecer as forças de esquerda agora e em 2022 se a disputa for levada até lá. Além disso o impeachment é uma pauta ofensiva num ambiente geral de defensiva, em que parcela das organizações de esquerda estão impedidas de se mobilizar ou atuando apenas de forma reativa.

Agora, uma segunda coisa: É evidente que há uma piora brutal nas condições de vida de milhões de pessoas, que estão desempregadas, passando fome, sem auxílio, adoecendo e morrendo. E, portanto, a percepção da responsabilidade da política genocida de Bolsonaro tende a crescer. Isso significa que aquela “janela” não é tão abstrata. Mas ela também não está totalmente aberta, pelo contrário. É preciso forçar sua abertura, com muita luta e mobilização.

Nesse sentido, a discussão sobre as candidaturas presidenciais de 2022 devem cumprir que papel? Ora, justamente o papel de reforçar a urgência de mobilizar e lutar pelo fim deste governo desde já.

Acontece que tem muita gente utilizando as entrevistas dadas pelo companheiro Fernando Haddad para espancar o PT, como se o partido não tivesse o direito de lançar uma candidatura para a presidência da República, quando na verdade devemos incentivar que o Haddad que teve 47 milhões de votos em 2018 e que centenas de outros companheiros e companheiras cumpram com o papel de se projetar no debate político nacional e levantar a urgência do fim do governo Bolsonaro, agora e/ou em 2022.

Por isso que não devemos ficar “comendo fixa” de quem, seja pela direita, seja pela esquerda, fica de forma cínica e oportunista falando agora aquilo que pensa desde sempre: que o PT deve fazer consigo aquilo que a direita tenta fazer a quarenta anos, que é anular o maior partido de esquerda da disputa presidencial. Devemos fazer justamente o contrário.

Agora, não podemos cometer o erro de depositar todas as nossas fichas na eleição de 2022, sem considerar o que precisa ser feito em 2021. O PT deve e precisa ter candidatura em 2022, essa não é a questão. A questão é que para termos uma candidatura em 2022 com mais viabilidade e para derrotarmos a direita o ambiente do país precisa ser outro, Lula precisa ter recuperado seus direitos políticos, a extrema direita precisa estar sob constante pressão e o centrão ameaçado. Isso só será atingido se mudarmos a política que hoje tem prevalecido.

A linha política que levou ao voto desastroso da maioria dos parlamentares de esquerda a votar em baleia Rossi e que tinha levado as centrais sindicais a chamar, para o 1º de maio de 2020, FHC e Rodrigo Maia, precisa mudar. Mas essa mudança, como está demonstrado, não ocorrerá espontaneamente. Por isso, devemos dedicar todas as nossas energias na luta que acumule forças para mudar essa política, pois ela é uma das responsáveis por parte das derrotas sofridas até agora.

*Patrick Campos, Advogado, membro do diretório nacional do Partido dos Trabalhadores